01
nov
2015
Crítica: “Beasts Of No Nation”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcelo Silva
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Beasts Of No Nation

Cary Fukunaga, 2015
Roteiro: Cary Fukunaga, baseado no livro de Uzodinma Iweala
Netflix

3.5

A realidade dos meninos-soldados na África não é um tema novo no cinema. Ela já foi mostrada em filmes como Diamante de Sangue – e, agora, volta à tona nesse que é o primeiro longa-metragem de ficção produzido pela Netflix.

Dirigido por Cary Fukunaga (da série True Detective), Beasts of No Nation (Bestas de Nenhuma Nação, em tradução literal) traz a história de Agu (interpretado de maneira incrivelmente verossímil pelo novato Abraham Attah), um menino de uma nação africana que se vê em meio à guerra após presenciar a morte da sua família por tropas do governo. Recrutado como soldado pelo líder de uma facção rebelde (Idris Elba), o garoto presencia, aos poucos, os horrores do conflito e, consequentemente, a perda da sua inocência.

Se Diamante de Sangue pecava por romantizar o seu enredo (com direito a par romântico e ação à Hollywood), o longa de Fukunaga é cru na hora de retratar a triste realidade de um país em guerra. Aqui, não há espaço para frases de efeito, lições de moral ou final feliz; muito pelo contrário, o que impera é a tragédia em volta do pobre protagonista, um simples menino tirado da sua vida em família e jogado em um campo de batalha, longe da ternura e tranquilidade a que estava acostumado.

O líder rebelde identificado apenas como Comandante é a síntese perfeita do tipo de ser humano que a guerra produz. Vivido com maestria por Idris Elba, que incorpora trejeitos próprios – a postura autoritária, o inglês com forte marca do dialeto africano, o olhar amedrontador, os discursos inflamados -, esse personagem não será esquecido tão facilmente pelo público. Afinal, como esquecer a reação frustrada dele ao se encontrar com seu superior e descobrir que não passa de um simples peão em meio ao enorme jogo de interesses políticos e comerciais que um conflito armado movimenta?

Com um jogo de câmeras bastante inventivo e ângulos diferenciados, Cary Fukunaga mostra seu enorme potencial como diretor. Isso para não falar das qualidades como roteirista. Baseado no livro de Uzodinma Iweala, ele engendra a história de Beasts of No Nation de maneira inteligentíssima. Primeiramente, mostra-se sábio ao recusar falas expositivas para explicar a natureza do conflito – as informações estão espalhadas pela narrativa, como no momento em que traz um rádio transmitindo notícias sobre a situação política do país. Em seguida, insere as falas em off de Agu de tal modo que o espectador consegue adentrar no psicológico dele – e, desse modo, compreender melhor suas ações – mesmo sendo confrontado, a todo momento, por seu olhar e silêncio introspectivos.

A fotografia também apresenta um recurso interessante. Em determinada cena, Agu se prepara para ir ao campo de batalha e, subitamente, somos surpreendidos por um tom avermelhado que toma conta do ambiente, no que parece ser a expressão do desequilíbrio emocional do rapaz.

Simples e eficiente, Beasts of No Nation é o primeiro passo que a Netflix dá para eternizar sua marca na história do cinema – dessa vez, não só na parte de exibição, mas também na de produção de filmes. Se o capricho que vimos durante os 137 minutos desse filme se repetir nos próximos projetos, já podemos afirmar o seguinte: vem muita coisa boa por aí!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!