24
nov
2015
Crítica: “Elena”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Elena
Elena
Petra Costa, 2012
Roteiro: Petra Costa e Carolina Ziskind
Busca Vida Filmes

5

As memórias e os sonhos construídos com o passar do tempo são coisas que se mostram emocionantes quando se para para sentir, refletir e entender o que estava sendo memorizado e sonhado. Elena, filme de Petra Costa, deixa um sentimento bom e ao mesmo tempo amargo dentro do espectador. É um filme que te agarra e não quer te soltar, porque todos nós temos sonhos e todos nós buscamos nos entender.

Narrado de uma forma sensível e singular, capaz de mergulhar qualquer pobre mortal que esteja simplesmente passando pela sala em sua aventura, Petra reconstrói as memórias de sua irmã Elena, treze anos mais velha que ela, durante uma viagem à Nova York, afim de reencontrá-la e ao mesmo tempo se encontrar. Sua irmã tinha o sonho de ser atriz de cinema, estudou teatro, viveu cheia de dúvidas e certezas; viveu de forma enigmática, por ora triste e com muita intensidade em sua arte.

Este documentário é carregado de uma densidade emocional incrível. A estética da diretora (e também atriz – e até protagonista do longa) é impressionante e traz à tona questões muito íntimas de sua trajetória, remexendo um passado doloroso e com grandes feridas marcadas. Passagens muito específicas de sua vida, permeada pela vida de sua irmã mais velha, alguém que era bastante admirada por esta, são expostas ao público e, mesmo sabendo que Elena, a personagem tão enigmática apresentada anteriormente não estivesse mais lá, a diretora constrói a narrativa de forma com que o interesse do espectador seja aflorado para que a revelação da ausência desta personagem seja explicada de forma delicada, mas brutal.

A linguagem utilizada para contar essa narrativa é interessante. Petra busca encontrar sua irmã com recortes de jornais de suas peças, de fitas caseiras, de diários deixados pra trás, de relatos pessoais de sua mãe, Li An, que participa ativamente em diversos momentos contando suas mais duras lembranças de uma filha que deixa grande saudade. É a diretora-protagonista quem narra esta história e faz com que o espectador se envolva ainda mais em tudo o que está sendo descrito. É como se Petra estivesse mandando uma mensagem para Elena enquanto encontra respostas para o que procura. É interessante observar como ela faz esse papel de investigadora, tentando encontrar alguma coisa que falasse sobre uma irmã quem nem ela mesma conheceu.

Vale também ressaltar a importância da montagem para a construção narrativa do longa. As imagens de arquivo são cuidadosamente bem entrosadas às informações jogadas em off por Petra e, junto dos relatos pessoas descritos no presente momento da filmagem pela mãe das duas, a história se mostra ainda mais palpável e única ao público. O roteiro contextualiza muito bem quem se acha que fora Elena e quem se encontra com tais relatos e informações de quem seja essa Elena. A direção opta por narrar de pouco a pouco, o que demonstra um cuidado excepcional para a construção da figura. Há tempo para que o público respire fundo e se acalme com suas possíveis emoções exacerbadas, afinal de contas, é um filme muito intimista e que mexe com os sentidos de qualquer um sem nem se notar.

Há uma poesia latente que atravessa a maior parte das cenas. Há muitas mensagens dentro de outras mensagens que são tão humanas e sensíveis e capazes de deixar o público incomodado ao mesmo tempo que ainda mais imerso no filme. É um visual incrível misturado a um texto bonito; Petra utiliza vários planos bem fechados (e as vezes claustrofóbicos) para mostrar essa poesia viva ao espectador. Sua imagem se faz presente enquanto reconstitui fatos junto de sua mãe, quando se narra aspectos importantes de sua vida, tão mexida pela presença de Elena. O filme é cheio de detalhes, tanto visuais, por conta das imagens diversas de arquivo, incentivadas desde cedo por esta família repleta de artistas sonhadores; quanto detalhes metafóricos e textuais. As pequenas histórias, os pequenos detalhes, os pequenos relatos é que fazem tudo ser ainda mais repleto de beleza.

A cenas mais abstratas, que envolvem água, são bastante angustiantes e enervantes, mas ricas, sobretudo. Este é um documentário pessoal diferente, que reconstrói uma história não de uma pessoa tão conhecida e ao mesmo tempo desconhecida, mas de várias que estão todas ligadas por esta e pela arte; pelo peso que certas coisas e escolhas adquirem na vida de qualquer um. A viagem de Petra Costa não é somente honesta para com o espectador, mas para consigo própria, há uma identificação, uma ligação muito forte entre ela e sua irmã, o que é, de fato, notável. É inesquecível e tocante. Sinto que esta Elena se tornou uma memória inconsolável (também) para mim.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.