06
out
2015
Maratona Zé do Caixão: “Finis Hominis”
Categorias: Críticas, Maratona Zé do Caixão • Postado por: Marcelo Silva
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“Quando o homem olhar dentro de si e focar o pensamento no que viu, nesse exato momento, ele compreenderá a razão da sua origem e de sua existência”

Finis Hominis

José Mojica Marins, 1971
Roteiro: José Mojica Marins & Rubens F. Lucchetti
Multifilmes

4

OkFinis Hominis não conta com a presença do personagem Zé do Caixão. Porém, sendo uma obra diferenciada de Mojica, sinto que tenho a obrigação de comentá-la. Se, em O Estranho Mundo de Zé do Caixão, ele já havia traçado um paralelo com a narrativa bíblica, mais precisamente com a criação divina; aqui ele expande a influência do cristianismo em seu repertório e cria uma espécie de messias, um Jesus Cristo às avessas.

A história acompanha um homem (José Mojica Marins) completamente nu que emerge do mar e passa a perambular tranquilamente pelas ruas da cidade. Por todo lugar que passa, opera pequenos milagres e interfere na vida de diversas pessoas, inclusive, salvando de um destino trágico uma mulher adúltera e um marido traído. Assumindo o nome Finis Hominis (O Fim do Homem, em latim), ele é tido como um messias moderno e conquista a atenção da sociedade, que volta seus olhos para a estranha figura que surgiu do nada. Quem seria ele?

Mesmo não se enquadrando no gênero terror, o filme não dispensa uma pegada sobrenatural. As ações de Finis seriam, na prática, impossíveis de serem concretizadas. Mais do que isso, o cineasta também faz um verdadeiro estudo dos tipos sociais brasileiros. Durante os 79 minutos de projeção, somos apresentados a uma família da classe alta que usa a aparência para esconder as traições, uma equipe de médicos cuja maior preocupação no expediente é fazer sexo com as enfermeiras e acompanhar a partida de futebol no rádio, um grupo de trambiqueiros que se aproveita da ingenuidade de um ricaço para passar-lhe a perna, etc. E, em meio a tudo isso, está Finis, sempre com seu silêncio introspectivo e o olhar atento para as injustiças sociais (nem preciso dizer que Mojica arrasa no papel, incorporando todos os trejeitos que se espera de uma figura messiânica). Mesmo sem o charme e a imponência de Zé do Caixão ou do professor Oaxiac Odez, o profeta da história é um admirável personagem. Enquanto o monólogo televisionado é de uma beleza que só se vê na sétima arte, as ações bondosas do protagonista levam o espectador a criar um forte vínculo com ele – a cena da cura no hospital, com uma expressiva trilha sonora no fundo, é de tocar o coração, talvez o momento mais intimista da cinematografia de Mojica.

Como é de costume, Mojica, como diretor, insere momentos insólitos que só poderiam ter nascido de sua mente. A alternativa encontrada pelo golpista para fazer a amante chorar no velório da vítima foi imprevisível, uma coisa que nem o mais caloroso fã do cineasta poderia imaginar.  Em mais um momento cômico e bizarro, Finis arrecada dinheiro para protagonizar um show, mas, na hora de se apresentar, some sem deixar vestígios, deixando a plateia confusa – e o espectador, do outro lado da tela, com um sorriso travesso no rosto.

E o que dizer da surpresa guardada para o final? Em uma verdadeiro jogada de mestre, Mojica faz o público repensar tudo o que viu e se questionar sobre a seguinte questão: Finis Hominis, maluco ou profeta?

Pela parte técnica, não há do que reclamar. A novidade é que aqui há uma exploração maior de espaços externos, com direito até a tomadas na praia, no alto de um rochedo e no agito da cidade grande. Seguindo nessa linha, o diretor de fotografia Giorgio Atilli (fiel colaborador de Mojica, a propósito) opta por planos mais abertos e cores neutras – curiosamente, há um uso de tons diferenciados na sequência dos hippies.

A única estranheza do longa é a mistura não justificada de cenas coloridas com preto e branco. Sem nenhum motivo aparente, o filme oscila entre essas duas opções visuais, causando um certo incômodo no espectador, que presencia essa alternância sem entender o real porquê.

Enquanto o dia em que o nosso Finis Hominis emerge da água do mar não chega, ficamos com o sábio (ou seria louco?) homem que vimos na tela do cinema. “A salvação de cada país está na cooperação de seu próprio povo”, diz ele, em determinado momento. Em um Brasil tão nebuloso e polarizado como o de hoje, essa frase vem bem a calhar, não é mesmo?

– Para assistir a Finis Hominis, clique aqui.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!