06
dez
2015
Crítica: “Olmo e a Gaivota”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Olmo e a Gaivota
Olmo e a Gaivota
Petra Costa e Lea Glob, 2015
Roteiro: Petra Costa e Lea Glob
Pandora Filmes

3.5

Tenha em mente ao assistir Olmo e a Gaivota que trata-se de um documentário, mas a ficção é mesclada incessantemente com a realidade. Desta vez, a brasileira Petra Costa (do incrível Elena) divide a direção do filme com a dinamarquesa Lea Glob e as duas constroem um longa com diversas nuances, surpresas e dramas inquietantes. O espectador pode até sair do filme um pouco confuso com certas cenas; até que ponto a ficção fala mais alto que a realidade? Os pensamentos, a construção narrativa, as intervenções, a linguagem, tudo isso é um grande desafio não só ao espectador, mas para o elenco e para as diretoras.

O longa acompanha o cotidiano de um casal de atores de teatro que acabam por descobrir que estão grávidos. Eles são Olivia Corsini e Serge Nicolaï, que abrem as portas de sua casa para retratar (ou não) sua vida própria. O conflito se dá por conta da vida cheia de compromissos com o teatro que os dois tem, principalmente Olivia que carregará a criança durante os nove meses programados para sua gestação, tendo em vista que a peça em que encenarão, A Gaivota, de Tchekhov, irá exigir trabalho redobrado de cada membro da equipe e viajará por diversos lugares para apresentações. A notícia da gravidez de Olivia não é bem recebida quando noticiada para o diretor do espetáculo que prevê uma substituição de uma de suas atrizes. Contudo, o filme passa a acompanhar a angústia dessa atriz que terá que abandonar o seu trabalho para cuidar de sua saúde, tendo em vista que vive uma gravidez complicada e que necessitará de repouso quase absoluto.

Acompanhar essas angústias, os diálogos, as discussões, divagações, pensamentos e passeios de Olivia de forma natural deixa a história rica e instigante, embora o ritmo da narrativa seja lento e gradual. A personagem vai aos poucos descobrindo o que realmente está acontecendo com ela, com seu corpo; o que vem por aí é algo completamente diferente de tudo o que já passou antes, é uma emoção muito mais forte do que qualquer outra já experimentada. A relação dela com Serge é bastante interessante de ser assistida, pois os dois vivem em sintonia até mesmo quando estão discutindo severamente. O documentário ficcional é construído de forma bacana.

No entanto, as intervenções das diretoras em determinado momento da trama se tornam interessantes aparentemente, mas em nada contribuem para a narrativa. O espectador é, de certa forma, surpreendido ao ver Olivia conversando com alguém por trás da câmera e logo em seguida voltando para o que estava fazendo como se essa parede não existisse. Há também uma passagem que parecia um making off, como quando cenas para o filme vão sendo construídas e as diretoras intervém na interpretação dos atores em seus personagens, algo que soa artificial demais para um documentário, mesmo que se misture a todo momento à ficção. É um exercício de estilo narrativo que foi sendo desenvolvido sem que outros aspectos desta narração fossem levados em consideração.

Mesmo com esses pequenos cortes que destoam do restante da obra, Olmo e a Gaivota é um bom filme sobre maternidade e os medos que essa titulação evocam. Uma personagem tão real e ao mesmo tempo tão imaginativa é muito bem construída, acompanhada do início ao fim, com grande confiança e intimidade por parte das diretoras; seus medos, anseios, dúvidas e respiros caminham lado a lado em uma frequência de intensidade. Tudo muda com a gravidez de Olivia, ela mesma reconhece isso e ela mesma sabe que sua vida nos palcos estará eternamente modificada. Mesmo perdendo a oportunidade de exercer seu trabalho, ela se sente feliz com (quase) todas essas mudanças em sua vida.

No fim das contas, o espectador terá dúvidas da veracidade do apresentado, mas o cinema não foi feito para ser compreendido e sim apreciado em todas as suas imagens, sons e expressões. Acredito que este objetivo Petra e Lea alcançaram de forma muito perspicaz.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.