04
dez
2015
Crítica: “Casa Grande”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Casa Grande
Casa Grande
Fellipe Barbosa, 2014
Roteiro: Fellipe Barbosa
Imovision

4

Qual a sua opinião sobre as cotas em vestibulares de instituições públicas brasileiras?

Essa é só uma das frases que iniciam debates dentro do filme Casa Grande, do diretor Fellipe Barbosa. Tudo começa em uma luxuosa mansão no Rio de Janeiro, onde conhecemos Jean (Thales Cavalcanti), um jovem rico, estudante do último ano do ensino médio de uma escola tradicional da cidade, que está em dúvida no que cursar na faculdade (e consequentemente escolher algo “que vá ser para a vida toda”). Seu pai Hugo (Marcello Novaes), de certa forma, o pressiona para escolher um carreira que seja satisfatória de ambos os lados, tanto o financeiro quanto o de realização profissional. Se não bastasse essas pressões sociais, o jovem começa a perceber que nem tudo vai bem dentro de sua casa, pois o motorista da família simplesmente desaparece de uma hora pra outra e ele passa a ir para a escola de ônibus. Sua mãe Sônia (Suzana Pires) dá aulas particulares de francês e não esconde sua preocupação para com a segurança do filho.

Mas o motorista não foi sequestrado, não morreu, não sumiu sem explicações, esse não é um filme de suspense. Acontece que a situação financeira de seus pais está sendo maquiada para que ele não perceba. Tudo vai mal, mas para manter as aparências tudo vai bem. Tentando dar um jeito de melhorar a situação, o casal tenta de tudo para economizar, demitindo seus funcionários pessoais, cortando gastos aqui e ali, diminuindo as compras, tudo para que ninguém perceba o que está acontecendo até que tudo volte a caminhar nos trilhos. Por conta de suas idas e vindas de ônibus, Jean conhece uma garota no caminho, Luiza (Bruna Amaya), uma estudante de escola pública, bastante decidida em seus objetivos. Os dois passam a se encontrar em vários momentos e a construir um romance. Além destes personagens, também conhecemos Rita (Clarissa Pinheiro), empregada da casa de Jean, com quem o garoto tem algumas conversas interessantes; a personagem funciona como um ombro amigo.

Até então temos discussões plausíveis e atuais, personagens que podem parecer um conjunto de clichês em um filme que demonstra fazer uma denúncia social e um enredo que desconstrói certas situações; tudo isso é orquestrado de maneira interessante e bem desenvolvida. Os personagens, em sua maioria, vivem dramas cotidianos que são possíveis; os diálogos e os debates, apesar de não terem grande aprofundamento, quando dão margem para tal, são em sua maioria reflexivos, há a personagem pobre, humilde, que quer um futuro melhor, que sabe dos seus direitos e que vai lutar por eles, há o personagem rico, que sempre teve de tudo, desmascarando uma família e descobrindo que há muito por trás da cortina, há a personagem sacana, que engana e se arrepende, há muitas facetas dentro de uma mesma história e tudo isso é muito interessante de se ver.

As atuações no geral soam satisfatórias. A ideia de Barbosa foi de juntar atores, em sua maioria, estreantes para que tudo se tornasse ainda mais verossímil, afinal de contas esta é uma história que flerta a todo instante com o realismo visceral e atual. Thales Cavalcanti e Bruna Amaya são bastante esforçados, a direção contribui para que os dois tenham uma boa perfomance; Clarissa Pinheiro é um ponto fortíssimo, sua personagem é divertida e real, a atriz faz um bom trabalho e mostra que merece aparecer muito mais em várias outras produções; Marcello Novaes e Suzana Pires, os mais conhecidos do grande público por suas atuações em novelas, também desempenham um ótimo trabalho, são bastante convincentes na pele de pais ricos em colapso financeiro, com muitos problemas a serem resolvidos, muitas questões em jogo e dois filhos pra zelar; um do qual se orgulham e outra que negligenciam.

Apesar de algumas situações, debates e coisas postas em cheque dentro da trama parecerem fora do eixo do roteiro e da trama, Casa Grande (ou a balada do pobre Jean) é um filme bastante interessante e oportuno com amadurecimentos, angústias, vergonhas, preconceitos, questionamentos e bom elenco. Merece ser visto ainda, por conta da maioria de seus personagens se esconderem a todo instante em algo pequeno para então desabrocharem em algo tão pequeno quanto. Não se preocupe, as máscaras vão cair!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.