23
jan
2016
Crítica: “A Garota Dinamarquesa”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)
Tom Hooper, 2015
Roteiro: Lucinda Coxon
Universal Pictures

2.5

Lembro que quando assisti ao O Discurso do Rei (The King’s Speech) saí da sala de cinema convencido de que tinha assistido a uma biografia um tanto quanto rasa. Na ocasião, o diretor Tom Hooper tinha uma rica história pra contar, mas decidiu focar somente na gagueira do Rei George VI. Lá, Hooper foi salvo por duas atuações de tirar o chapéu: Colin Firth e Geoffrey Rush. Na época achei um projeto “ok”, ou seja, bem longe de merecer todos os prêmios que ganhou naquela temporada. Desde então tenho os dois pés atrás quando se trata do cineasta inglês, principalmente quando, dois anos depois ele nos entregou a bomba Os Miseráveis (Les Misérables). Parece que eu tenho razão nessa desconfiança.

Einar Wegener (Eddie Redmayne) foi um pintor dinamarquês de relativo sucesso especializado em paisagens. Casado com Gerda (Alicia Vikander), uma pintora, também dinamarquesa, mas especializada em retratar pessoas que lutava para conseguir sucesso no meio artístico. Quando uma de suas modelos não pode posar para o retrato, Gerda pede ao marido para substituí-la, em total inocência. Esse é o ponto de partida para que Einar comece a perceber que se sente bem com vestimentas femininas e então deixa vir à tona o desejo de se tornar uma mulher, já que não se reconhecia mais no corpo de um homem.

A estética de Tom Hooper nunca foi das mais belas de assistir, mas aqui suas escolhas pela composição do quadro me incomodaram profundamente. Mesmo que a fotografia acerte no uso da luz, erra muito no posicionamento de câmera e também, claro, nos enquadramentos. O mais notável são as sequências na qual o diretor resolve usar planos e contra planos com personagens totalmente alinhados à esquerda ou direita quando o ponto de contato visual está centralizado. Além disso, podemos perceber também um excesso de “teto” em alguns outros takes, ou seja, o espaço acima da cabeça do ator é excessivo. Toda essa estética seria aceitável se tivesse algum valor narrativo, mas aqui é nulo. Inclusive, a narrativa se torna mais agradável quando são utilizados planos mais convencionais, como por exemplo, quando Einar se olha na frente do espelho, totalmente sem roupa e simula como seria seu corpo se fosse uma mulher. Criticamos o que precisa, também elogiamos quando justo. Hooper acerta ao explorar o corpo em “transformação” do pintor, e nos brinda com algumas sequências bonitas visualmente, como quando nosso protagonista assiste uma stripper através de uma janela, apenas para copiar seus trejeitos. O jogo de câmera usado nessa sequência é ótimo. É uma pena que o ego do diretor seja tanto que faz com que ele escolha os famigerados planos apenas para ter sua assinatura.

O maior problema do longa está no melodrama excessivo. Claro que o roteiro não ajuda muito, já que Lucinda Coxon decide por focar seu roteiro somente em um conflito do casal, quando na verdade seria muito mais interessante focar no conflito interno daquela rica personagem, mesmo que durante a projeção mostrasse também o conflito que se instaurou com sua esposa. Acontece que o diretor não faz questão nenhuma de tirar todo esse mel infantil do texto, quando resolve contar através da imagem aquela história ainda com mais clichês. Começando com a sequência que Einar posa para Gerda pela primeira vez (pelo menos dentro do filme) onde toda mise-en-scène é composta de uma breguisse sem igual, desde o toque das mãos nas roupas, até o olhar do ator. Sem contar que deixa totalmente sem força a questão do transgênero, algo que vou discutir um pouco mais a frente. Seguimos as 2 horas seguintes como se estivéssemos assistindo a um filme da sessão da tarde, com direito a sequência de choro em uma tempestade. Mas, o que me soou mais brega foram os momentos derradeiros, quando por exemplo, o médico vai dar a notícia de que Lili (Einar já assumido com a identidade feminina) piorou após uma de suas cirurgias e a câmera dá um zoom duplo no rosto do médico com uma trilha daquelas do tipo “tchan tchan”. Finalmente, a última cena do longa, apesar de bonitinha, faz jus ao seu melodrama.

É incomodo a nítida falta de tato de Hooper e Coxon em lidar com a questão do transgênero. Quando Einar começa a se vestir de mulher, o longa nos leva a crer que o que o incentivou a isso foi o dia em que posou para sua esposa em substituição à uma modelo, e sabemos muito bem que não é assim que a banda toca. Ironicamente, mais pra frente, nos é contado que ele já havia beijado um rapaz na adolescência. Ou seja, de certa maneira, Einar nunca se aceitou completamente como um homem, não por ele ter beijado alguém do mesmo sexo, mas porque é informado também que ele estava vestindo o avental de sua avó na cozinha de sua casa, deixando subentendido que ele já estava com uma aparência feminina no evento em questão. Mas, na verdade, o que mais impressiona é o fato de durante todo o tempo o roteiro lida com a personagem como se ela possuísse dupla personalidade ou então que Lili fosse uma entidade que baixasse em Einar e que a qualquer momento ele poderia voltar a ser um homem. O que mostra total falta de sensibilidade do diretor. O transgênero vai muito além da pessoa se vestir como o sexo oposto, trata-se da essência da pessoa. Ao contrário do que sugere o longa, não se trata de pessoas que possuem um botão que muda o gênero da pessoa a qualquer toque.

Se não é um desastre completo, deve-se às atuações de seus protagonistas. Vencedor do Oscar de 2015 por A Teoria de Tudo (The Theory of Everything), Eddie Redmayne nos brinda com uma atuação melhor do que a de quando foi premiado. Muito mais difícil na composição (não física, mas psicológica), é nítido que o britânico se entrega de corpo e alma à personagem. Mas é em Alicia Vikander onde temos a maior força do filme. A sueca está completamente segura da personagem que interpreta. Se interpretar uma personagem transgênero é difícil, Gerda não fica muito atrás em termos de dificuldade, já que ao mesmo tempo em que ela apoia a mudança de gênero de seu marido, é obrigada a conviver com a perda daquele amor (no sentido romântico) e Vikander consegue passar por todo esse conflito usando principalmente a força de seu olhar.

Com uma história interessante e uma poderosa personagem, A Garota Dinamarquesa peca (e muito!) ao se preocupar mais com o romance de Einar (Lili) e Gerda do que com a questão do transgênero, o que transforma o longa em um daqueles romances repletos de mel sem profundidade alguma. Uma pena.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.