28
dez
2015
Crítica: “O Clã”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
O CLÃ

O Clã (El Clan)

Pablo Trapero, 2015
Roteiro: Pablo Trapero
FOX Filmes

4

Ir ao cinema no Brasil assistir a um bom filme tem sido cada vez mais uma das missões mais complicadas, principalmente se analisarmos a distribuição de salas nos centros menores.

Moro no Rio de Janeiro e semana após semana conversando com minha namorada sempre desistimos de ir ao cinema por conta do que está em cartaz aqui por perto. Eis que ontem, teimoso que sou, vasculhei a fundo o CineMobits (aplicativo que contém agenda semanal do cinema) e encontrei uma solitária sala na região exibindo O Clã, filme indicado pela Argentina para representá-los no Oscar. Como fã do cinema latino e principalmente daquele produzido por nossos hermanos, não titubeei e em ótima companhia fui ao cinema.

Escrito e dirigido por Pablo Trapero, O Clã (El Clan) conta a história dos Puccio, que aparenta ser mais uma pacata família de classe média na Buenos Aires da década de 1980, mas que esconde em seu sótão diversos sequestros de pessoas com muito dinheiro.

Guillermo Francella, conhecido na Argentina muito mais pela comédia do que pelo drama, entregue um assustador Arquimedes, patriarca da família. O veterano ator acerta no tom ao interpretar um vilão totalmente frio e seguro, que não mede esforços para conseguir o que quer e também faz de tudo para proteger sua família. Contrastando com ele, temos Alejandro (Peter Lanzini), seu filho e principal cúmplice, que mesmo ajudando de forma espontânea nos sequestros, acaba se sentindo forçado, já que a relação entre pai e filho é muito mais de temor do que de respeito. Mas muito mais do que os sequestros, é a relação entre pai e filho que serve como fio condutor do roteiro, que constrói perfeitamente os altos e baixos dessa relação que atinge o clímax quando o esquema dos sequestros é descoberto , culminando em um “confronto” final de tirar o fôlego e que acaba por surpreender todo o público.

A fotografia é objeto importante no resultado final do longa. Ambientado no final dos anos 1980 o fotógrafo Júlian Apezteguia escolhe utilizar um tom pastel em sua luz, que dá a impressão de antigo, dando um ar documental que combina perfeitamente com o fato do roteiro ser baseado em uma história real. Mas o mérito de Apezteguia não é somente na escolha da luz, mas junto com Trapero acerta no uso da câmera, principalmente em três aspectos: o uso do plano sequência para apresentar a família e o ambiente onde vivem, o posicionamento da câmera nas cenas dentro de carros e o mais importante: aproxima a lente dos protagonistas em momentos chaves da trama, tornando a já citada relação entre pai e filho mais intimista possível, deixando de lado a trama criminal por algum tempo e virando quase que um estudo daquelas personagens.

É interessante no cinema argentino – e vimos isso recentemente também no ótimo “Relatos Selvagens” -, como eles gostam de rir da tragédia. Pablo Trapero decide narrar essa violenta passagem da história recente de nossos vizinhos de maneira leve, trazendo um tom de comédia muito bem vindo a algumas sequências sem deixar de lado em momento algum a seriedade com a qual o assunto merece ser tratado, o que também é importantíssimo, já que ao tratar-se de algo real, não é desrespeitoso com nenhum dos lados: vítimas e bandidos. Um aliado importante para essa leveza é a trilha sonora, repleta de clássicos do rock da década de 1980, as músicas todas elas com um clima festivo contrasta com as imagens violentas vistas na tela.

O Clã é mais uma ótima surpresa do cinema latino. Trapero retrata a história daquela família de maneira natural sem deixar de lado o suspense e a tensão necessários para o filme. E mesmo com toda essa naturalidade, ele consegue nos surpreender em sua última cena. É uma jóia retida a poucas salas, mas que deve ser contemplada por todos nós amantes da sétima arte.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.