18
dez
2015
Breaking Bad – A importância da construção do roteiro!
Categorias: Especiais, Séries de TV • Postado por: Pedro Bonavita

Lembro-me que anos atrás, mais precisamente início de 2008, comecei a ouvir indicações de amigos sobre uma nova série no mercado audiovisual. Resolvi então assistir ao piloto e confesso, naquele momento não me empolgou. Não sabia ao certo o porquê. Passar batido por um sucesso de crítica e público seria uma heresia para um cinéfilo como eu. Me rendi e viciei!

Vou aqui escrever um pouco sobre alguns pontos da série. Mas, se você não assistiu ainda (duvido!), cuidado, o texto é repleto de spoilers.

Roteiro

Quando resolvi começar do zero, finalmente percebi o real motivo para no passado não ter me apegado à série, lá atrás, com meus 18 anos de idade, queria ver na televisão produções com mais ação, ritmo frenético e histórias de fácil entendimento, de fácil digestão. Totalmente oposto do que procuro atualmente. Breaking Bad é cadenciado, e por conta disso não conseguiu pegar tanta gente nas primeiras temporadas, mas é essa “lentidão” que torna o roteiro tão próximo da perfeição, praticamente nenhum nó desatado. Vince Gilligan construiu a trama com calma, deixando sempre tijolo sobre tijolo, como se tivesse erguendo um edifício indestrutível, e pra isso precisa de calma, tanto da equipe, quanto do telespectador. Passagens e introduções que talvez tenham passado batidos por mim durante a projeção das primeiras 4 temporadas, encaixaram-se perfeitamente na quinta e derradeira temporada. E diante de todo esse cuidado com a construção, no final tivemos exatos 62 episódios, que coincidentemente (ou não) é o número do elemento Samário na tabela periódica, esse é usado no tratamento contra o câncer de pulmão. Me senti ao final da série, como se tivesse montado um daqueles quebra-cabeças de 50 mil peças, sem perder uma só.

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Personagens

Toda essa qualidade do script não está somente no que diz respeito aos acontecimentos e as ações, mas também na criação dos personagens e suas transformações psicológicas. A grande maioria passa por esse tratamento do roteiro, mas vou me concentrar nos dois principais.

Walter White (Bryan Cranston) é apresentado ao público como um pacato professor de química, diagnosticado com câncer no pulmão, tendo em casa uma esposa grávida e um filho adolescente com deficiência física. Diante da dificuldade da doença e após um encontro inusitado com um ex-aluno seu, decide usar seus talentos como químico para fabricar metanfetamina e com isso conseguir guardar dinheiro necessário para sustentar sua família após a morte. A partir dessa decisão nosso herói vai se transformando – ou então mostrando sua verdadeira faceta – tornando-se Heisenberg um perigoso sociopata, tão mentiroso que ele próprio acabava acreditando naquela “verdade” que criara, alguém que pensa apenas em si, usando seu parceiro e sua família para alcançar o que realmente deseja: ser respeitado. O mais incrível dessa trajetória é que mesmo ele se tornando o “vilão”, ele consegue ter um final apoteótico com viés de justiceiro, que imagino, tenha agradado grande parte do público fã do seriado.

Em contrapartida, Jesse Pinkman (Aarol Paul) nos é apresentado como um jovem, recém saído da adolescência que busca no tráfico de drogas um refúgio para o seu fracasso como pessoa, ou seja, bem longe daquilo que costuma ser os heróis. Não sendo bom em nada, o personagem acha ali o escape para conseguir dinheiro fácil. Sua personalidade começa a mudar aos pucos, quando aceita virar parceiro de W.W. Se antes ele conseguia afastar o público dele, com o passar do tempo vai conquistando a empatia, nem tanto pelo carisma, mas porque começamos a entender que se trata de uma pessoa com o psicológico fraco, seja pelo constante uso de drogas, pela rejeição que tem por parte de sua família, ou então por perder todas as pessoas que acaba amando durante sua jornada, além de ser facilmente manipulado pelo parceiro, até perceber isso e virar o “herói”, quando ajuda a desmascarar Heisenberg.

No começo, Jesse e Walter conseguem ter uma relação voltada muito mais pro lado profissional, mesmo que já nos primeiros episódios se tornem cúmplices um do outro, não só na fabricação da droga, como também em confusões e até assassinatos. Pinkman ainda aquele adolescente revoltado mantém-se sempre com o pé atrás diante de seu ex-professor e agora parceiro, esse por sua vez tenta se aproximar, mas sempre deixando claro que havia um limite e que não deveriam envolver sua família em nada, ou seja, nem telefonemas em horas inapropriadas. Jesse era a “amante” de Walter. Com o passar do tempo as coisas entre eles se consolidaram, e percebendo a fragilidade emocional do mais novo, Heisenberg usando um pouco seu lado fraternal, começa a manipulá-lo. Mesmo quando estão separados, Pinkman acaba fazendo justamente aquilo que o outro quer. Acaba ali sendo tudo tão intenso, que culmina em brigas infinitas, até que Jesse resolve dar um basta em tudo, sendo convencido a desmascarar o protagonista.

