08
dez
2015
A maquiagem antes da computação gráfica!
Categorias: Especiais • Postado por: Mateus Reginato

Em uma era dominada pela computação gráfica, dificilmente vemos efeitos visuais no cinema sem essas tecnologias. Antes, os produtores precisavam se virar com o que tinham e, dependendo do orçamento, usar a criatividade e improviso.

Sem CG, as maquiagens, principalmente na ficção, eram extremamente difíceis de fazer. Mas o impressionante é a qualidade visual que muitos filmes antigos têm. Maquiadores conseguiam criar coisas impressionantes até para os dias de hoje. Criamos uma lista com sete das melhores maquiagens antes da popularização da computação gráfica no cinema. Mesmo com as dificuldades, os profissionais conseguiam fazer o impossível com o que tinham.

Listamos alguns filmes muito bem recebidos pela crítica e com maquiagens memoráveis mesmo em uma época em que os computadores não facilitavam tanto a vida dos cineastas.

É importante salientar que o uso de CGs não é de forma alguma ruim. Muito pelo contrário. A computação gráfica revolucionou a forma de ver e de fazer cinema, abrindo um enorme leque de possibilidades.

Nosferatu (Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens – 1922)

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Diretor: F. W. Murnau

Maquiagem: Max Schreck

O filme alemão é baseado na clássica obra de Bram Stoker, apesar dos problemas com direitos autorais do livro. O “Drácula” alemão foi um dos primeiros filmes de terror do cinema. É amplamente cultuado até hoje. A revolução trazida pelo filme inspira atores, diretores, maquiadores até hoje.

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Conde Orlok (Max Schreck) é um vampiro habitante dos Montes Cárpatos. A população local o teme, mas o corretor de imóveis Thomas Hutter (Gustav von Wangenheim) desconhece a verdade sobre o conde e oferece a ele uma casa. Orlok se apaixona pela esposa de Hutter, Ellen (Greta Schröder), e aceita a oferta do corretor. Ao mudar-se, o vampiro leva desespero à nova cidade, principalmente para Ellen e o marido.

O baixo orçamento e a idade do filme são empecilhos na busca por informações dele. Não se sabe ao certo como foi feita a maquiagem de Nosferatu; acredita-se que o próprio ator tenha sido o responsável, como era comum na época.

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Max Schreck como Nosferatu (esq.) e sem a maquiagem.

O Fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera – 1925)

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Diretor: Rupert Julian e Edward Sedgwick

Maquiagem: Lon Chaney

Baseado no livro de Gaston Leurox, o terror e drama de 1925 é clássico até hoje. No filme, Erik (Lon Chaney) é um compositor que sofre um acidente e tem o rosto desfigurado. O personagem passa a viver escondido nos esgotos de Paris, mas se apaixona por uma jovem cantora lírica e a sequestra.

Em épocas de cinema mudo, o ator Lon Chaney era uma lenda. “O homem de mil faces” inventou diversas técnicas para criar personagens monstruosos e grotescos. Foi um dos primeiros a inovar na maquiagem cinematográfica, influenciando diversas gerações. Para viver o “Fantasma”, Chaney usou até arames para prender o nariz.

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Chaney como Fantasma da Ópera (esq.) e sem a maquiagem.

Frankenstein (1931)

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Diretor: James Whale (1931)

Maquiagem: Jack Pierce

Baseado no livro de Mary Shelley e em uma peça teatral de 1920, Frankenstein é um clássico absoluto do terror. O filme acompanha o Dr. Henry Frankenstein (Colin Clive), um cientista obcecado por criar vida a partir dos mortos. Ao usar partes de corpos, o doutor dá vida ao monstro (Boris Karloff), que possui cérebro de assassino e passa a matar pessoas.

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Karloff como o monstro (esq.) e sem a maquiagem.

A maquiagem de Jack Pierce é icônica no mundo todo. Quem nunca viu Karloff como o monstro de Frankenstein? O maquiador também trabalhou nas continuações do filme. A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, 1935) e O Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939) também são clássicos do terror. Pierce é uma das maiores influências dos maquiadores atuais.

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Pierce maquiando Karloff.

O Exorcista (The Exorcist – 1973)

479691Diretor: William Friedkin

Maquiagem: Dick Smith

Inspirado no livro de William P. Blatty, roteirista do filme, O Exorcista é um dos maiores, senão o maior, clássico do terror na história do cinema. A história da garotinha de 12 anos Regan MacNeil (Linda Blair) possuída pelo demônio Pazuzu, assusta até hoje. Os padres Karras (Jason Miller) e Merrin (Max Von Sydow) são responsáveis por exorcizar a menina.

