01
dez
2015
Crítica: “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
poster portugues
Eu, Você e a Garota que Vai Morrer (Me and Earl and the Dying Girl)
Alejandro Gomez-Rejon, 2015
Roteiro: Jesse Andrews
Fox Filmes

4

Na literatura contemporânea, os livros voltados para os públicos jovem-adulto têm um estilo crescendo muito com o passar do tempo: trata-se dos sick-lit, livros que geralmente trazem adolescentes lidando com situações tristes (geralmente alguma doença), mas retratadas com bom humor e situações fáceis e interessantes de se acompanhar. Basicamente essa fórmula pré-estabelecida tende a ser reproduzida por vários autores que querem escrever algo deste modo (e o clichê fica fácil de aparecer nessas histórias). Felizmente, a adaptação de que vos falo, tenta fugir a todo momento de cair no convencional e o resultado é algo bastante admirável e gostoso de se acompanhar.

Greg (Thomas Mann) é um garoto tranquilo, cursando o último ano do ensino médio e que produz filmes caseiros que satirizam produções clássicas do cinema junto de seu amigo Earl (RJ Cyler), removido do título brasileiro. Certo dia, sua mãe (Connie Britton) o obriga a ir visitar Rachel (Olive Cooke), uma garota que descobriu ter leucemia, para que se torne amigo dela. Mesmo contrariado ele vai ao encontro da garota e os dois passam aos poucos a construir uma amizade sólida e, infelizmente, com tempo contado. Earl também fica mais próximo de Rachel e, sem ela saber, com a ideia de uma colega de escola, os dois passam a planejar um filme para ela antes que esta vá embora, afinal de contas, a iminência da morte está presente nos pensamentos de todos. E no meio deste enredo é que estão todas as dúvidas, o amadurecimento, as falhas, os acertos de adolescentes se descobrindo em um mundo cruel. É tão palpável, tão real que chega a doer e ser engraçado ao mesmo tempo.

O mais interessante dentro deste filme é sua forma de narrar a história. O diretor Alejandro Gomez-Rejon – comparado a Wes Anderson (de filmes como Moonrise Kingdom e Os Excêntricos Tenenbaums) – foi bastante feliz com seus planos sequência, câmera subjetivas, montagem, entre outros vários aspectos que fizeram da linguagem do filme ser o que é. O roteiro também tem pontos altíssimos, chega a enganar o espectador em determinadas ocasiões – tudo para fugir do clichê que parece bater à porta a todo momento. É inevitável assistir a um filme do tipo sem saber de nada, com medo da decepção e não esperar que tudo possa desabar a qualquer momento. Felizmente essa obra é bem mais que isso!

A direção de arte também é bastante chamativa, com uma paleta de cores muito vibrantes e que quebram os sentimentos de alguns personagens para com os espectadores em determinadas cenas. Reconhecemos várias referências a vários filmes bacanas da história do cinema, como Taxi Driver (Scorsese, 1976), A Noite dos Mortos Vivos (Romero, 1968), Laranja Mecânica (Kubrick, 1972), tudo porque, além do drama, os personagens são apaixonados pela sétima arte e, como mencionado, são cineastas amadores que recriam diversos clássicos com seu estilo trash de fazer cinema. Inclusive, alguns filmes são usados para demonstrar emoções de Greg em algumas situações, algo concretizado com maestria pela direção.

Além da direção, a narrativa, a arte e o roteiro, a trilha sonora de Brian Eno é também um dos pontos fortes. Composições de bandas de post-rock e minimalistas como a Explosions on the Sky permeiam o longa em momentos bastante oportunos. A trilha é uma mensagem subliminar no cinema e, portanto, algumas lágrimas podem chegar sem perceber, porque há uma musiquinha ali no fundo querendo te puxar pro fundo do poço. O filme faz o espectador se identificar com os personagens, mostra que eles são palpáveis e que isso não está tão distante de nossa realidade. Afinal de contas, todo mundo foi (ou será) adolescente um dia e todos os medos, inseguranças, incertezas da vida adulta passam a rondar os pensamentos mais distantes. Crise existencial e comédia oscilam a todo instante, sem parecer chato, sem parecer inverossímil, sem parecer caricato e sem cair no clichê. Me repeti várias vezes para ressaltar isso, caso tenha alguma dúvida com relação a este filme.

As atuações são boas, principalmente Olive Cooke, que se doou de corpo e alma para sua Rachel, raspando os cabelos e fazendo tudo da melhor forma possível. A atriz tem uma atuação bacana e necessária para sua personagem. Os intérpretes de Greg e Earl também são bons, este é, inclusive, o primeiro filme de RJ Cyler. No elenco também estão Nick Offerman, Molly Sannon, Jon Bernthal e Hugh Jackman (sim, ele mesmo).

Arrebatando alguns prêmios bastante importantes no festival de Sundance desse ano, Eu, Você e a Garota que vai Morrer parece dar um spoiler atrás do outro conforme o filme passa (esse título também não ajuda), mas não se preocupe pois o filme é muito sensível, honesto e interessado no bem estar de seu espectador. Não deixe de ver, de rir, de chorar, de se encantar com uma história aparentemente simples contada de uma forma não tão simples.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.