A relação com o restante dos personagens também é interessante. Mentindo o tempo todo para sua família, consegue de sua esposa Skyler (Anna Gunn) quando ela descobre suas atividades ilícitas uma cumplicidade calcada basicamente no medo que ela sente de que alguma coisa de ruim pode acontecer com seus filhos. Com seu filho Walter Junior (RJ Mitte), tem uma relação saudável o tempo inteiro até vir a tona tudo que seu pai estava envolvido e o desaparecimento (morte) de Hank (Dean Norris). Com esse, seu cunhado, policial da DEA, W.W tem uma relação quase doentia, apesar de demonstrar uma amizade integralmente, faz questão o tempo todo de deixar pistas de que é o verdadeiro Heisenberg que tanto tira o sono de Hank. Com Gus Fring (Giancarlo Esposito) e Mike (Jonathan Banks), temos aquela relação clássica do vilão e mocinho, Heisenberg se sente em perigo o tempo todo e por muitas vezes passa a sensação de medo, até conseguir enfim eliminar o rival e patrão e tornar-se por pouco tempo sócio de Mike, sociedade essa que dura até não ser mais tolerável as grandes diferenças entre eles. E é mais um eliminado pelo nosso protagonista.

Breaking Bad é recheado de personagens cativantes, como por exemplo, Marie (Betsy Brandt) e o hilário advogado Saul Goodman (Bob Odenkirk), ainda não citados. Mas possuí personagens que deixam a desejar: os irmãos Salamanca são o ponto mais fraco de toda a jornada. Talvez nem tanto pela característica deles, mas sim pela péssima atuação dos atores. Me pareceu tão, mas tão forçado, que pra mim eram dois robôs sem expressão alguma em cena.

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Figurino/Arte/Cenografia

As equipes e acredito que sempre aliados ao criador Vince Gilligan interpretam de forma brilhante toda essa psicologia imposta pelo roteiro em cada um dos personagens. Tanto o figurino, quanto os cenários (muitos deles bizarros) ambientam perfeitamente a história.

Nesse ponto o que mais me chamou atenção foi o apartamento de Gale Boetticher, que além de ser apresentado de forma brilhante pela direção (assunto para daqui a pouco), nos passava exatamente aquilo que era aquele químico que passou a ter em W.W um ídolo. A ambientação era tão maluca quanto ele, tudo ali funcionou e talvez por isso duas sequências ali me marcaram bastante: uma conversa de Gale e Gus – não pelo diálogo em si, mas por toda a sequência que antecedeu a chegada de Gus, com o cientista cantando e arrumando alguns de seus objetos – e o assassinato dele.

Fotografia/Direção

Acho que é aqui, junto do roteiro (que envolve a construção dos personagens) que temos o ponto mais alto de toda a produção. A lente é usada quase que como um brinquedo, talvez eu nunca tenha visto tantos planos estranhos e criativos na televisão – o que me causa ainda mais espanto todo o sucesso de público de BB. Foi através dessa ousadia nos movimentos de câmera que se teve ritmo mesmo nas situações mais paradas, que na mão de outra equipe talvez virasse apenas mais uma cena de diálogos intermináveis e sonolentos. A questão da iluminação ajudou muito na ambientação dos cenários citada ali em cima. As sequências no deserto eram belíssimas, destacando sempre uma cor forte, mesmo que o tom dela fosse sempre levado para o pastel.

Sem deixar de falar também da direção de atores: o elenco parece ser levado ao extremo. Atuaram tão bem e foram tão bem dirigidos, que sinceramente é difícil desvencilhar a imagem deles aos personagens tão marcantes, mesmo sabendo de todo o potencial e talento de cada um.

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Breaking Bad pra mim é um marco, nunca mais verei séries com o mesmo olhar de antes, vou procurar algo a mais, não que eu procure coisa melhor, mas quero a partir de agora sempre me surpreender. Ficará marcado na minha cabeça e tenho certeza de que em pouco tempo vou pegar pra ver tudo de novo e diante disso tirar ainda novas conclusões. É, das que eu vi, a melhor de todas. E merece muito todos esses prêmios que levou ano após ano.

E acima de tudo, uma aula de roteiro. Qualquer um que se arrisque em escrever alguma coisa voltada pro audiovisual deveria ao menos dar uma olhada antes nessa magnífica criação de Vince Gilligan.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.