25
dez
2015
Crítica: “Sicario: Terra de Ninguém”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
281503

Sicario: Terra de Ninguém (Sicario)

Dennis Villeneuve, 2015
Roteiro: Taylor Sheridan
Paris Filmes

4

Que meu chefe não me leia (!), mas Dennis Villeneuve é um dos diretores mais expressivos de sua geração. O canadense tem talento, em especial quando é necessário criar suspense e tensão. Demonstrou isso muito bem em seus filmes mais recentes: Incêndios (2010), Os Suspeitos (2013) e O Homem Duplicado (2013) e parece ter chegado ao ápice de sua maturidade artística no mais recente: Sicario: Terra de Ninguém, exibido e com ótima recepção de público e crítica no Festival de Cannes esse ano.

Após uma operação contra traficantes onde descobre corpos de vítimas escondidas sob as paredes de uma casa na cidade de Phoenix, Kate Macer (Emily Blunt) é convidada a integrar uma equipe especial da CIA responsável por caçar o chefe do cartel mexicano que controla o tráfico de drogas na fronteira entre o país latino e os Estados Unidos. Essa missão “secreta” é chefiada por Matt (Josh Brolin) e Alejandro (Benício Del Toro) duas pessoas que não passam o mínimo de confiança, principalmente pelo fato de esconderem de Kate pontos chaves da investigação, como por exemplo o que realmente os motiva estar ali.

Emily Blunt está segura em cena, com um olhar forte e ao mesmo tempo cheio de tensão, consegue convencer na pele daquela personagem que ao mesmo tempo em que liderava uma equipe, desconfia e não concorda com os métodos dos seus novos líderes durante a caçada na fronteira. Despida de sua costumeira sensualidade, – e seu parceiro Reggie Wayne (Daniel Kalluya) faz questão de nos lembrar isso em vários momentos com seus comentários: principalmente quando a recrimina por estar com o mesmo sutiã há tempos – Blunt realmente pareceu muito à vontade na pele da policial em conflito. Benício Del Toro vive Alejandro, o contraponto de Kate, que por ser um homem de poucas palavras, acaba tendo em seu olhar e expressões o grande mérito de seu trabalho já que interpreta um homem claramente perigoso, mas que deixa explícito ser alguém com tantos conflitos internos, que ao mesmo tempo em que é alguém inquieto para dormir, consegue manter um tom de voz calmo durante suas falas, alterando pouco ou quase nada o volume diante das mais diversas situações e estresses.

Com essa temática era difícil que Sicario não tivesse cenas de violência, mas Villeneuve consegue deixar isso em segundo plano, já que ao contar a história diante da perspectiva do olhar de Kate, deixa claro que o foco é o suspense e a tensão, que estão presentes desde os primeiros minutos. Mostrando total domínio do que quer, o diretor consegue construir o clima que permeia toda a projeção através da evolução de Alejandro, que lentamente deixa seu passado vir à tona até desvendarmos finalmente o real motivo daquela missão na fronteira mexicana. Outro ponto que mostra  toda a segurança e inspiração da direção nesse projeto é durante o engarrafamento na estrada que liga a cidade de Juarez no México aos Estados Unidos. Ali, o diretor cria uma sequência de ação sem precisar utilizar perseguições malucas, escolhe usar planos fechados que demonstram toda a tensão vivida pelos policiais enquanto cercam e matam os bandidos e então só no final de toda essa ação é que os carros finalmente começam a correr, afastando-se do local.

A trilha sonora (Jóhann Jóhannsson) e principalmente a fotografia são aliados importantes do diretor na construção da narrativa, principalmente no ponto chave do filme, onde ao utilizar câmeras termais e de visão noturna o fotógrafo Roger Deakins (parceiro de Villeneuve também em Os Suspeitos) nos leva diretamente para o túnel claustrofóbico que liga os dois países. Além da escolha acertada do uso de câmeras especiais, existe também um trabalho magnífico de luz quando utiliza uma discreta superexposição em planos externos evidenciando cores mais quentes, enquanto nos ambientes internos faz uso de tons mais frios, dando ainda mais a impressão claustrofóbica que intensifica mais o suspense da trama.

Tratando de um tema importante mundialmente como o tráfico de drogas na América Latina e Estados Unidos, Sicario: Terra de Ninguém acerta ao não estabelecer o lado certo e errado. Não vilaniza nem santifica ninguém, mostra de maneira totalmente fria e necessária a realidade que existe não só ali, mas em muitas regiões do mundo, deixando claro o quão difícil é essa luta e que dificilmente teremos uma solução em curto prazo. Infelizmente.

Mais um grande trabalho da cada vez mais promissora carreira do canadense.

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.