13
out
2015
Maratona Zé do Caixão: “Exorcismo Negro”
Categorias: Críticas, Maratona Zé do Caixão • Postado por: Marcelo Silva

Exorcismo Negro

José Mojica Marins, 1974
Roteiro: José Mojica Marins & Rubens F. Lucchetti
CIC Vídeo

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O ano era 1974. Enquanto O Exorcista fazia sucesso mundial, Mojica não podia ficar de braços cruzados. Ele logo vestiu seu manto negro de Zé do Caixão e foi para a fila do cinema fazer a sua publicidade básica. Segurando cartazes do novo filme que estava prestes a lançar, Mojica convocava o povo a prestigiar a versão nacional do demônio e esquecer o exorcista gringo. “O diabo é nosso”, gritava.  Um mês depois, o diabo veio a ser realmente nosso. No dia 23 de dezembro de 1974, Exorcismo Negro estreou na tela grande.

Na trama, o cineasta José Mojica Marins (que, pasmem, é interpretado por José Mojica Marins)  vai passar um fim de semana no campo para descansar e tentar escrever o roteiro do seu novo filme. Mas a paz do local logo é quebrada por diversos fenômenos paranormais, incluindo aí uma força demoníaca que passa a possuir o corpo das pessoas. Contudo, o que realmente choca Mojica é descobrir a existência, em carne e osso, de Zé do Caixão (Mojica, de novo). Até então, o cineasta acreditava que ele não passava de um personagem criado por sua mente e usado em seus filmes. A situação piora quando criador e criatura são postos frente a frente para um confronto decisivo.

Um verdadeiro exercício da metalinguagem. Essa é a expressão correta para definir Exorcismo Negro. Transcendendo a barreira entre ficção e realidade, Mojica assume papel duplo, interpretando, simultaneamente, a si mesmo e a seu alter-ego. Tirando a parte do intelectual refinado e bem-sucedido – ele não tinha a leitura como uma prática cotidiana e também nunca gozou de enorme prestígio social -, muito do que é visto no filme é um reflexo do diretor. Podemos citar, por exemplo, o conflito de identidade entre artista e personagem, que, até os dias de hoje, está presente no imaginário coletivo. As pessoas conhecem de nome o coveiro da ficção, mas nunca ouviram falar em Mojica – estaria a criatura se sobrepondo ao criador?

Vivendo a si mesmo, Mojica não enfrenta dificuldades no papel. Apesar de não poder contar com os discursos inflamados e o carisma inigualável dos seus personagens anteriores, o ator tem uma atuação sóbria e contida.  Se não chega a arrancar aplausos, Mojica também não dá brecha para vaias.

Quando assume o manto de Zé do Caixão, a interpretação do ator ganha força e entusiasmo. E o motivo disso é simples: Zé tem uma personalidade própria, é um personagem que extrapola a ficção. Vê-lo em tela, mesmo que por poucos minutos, é uma alegria indescritível, um espetáculo à parte. O modo como o roteiro o insere na história é interessante – Zé do Caixão trabalhando para o capiroto, por que não?

O restante do elenco também entrega atuações boas. Desde o momento em que entra em cena, Geórgia Gomide usa o olhar angustiado para explicitar que esconde um terrível segredo. Segredo esse que serve de eixo condutor da história e está diretamente relacionado à sua filha, Wilma (a sensual e igualmente talentosa Ariane Arantes). Esta é responsável pelo melhor momento: a cena em que, completamente nua, é possuída e se masturba com uma barra de metal – deixando a pequena Regan e o crucifixo de O Exorcista no “chinelo”.

Mas nem tudo são flores. Se comparado a todos os outros filmes analisados nesta maratona especial, Exorcismo Negro é o que mais apresenta defeitos. Durante o segundo ato, o roteiro não sabe qual rumo irá seguir. A consequência disso é a predominância de uma grande monotonia e cenas prejudicadas por cortes abruptos, closes inapropriados e situações repetitivas – as possessões em série deixam de cumprir papel relevante na narrativa e se tornam apenas uma distração, um enfeite.

O desfecho também não deixa de ser irregular. Se o espectador aguardava um enfrentamento épico entre José Mojica Marins e Zé do Caixão, ele terá uma tremenda decepção. Tudo é resolvido com pressa. A impressão que fica é que falta o grande clímax – é como se tivessem comido a cereja do bolo antes de servi-lo.

Se, por um lado, Exorcismo Negro não é uma das melhores obras do diretor, por outro, ele está longe de ser um filme ruim. Sendo assim, não há motivo para não encher os pulmões e, com todo o fôlego possível, gritar: “o diabo é nosso! Mojica é nosso!”



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!