06
jan
2016
Crítica: “45 Anos”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
O REGRESSO

45 Anos (45 Years)

Andrew Haigh, 2015
Roteiro: Andrew Haigh
Imovision

4

Lembro-me que assisti ao belíssimo “Amor” do cineasta alemão Michael Haneke na casa de meus avós no interior de São Paulo. Não sei ao certo se é porque assisti ao filme na casa de um casal que a sua maneira vive junto há décadas, mas aquela história entre um casal de velhinhos mexeu muito comigo, era realmente comovente a maneira como se amavam e cuidavam um do outro. Quando me deparei com o novo filme de Andrew Haigh, me interessei instantaneamente por achar, antes de assistir, ser muito parecido com o vencedor do Oscar de língua estrangeira de 2013. As semelhanças ficam apenas por tratar-se de outro casal da terceira idade, porém aqui os conflitos são outros e ao final da exibição tive a impressão que o diretor bebeu em outra fonte, mais poderosa ainda que Haneke: Ingmar Bergam e seu “Cenas de um Casamento“.

Contando com uma narrativa lenta e rotineira, porém precisa, acompanhamos uma semana do casal Kate (Charlotte Rampling) e Geoff (Tom Courtenay), que estão prestes a completar 45 anos de casamento. Acontece que uma notícia promete impactá-los pra sempre: Geoff recebe uma carta onde diz que o corpo de sua ex-namorada foi encontrado intacto (já que fora preservado no gelo) 50 anos depois de sua morte, nos Alpes Suíços. Aliando isso à outra descoberta do passado do marido, Kate começa a enxergar a relação deles de outra maneira e o casal acaba entrando em uma crise justamente na semana que celebrarão ao lado de amigos suas bodas de rubi.

O fato do corpo da ex-namorada estar totalmente preservado pelo tempo por si só já causa ciúmes em Kate, porém esse sentimento aumenta a medida que seu marido parece ter como único assunto o passado, deixando claro sua vontade de ir à Suíça ver o corpo de sua ex amada. Mesmo diante da crise não espere tantos conflitos, o objetivo não é esse. Trata-se na verdade de um estudo daquelas duas personagens e de sua relação, retratando a realidade vivida pelo casal e suas transformações. É interessante observar que cada um lida de uma maneira com os problemas da vida, professora de história, a personagem de Charlotte Rampling se pega muito ao passado, e de uma maneira um tanto quanto egoísta, porém compreensível, ela realmente fica abalada com as descobertas, enquanto Geoff – apesar de querer se “reencontrar” com a ex-namorada – parece totalmente desprendido do passado, o que fica ainda mais claro quando ao saber que ganharia um relógio de sua amada ele diz não se importar com a marcação de tempo, evidenciando o embate central daquelas personagens.

Apostando em um ritmo lento totalmente necessário à narrativa, Andrew Haigh constrói momentos do cotidiano de um casal idoso: mostrando encontros com amigos, danças lentas e uma frustrada tentativa de sexo. Mesmo com toda essa cadência, o diretor britânico mostra total domínio do roteiro (escrito por ele mesmo) não o deixando cansativo e envolvendo ainda mais o espectador em sua trama, principalmente pelo tom intimista que dá à ela, ao utilizar em grande parte da película a câmera colada em seus personagens.

Talvez o ponto mais forte de toda projeção é a interpretação dos protagonistas, que os rendeu o prêmio de atuação no Festival de Belim do ano passado. Tom Couternay dá vida de maneira competente à um homem atrapalhado, mas extremamente carinhoso, trabalhando muito desse carinho em seu olhar. Porém, quem realmente brilha é Charlotte Rampling, transparecendo certa melancolia em seu olhar conforme o roteiro avança, a atriz chega ao seu ápice na última sequência do longa, onde conta com uma atuação assombrosa que deve, com toda certeza, qualificá-la aos principais prêmios do ano. Essa última cena torna-se a mais importante do filme, nos dando dicas de como será o resto da vida daquele casal, fechando o longa de maneira perfeita.

45 anos é um filme sobre passagem de tempo, que mesmo ambientado em somente uma semana, ao revisitar o passado, demonstra perfeitamente como nossas escolhas realmente mudam nossas vidas. E, que se o amor não supera tudo, ao menos a maturidade nos ensina a lidar melhor com os desafios e crises. A impressão que fica é que daqui a 50 anos, ao ser revisto, o longa de Andrew Haigh seja um clássico britânico, atemporal, como já é.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.