20
out
2015
10 filmes para aprender História!
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: Marcelo Silva

O papel do cinema vai muito além do mero entretenimento. Muitas vezes, os filmes são uma verdadeira aula de História. Pensando nisso, decidi listar dez excelentes títulos que abordam fatos históricos de uma maneira precisa, envolvente e mais agradável aos olhos do espectador do que páginas e páginas de livros didáticos. Acredite, meu caro leitor, estudar História pode ser divertidíssimo! Vamos aos filmes:

12 Anos de Escravidão (Steve McQueen, 2013)

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12 Anos de Escravidão é um tapa na cara da sociedade racista e hipócrita. Todo mundo que ignora a existência de uma dívida histórica com os negros será confrontado pela obra de Steve McQueen, que não alivia na hora de colocar em evidência a face mais cruel do homem. A história, baseada em um livro de mesmo nome, se passa nos Estados Unidos do século XIX. Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor, arrebatador no papel), um negro nascido livre, é sequestrado e vendido para trabalhar como escravo em plantações. A partir daí, ele passa a vivenciar os horrores da escravidão e inicia uma verdadeira luta para alcançar a liberdade – que só virá doze anos depois.

Além de permitir a visualização de certas características do sul dos EUA do século XIX, como o latifúndio, a monocultura, o discurso da superioridade ariana e o respaldo da Igreja à escravidão, o filme é ótimo para promover a reflexão sobre a situação histórica dos negros – questão muito importante também no Brasil, que vivenciou mais de trezentos anos de escravidão.

Argo (Ben Affleck, 2012)

Contando com a satisfatória direção de Ben Affleck e um roteiro bem arramado, Argo é o retrato de um momento político conturbado na história dos Estados Unidos e do Irã. O filme é ambientado em 1979, quando a embaixada norte-americana em Teerã é invadida por militantes islâmicos e estudantes iranianos, que passam a exigir a extradição do ex-governante do país Mohammad Reza Pahlavi, em tratamento de saúde nos Estados Unidos. Contudo, seis americanos conseguiram sair da embaixada antes da invasão, escondendo-se na residência do embaixador do Canadá. É aí que a CIA entra em ação com um mirabolante plano para salvá-los – plano esse que envolve a produção de um falso filme em território iraniano.

Apesar de estar longe de ser um filmaço, Argo é uma ótima opção para promover o debate sobre as relações entre o Ocidente e o Oriente e a interferência dos Estados Unidos na política de outras nações.

Hotel Ruanda (Terry George, 2004)

Estrelado por Don Cheadle, Hotel Ruanda mostra, de maneira crua e fidedigna, uma parte dos horrores da guerra civil que assolou Ruanda no início da década de 1990. Cheadle vive Paul Rusesabagina, o gerente de um luxuoso hotel de Kigali, capital do país. Presenciando o massacre da etnia tutsi, ele decide abrir as portas do estabelecimento para proteger a população, salvando, assim, 1268 pessoas – uma história que merece ser eternizada no cinema, não?

Durante os 120 minutos de longa, o espectador pode ter uma boa noção da gravidade dos conflitos étnicos no continente africano e o comportamento da ONU e das potências mundiais perante grandes crises humanitárias.

Invictus (Clint Eastwood, 2009)

Recentemente eleito presidente da África do Sul, Nelson Mandela (Morgan Freeman) encontra um país racista e economicamente dividido, em decorrência do recém acabado apartheid. A proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi, pela primeira vez realizada no país, leva Mandela a usar o esporte para unir a população. Pensando nisso, ele convoca o capitão da equipe sul-africana, Francois Pienaar (Matt Damon), e o incentiva a ganhar o torneio.

Clint Eastwood foi muito feliz em Invictus. Trata-se de um filme irretocável em todos os aspectos. Direção, elenco, roteiro, edição, etc. tudo atuou em sintonia para a realização dessa obra-prima. Morgan Freeman compõe com perfeição um Mandela calmo, pragmático e determinado; ao passo que Matt Damon direciona todo o seu carisma para a construção do jovem capitão Pienaar, que, juntamente com o seu país, passa por uma grande transformação de valores.

Didaticamente falando, o filme de Eastwood aborda de maneira bastante concisa as tensões étnicas na África do Sul, os obstáculos de Mandela frente à presidência e a capacidade, mesmo que momentânea, do esporte de atenuar as diferenças sociais e unir toda uma nação em prol de um só objetivo.

Lincoln (Steven Spielberg, 2012)

Muitos criticaram Steven Spielberg por mostrar apenas o papel do homem branco no processo de libertação dos negros nos Estados Unidos do século XIX. Mas eu entendo o diretor: a intenção era mostrar a batalha burocrática que foi aprovar a décima-terceira emenda – que aboliu oficialmente a escravidão em todo o território estadunidense.