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Dick Smith é lenda quando o assunto é maquiagem. Trabalhou em The Godfather (O Poderoso Chefão), Taxi Driver, Amadeus (vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem em 1985), além de ser homenageado pela Academia com um Oscar Honorário em 2012. O trabalho de Smith em O Exorcista ultrapassou os limites da maquiagem conhecidos até então. A junção entre efeitos especiais e maquiagem fez do filme um marco no cinema. Cenas icônicas, como quando Regan gira a cabeça em 180º e os vômitos, foram criadas por Dick Smith. Sydow, intérprete do padre Merrin, chegou a usar, em algumas cenas, mais maquiagem que Linda Blair. O ator tinha 44 anos e interpretava um personagem de quase 80.

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Max Von Sydow sem maquiagem à época (esq.), maquiado no filme (centro) e o ator atualmente, com 86 anos.

O Exorcista foi indicado a dez Oscars e venceu dois, nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som.

Envelhecimento de Sydow através da mágica de Dick Smith.

O Homem Elefante (The Elephant Man – 1980)

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Diretor: David Lynch

Maquiagem: Cristopher Tucker

O drama biográfico conta a história de Joseph Merrick (John Hurt), chamado de John Merrick no filme. O homem possui graves deformações no corpo devido a uma rara doença e é apresentado como aberração em circos. Tratado como um animal, a vida do “homem elefante” muda depois que o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins) o leva ao Hospital de Londres para exames. Merrick encontra pessoas que se importam com ele e torna-se uma espécie de celebridade entre a burguesia londrina.

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Merrick no filme de Lynch, interpretado por John Hurt (esq.) e Joseph Merrick na vida real, em foto de 1889.

The Elephant Man foi o responsável pela criação do Oscar de Melhor Maquiagem e Penteado. Em 1981, ano em que o filme concorreu ao prêmio, não existia a categoria, e o grande trabalho de Tucker não pôde ser reconhecido. Portanto, em 1982, a categoria foi criada. O drama de Lynch foi indicado a oito prêmios da Academia, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Direção, mas acabou não vencendo nenhum.

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Processo de Tucker para reproduzir fielmente Merrick.

A maquiagem de John Hurt levava entre sete e oito horas para ser feita diariamente.

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John Hurt em Alien, de 1979, (esq.) e em The Elephant Man (1980).

Vídeo em que Cristopher Tucker fala sobre o processo de criação da maquiagem de John Hurt.

Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London – 1981)

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Diretor: John Landis

Maquiagem: Rick Baker

O clássico filme de terror conta a história de dois americanos atacados por um lobisomem durante viagem na Inglaterra. Um deles é morto. O sobrevivente (David Naughton) – e infectado – é socorrido em Londres. Na lua cheia, o jovem se transforma em lobo e aterroriza a cidade. A transformação do personagem em besta seria ótima até para os dias de hoje. O outro jovem (Griffin Dunne) retorna como “fantasma” para aconselhar o personagem de Naughton e possui maquiagem fantástica também.

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Naughton iniciando a tranformação (esq.) e sem maquiagem.

Em 1982, o filme de Landis deu a Rick Baker o primeiro Oscar por Melhor Maquiagem da carreira. O primeiro de sete. Baker é a sexta pessoa mais premiada pela Academia.

AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON, Rick Baker, left, applies makeup to Griffin Dunne, on-set, 1981, ©Universal/courtesy Everett Collection

an-american-werewolf-in-london-pictures-3 A maquiagem de Baker em Griffin Dunne.

 

A Mosca (The Fly – 1986)

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Diretor: David Cronenberg

Maquiagem: Chris Walas e Stephan Dupuis

O filme de ficção e horror é remake do filme homônimo de 1958. Nele, um cientista (Jeff Goldblum) desenvolve uma máquina de teletransporte e, ao testá-la, se funde acidentalmente a uma mosca. A transformação do personagem em um híbrido humano-inseto é impressionante. Goldblum passava mais de cinco horas sendo maquiado para as cenas em que estava mais deformado.

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Desenhos da transformação feitos por Chris Walas.

A Mosca venceu o Oscar de melhor maquiagem em 1987. Walas fez o design da maquiagem. A transformação era, supostamente, uma metáfora para o envelhecimento. A intenção era dar um aspecto cancerígeno ao cientista até o final da mutação.

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Trajetória de Goldblum no filme.



Histórias bem contadas possuem a habilidade de criar universos e novos mundos. Seja no cinema ou em livros. Até em músicas e jogos. Minha preferência pela ficção, principalmente terror, vem por admirar a criatividade e a capacidade de escritores, diretores e roteiristas em moldar o sentimento dos espectadores da maneira desejada. Stephen King, Kubrick, Hitchcock, Poe, Ridley Scott, Lovecraft, Tarantino... Uma boa história sempre começa com uma pergunta. "E se...?".