23
nov
2015
O Iluminado: Kubrick x Stephen King
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Mateus Reginato

O cultuado filme de suspense e horror O Iluminado, dirigido pelo gênio Stanley Kubrick, é baseado no livro homônimo do também genial Stephen King. As obras possuem muitas semelhanças, obviamente, mas as diferenças que chamam atenção. Na época (final dos anos 70), imaginava-se que Kubrick iria reproduzir o best-seller no cinema; o diretor acabou fazendo a própria versão. Stephen King é desafeto declarado do filme principalmente pelas mudanças feitas.

Tanto a obra de Kubrick como a de King são consideradas, hoje, clássicos do gênero, mas essa rixa sempre perdurou entre o diretor e o escritor, e entre os fãs.

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Livro: O Iluminado, de Stephen King. Suma de Letras. 463 páginas. Skoob.

Filme: O Iluminado, de Stanley Kubrick (1980). Roteiro de Stanley Kubrick e Diane Johnson, Warner Bros.

O Livro

Terceiro livro de Stephen King e primeiro grande sucesso, O Iluminado, de 1977, conta a história do aspirante a escritor e alcoólatra Jack Torrance. O personagem passa por momento difícil. Desempregado, e com problemas financeiros e familiares, aceita o trabalho de zelador no luxuoso Hotel Overlook durante a baixa temporada, no inverno. Jack, a esposa Wendy e o filho Danny, de cinco anos, se mudam para o local. Isolados pela neve, Torrance esperava usar a solidão para restabelecer os laços com a família e escrever.

 possui um talento, mas não consegue controlá-lo. A “iluminação” do garoto dá nome e rumo ao livro. As habilidades são uma espécie de poder psíquico, envolvendo leitura de mentes e premonição. O Hotel Overlook esconde forças malignas devido ao passado obscuro, e Dan começa a ter visões das coisas horríveis que ocorreram. Ao perceber o talento da criança, as forças sobrenaturais tentam possuí-la; sem sucesso. Então, Jack Torrance torna-se alvo da maldade do hotel.

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Hotel Overlook

Wendy é muito explorada por King. É uma mãe preocupada com o futuro, com medo do marido e torcendo para que ele mude, pois o ama. A esposa também é corajosa e enfrenta as forças do Overlook com Dan, e está disposta a tudo pelo filho.

O Iluminado de King termina diferente do de Kubrick. Assim como disse o autor, em entrevista à Rolling Stones, “(…) o livro termina com fogo, e o filme, com gelo”. A obra do escritor é focada na Iluminação de Dan e nas forças sobrenaturais do hotel, as verdadeiras vilãs da história. Além de que Jack Torrance é amplamente inspirado no próprio Stephen King, que, quando escreveu o livro, estava combatendo o alcoolismo e com problemas familiares.

O Filme

Quando lançou O Iluminado, em 1980, Kubrick sofreu duras críticas, sendo, inclusive, “indicado” ao Razzie Award (Framboesa de Ouro, em português) de pior diretor do ano, assim como Shelley Duwall, intérprete de Wendy, foi “indicada” ao de pior atriz. As inovações técnicas do diretor não foram recebidas de braços abertos. O uso pioneiro de câmeras móveis steadicam (presas ao corpo do cinegrafista) criou as famosas cenas de Danny andando de triciclo nos corredores sufocantes do hotel. A consagrada crítica de cinema Pauline Kael, por exemplo, acusou Kubrick de usar essas técnicas para distrair em uma história que deveria ser aterrorizante. Kael também critica a previsibilidade das cenas de horror, como, segundo ela, na famosa cena das gêmeas no corredor do Overlook. Ao invés de ser visto como inovador, o filme foi visto como ruim por ser diferente à época.