Contando com uma atuação memorável de Daniel Day-Lewis como um teimoso e idealista Abraham Lincoln, o filme pode desagradar alguns espectadores por ter muitos diálogos e pouquíssimas ações, mas, por seu conteúdo histórico, merece atenção.

Mauá – O Imperador e o Rei (Sérgio Rezende, 1999)

Um visionário. Esse é o melhor jeito de definir Irineu Evangelista de Sousa, mais conhecido como Barão de Mauá. Em um país essencialmente agrícola, ele enxergava na indústria o futuro e propunha a construção de um novo modelo econômico em terras tupiniquins. Infelizmente, seus ideais esbarraram no conservadorismo da sua própria época.

É com muita sutileza que Mauá – O Imperador e o Rei traça a trajetória do famigerado empresário. Paulo Betti tem uma atuação apaixonante na pele do protagonista; os gestos minuciosos comprovam o esmero técnico do ator. Othon Bastos e Rodrigo Penna também não ficam para trás – este soa incrivelmente verossímil como o imperador Dom Pedro II.

Quem assiste a esse filme é literalmente transportado para o Brasil do século XIX – a escravidão, as tensões políticas, a economia agrária, o avanço do liberalismo, tudo isso está presente na obra de Sérgio Rezende.

O Dia Que Durou 21 Anos (Camilo Tavares, 2013)

Fruto de uma apurada investigação, O Dia Que Durou 21 Anos é um documentário revelador que mostra os bastidores do Golpe de 64. O foco aqui é no papel exercido pelos Estados Unidos, nação que arquitetou a queda de João Goulart e a tomada do poder pelos militares. Rico em detalhes, o documentário traz declarações de estudiosos da área e de figuras políticas da época – como o falecido Plínio de Arruda Sampaio -, além de documentos até então secretos e gravações telefônicas que comprovam a participação dos estadunidenses no golpe.

O Grande Ditador (Charles Chaplin, 1940)

Obra-prima de Charles Chaplin. Por meio da sátira, o cineasta explicita todo o cenário político dos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Seu personagem, o líder totalitário Adenoyd Hynkel, nada mais é do que Hitler travestido. Em sua companhia, há Benzini Napaloni (Jack Oakie), a versão cartunesca de Benito Mussolini. Por trás dos momentos cômicos, nota-se o discurso de ódio nazifascista, a corrida bélica, a tensão política e a perseguição às minorias.

Dono de uma genialidade singular, Chaplin cria uma obra que, num primeiro momento, pode parecer simples e despretensiosa – mas se mostra dona de uma abordagem gigantesca. A cena em que o ditador Hynkel brinca com o globo tornou-se icônica; bem como o discurso inspiradíssimo de Chaplin (sim, é o próprio ator que está ali transmitindo a belíssima mensagem final, não o personagem). Um daqueles momentos que só o cinema é capaz de nos presentear.

Uma História de Amor e Fúria (Luiz Bolognesi, 2013)

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Apesar de o Brasil produzir poucos longas de animação, Uma História de Amor e Fúria merece um destaque especial. A trama é dividida em quatro segmentos envolvendo diversos momentos da história do Brasil – o conflito entre tupiniquins e tupinambás, a Revolta da Balaiada durante o período regencial, a repressão da ditadura e a luta pela água no futuro distópico. O roteiro apresenta um genuíno retrato de um país complexo e sempre em movimento. Luiz Bolognesi, diretor do longa, entregou uma verdadeira obra prima que chegou a figurar entre os 10 finalistas a uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. Infelizmente, os votantes fecharam os olhos para a beleza que é Uma História de Amor e Fúria.

Rasputin (Uli Edel, 1996)

O filme de Uli Edel brinca com a aura mítica criada em torno de Rasputin, padre que, devido às suas habilidades misteriosas – envolvendo um estranho poder de cura sobre o hemofílico filho do czar –  tornou-se uma figura constante no palácio da família real. A cada dia, aumentava a influência de Rasputin sobre as decisões do líder russo, o que acabou servindo de combustível para o que viria a ser a Revolução Socialista de 1917.

Sabendo incorporar com extrema perfeição a instabilidade psicológica, os anseios sexuais e o ar de mistério que eram próprios a Rasputin, Alan Rickman permite ao espectador entrar na mente de uma das personalidades históricas mais controversas do século passado. A relação do personagem com a família Romanov é muito bem trabalhada pelo roteiro, que ainda demonstra um preocupação especial em fazer oportunas referências ao início da Primeira Guerra Mundial.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!