11
nov
2015
Crítica: “Um Brinde à Amizade”
Categorias: Críticas • Postado por: Convidado Especial
TROQUE PELO POSTER DO FILME

Um Brinde à Amizade (Drinking Buddies)

Joe Swanberg, 2013
Roteiro: Joe Swanberg
Sony Pictures

3

Um Brinde à Amizade não é um tipo de filme que pode ser considerado complexo. Na verdade, é o oposto deste conceito. Ele também não vai fazer você refletir filosoficamente sobre o sentido da existência humana, ou te levar a estados de emoções extremas. Um Brinde à Amizade surpreende justamente pela simplicidade e pela maneira que aborda as relações pessoais.

Antes de começar é preciso dizer que o filme faz parte do gênero “Mumblecore”, caracterizado por produções independentes, de baixo orçamento, com foco na naturalidade dos diálogos. As falas, ao menos em sua grande maioria, são totalmente improvisadas. É claro que o diretor “guia” os atores pelo caminho do filme, mas também dá liberdade para que as reações e os diálogos sejam espontâneos.

O filme conta a história de dois amigos que trabalham em uma fábrica de cerveja artesanal, Kate (Oliva Wilde) e Luke (Jake Johnson). Apesar da química existente entre os dois personagens e, a dúvida se não há outros sentimentos envolvidos, ambos estão namorando com outras pessoas. Luke tem um relacionamento de longa data com Jill (Anna Kendrick). Jill é professora, organizada, a típica personagem meio “certinha”. Kate namora Chris (Ron Livingston) um produtor musical.

Desde o início, fica claro que Kate e Luke possuem um estilo de vida e personalidades muito mais parecidas entre si do que com seus parceiros. São extrovertidos, espontâneos, “bagunceiros”. Entretanto, os dois casais são muito bem representados e não há nada que nos faça não gostar de ambos os relacionamentos.

Em um final de semana, os quatro decidem ir para uma casa de campo. Entre bebidas, conversas e brincadeiras, alguns sentimentos escondidos entram em jogo. As cenas mais íntimas são entre Kate e Luke, chega a ser quase invejável a amizade que os dois compartilham durante todo o filme. É neste relacionamento de cumplicidade dos dois personagens que a trama está baseada.

Os sentimentos e as relações são mostrados de forma muito natural e foge do clichê que muitos filmes apresentam. Olivia Wilde rouba quase todas as cenas, especialmente as que está bêbada, tornando-se a personagem por quem, talvez, sentimos mais empatia. Jake Johnson e Anna Kendrick também se saem muito bem em seus personagens. Ron Livingston perde um pouco o destaque em relação aos três devido a quantidade de cenas em que aparece, relativamente inferior aos demais, mas também não deixa nada a desejar em sua atuação.

Joe Swanberg nos apresenta uma fábrica de cerveja legítima e explora muito bem todas as cenas neste ambiente. Os movimentos de câmera variam bastante e percebe-se a intenção de usar o menor número de cortes possível; quando dois personagens estão conversando, ao invés do corte, que passa repentinamente para a pessoa que está falando, a câmera se movimenta de um personagem para o outro. A fotografia se mantém a mesma durante os 90 minutos, predominantemente clara (exceção às cenas noturnas).

É importante ressaltar a cerveja, presente quase como uma personagem principal na trama, pois o quarteto bebe muito. MUITO mesmo. Em entrevistas com o elenco, Anna Kendrick e Olivia Wilde confessaram que, nem sempre a cerveja usada era falsa. Houve momentos em que os atores estavam realmente bêbados.

A espontaneidade dos diálogos cria um ambiente muito próximo ao da realidade, das conversas e brincadeiras entre amigos. Um ponto negativo é que, vez ou outra, as falas ficam meio soltas e parecem irrelevantes. Como, por exemplo, em uma cena logo no início do filme, quando Kate está no escritório do seu chefe. Neste momento, os diálogos demoram para fluir e tudo o que foi falado pareceu dispensável para o desenvolvimento da história. Apesar disso, os pequenos e raros defeitos passam praticamente despercebidos perante a fluidez de toda a trama.

Os personagens trabalham, saem, divertem-se, bebem, conversam, zangam-se, frustram-se, enfim, tem uma vida normal. É essa normalidade, acompanhada de humor, toques de drama e, de um final inesperado, que deixa o filme tão envolvente.

Falei no começo da resenha que “Drinking Buddies” não é um filme que vai te levar a fazer reflexões filosóficas sobre a existência humana. Mas talvez te faça pensar sobre as complicações do dia-a-dia, se homens e mulheres podem ser apenas “buddies”, nas amizades no geral, sobre o que é atração e o que é traição e, principalmente, as frustrações que acompanham a vida adulta.

Mas nada que uma cerveja não ajude a resolver.

Autora da Crítica: Maria Vitória Ticiani, ex-colaboradora do Pipoca Radioativa.



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