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O elenco foi formado por Jack Nicholson no papel de Jack Torrance, Danny Lloyd como Dan, o veterano Scatman Crother na pele do chefe de cozinha do hotel, Dick Hallorann; além de Shelley Duwall como Wendy. A atuação de Nicholson é brilhante. Várias cenas icônicas da história cinematográfica foram protagonizadas pelo ator no filme, como a famosíssima “Here’s Johnny”, após quebrar a porta a machadadas. Essa cena foi filmada mais de 60 vezes. Sim, com portas diferentes. Aliás, Jack não usa um machado no livro, mas, sim, um taco de roque (derivado do cróquete).

A grande mudança em relação ao romance é o uso da Iluminação de Dan na história, ou o pouco uso. Kubrick e Diane Johnson, roteiristas do filme, passam pelos poderes do garoto, mas não explicam inteiramente ao público o que é. Ao invés de explorar o lado sobrenatural da história, o filme explora o psicológico dos personagens, principalmente de Jack, frente à solidão no Overlook.

O alcoolismo de Torrance também é pouco explorado, mesmo com a famosa cena de Jack falando sozinho no bar. No filme, ao invés de ser perseguido pelos fantasmas do hotel até enlouquecer, o personagem é insano desde o começo, quando consegue o emprego. O papel de Nicholson é semelhante ao protagonizado por ele em Um estranho no ninho, vencedor do Oscar de melhor ator, em 1974.

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Outra diferença em relação ao livro é a personagem Wendy. No filme, ela tem pouco destaque, além das boas cenas de perseguição. A atriz Duwall sofreu nas mãos do diretor. Kubrick filmou mais de cem takes do conflito na escada, por exemplo. Ele era grosso e impaciente com a atriz; ela deveria estar emocionalmente instável para o papel.

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Apesar das diferenças, o filme é uma verdadeira obra-prima. Um dos melhores filmes de suspense e terror já feitos. Se comparado à fidelidade, o filme peca em muitas ocasiões, mas o intuito nunca foi esse, tanto que Stephen King escreveu um roteiro e foi rejeitado pelo diretor.

“Ao longo dos anos, você sempre criticou o filme O Iluminado, de Stanley Kubrick. Fica surpreso com o culto construído ao redor do longa?
Eu não entendo. Mas há muitas coisas que não entendo. As pessoas obviamente adoram o filme, e não compreendem por que eu não gosto. O livro é quente, o filme é frio; o livro termina com fogo, e o filme, com gelo. No livro, existe um verdadeiro arco em que você vê este sujeito, Jack Torrance, tentando ser bom, mas que, pouco a pouco, vai se tornando maluco. E, quando assisti ao filme, Jack era louco desde a primeira cena. Tive que ficar com a boca fechada na época. Era uma exibição antecipada, e Jack Nicholson estava presente. Mas fiquei pensando comigo mesmo, no momento em que ele apareceu na tela: “Ah, eu conheço esse cara. Eu já o vi em cinco filmes de motoqueiro, em que Jack Nicholson fazia o mesmo papel”. E é tão misógino. Quero dizer, Wendy Torrance simplesmente é apresentada como uma dona de casa que não para de berrar. Mas essa é só a minha opinião, é só o jeito como eu sou.”

(Stephen King em entrevista à Rolling Stones)

Em 1997, Stephen King roteirizou uma minissérie de O Iluminado para a tevê, muito mais fiel ao livro do que o filme de Kubrick.

A “insanidade” de Jack Torrance no filme de Kubrick (esquerda) e na série de Stephen King.

 



Histórias bem contadas possuem a habilidade de criar universos e novos mundos. Seja no cinema ou em livros. Até em músicas e jogos. Minha preferência pela ficção, principalmente terror, vem por admirar a criatividade e a capacidade de escritores, diretores e roteiristas em moldar o sentimento dos espectadores da maneira desejada. Stephen King, Kubrick, Hitchcock, Poe, Ridley Scott, Lovecraft, Tarantino… Uma boa história sempre começa com uma pergunta. “E se…?”.