31
dez
2015
Crítica: “A Coleção Invisível”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
A Coleção Invisível
Bernard Attal, 2013
Roteiro: Bernard Attal e Sérgio Machado
Pandora Filmes

4

O francês Bernard Attal veio ao Brasil para realizar uma adaptação de um conto alemão escrito por Stefan Zweig (que, inclusive, influenciou o último filme de Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste). Algumas coisas do conto foram adaptadas para a realidade brasileira, sobretudo no interior da Bahia, onde a maior parte da história se passa. O resultado foi um filme bastante interessante com atuações muito competentes e um marco: o longa é o último da carreira do ator Walmor Chagas, que suicidou-se ainda antes do lançamento do filme.

Beto (Vladimir Brichta) passa por uma tragédia onde perde a maioria de seus amigos. Com essa tristeza ainda dentro de si, ele recebe a notícia de que sua família está passando por dificuldades financeiras com sua loja de antiguidades. Há uma solução para tudo isso: conseguir mediar a venda de algumas gravuras raras vendidas a colecionadores no passado pelo seu pai e assim garantir uma comissão para a loja. Para tanto, ele precisa viajar até uma cidadezinha no interior da Bahia, Itajuípe, para encontrar Samir (Walmor Chagas), o colecionador que comprara as gravuras anteriormente. O que aparentemente parecia simples se torna um desafio e tanto, tendo em vista que ao chegar na tal cidade – onde é recepcionado pelo menino Wesley (Wesley Macedo) – ele conhece Clara (Clarisse Abujamra), esposa de Samir, com quem se estranha; ela acaba não permitindo o encontro e criando uma inimizade com o rapaz logo de cara.

Novos personagens vão sendo inseridos à trama e talvez a principal delas seja Saada (Ludmila Rosa), filha de Samir, que ainda trabalha com o negócio da família, a plantação de cacau, encontrada em decadência no presente momento da história por conta da peste conhecida como vassoura da bruxa. O conflito entre ela e Beto se desenvolve de forma muito interessante, pois é visível uma influência de sua mãe para afastar o interesse do rapaz pela coleção de seu pai. Mas por quê as duas estariam tão interessadas que Beto não se aproxime de Samir e das gravuras? Isso é um mistério que o espectador vai descobrindo e entendendo aos poucos. A genialidade desse ponto da história é tocante e faz o filme todo valer a pena. O que antes parecia ser um filme apenas das ambições de um homem cheio de traumas para conquistar dinheiro para a família revela-se, então, um filme sobre a descoberta de um homem para as coisas simples da vida. É um filme triste, mas muito feliz ao mesmo tempo. E, novamente, o agridoce de ideias que faz do cinema uma das mais incríveis formas de arte.

A direção e o roteiro caminham lado a lado; os encontros dos personagens são marcados de boas atuações. Todos os atores e atrizes funcionam de forma quase perfeita. Clarisse Abujamra e Walmor Chagas dispensam comentários, são veteranos que estão em ótima forma e que mereceram seus prêmios de melhor atriz e ator coadjuvantes, respectivamente, do Festival de Gramado. Ludmila Rosa é uma grata surpresa na pele de Saada, a atriz precisa fazer mais filmes, pois se vê uma grande entrega da mesma à sua personagem; vale mencionar também uma outra surpresa, a de Wesley Macedo, vivendo também um Wesley, um menino que vai se tornando aos poucos um personagem importante para Beto, que reconhece seu valor no final das contas. E o que dizer do protagonista, Vladimir Brichta? Temos aí mais um exemplo de um ator que é bastante mal aproveitado em outros trabalhos e que é excelente. Por favor, Brichta, faça mais filmes! O drama de seu personagem é facilmente visto em seu olhar, seu jeito de falar; a determinação de Beto e as coisas que ele acaba aprendendo com a lição que lhe é apresentada é um dos pontos fortes do longa.

Claro que o filme tem alguns pequenos defeitos, como a falta de desenvolvimento de um envolvimento amoroso de alguns personagens. Facilmente alguns minutinhos a mais poderiam ser gastos para deixar tudo de forma mais bem elaborada. Nada que comprometa muito a história principal, mas que poderia ter sido melhor explorado para dar substância à narrativa. No mais, as participações de Frank Menezes (que faz o taxista) e Paulo César Pereio (o radialista) são bem bacanas.

A Coleção Invisível é um filme delicado, marcante, tocante, com um drama latente e com uma aura triste que o permeia em quase todas as cenas. Tem pontos altos e fortes, tem epifanias e tem ótimas atuações, ótimo entrosamento do elenco, um ótimo pano de fundo e um roteiro muito interessante, instigante e que revela-se simples, mas bastante astuto. Deixa para Beto (e para nós) uma lição bastante valorosa. No final, ainda podemos nos emocionar e nos deliciar com a música Seus Olhos Cansados, da incrível Tiê.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.