28
jan
2016
Crítica: “Boa Noite, Mamãe!”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
BOA NOITE, MAMÃE
Boa Noite, Mamãe! (Ich seh, ich seh)
Veronika Franz e Severin Fiala, 2014
Roteiro: Veronika Franz e Severin Fiala
PlayArte

4

Não gosto de classificar filmes por gêneros, mas já que essa classificação existe praticamente de maneira oficial, posso dizer que não sou fã do gênero “terror”. Apesar de ter entre meus favoritos longas como “O Iluminado (The Shining, 1980)” e “O Exorcista (The Exorcist, 1973)”, minha implicância se deve ao fato da grande maioria dos filmes apoiarem sua trama em premissas simples como monstros, gritos e efeitos para causar tensão e medo no espectador, quando ao meu ver, mexer com o psicológico é muito mais eficiente. Principalmente quando o roteiro não é previsível e foge das fórmulas pré-estabelecidas. Ao fugir dos clichês, não me incomoda, por exemplo, usar a muleta dos monstros como no ótimo “The Babadook, 2014“. Aqui, em “Boa Noite, Mamãe!”, fita dirigida e roteirizada pela dupla Veronika Franz e Severin Fiala temos uma trama eficiente que foge da simplicidade costumeira no gênero.

É importante salientar que é praticamente impossível analisar um suspense/terror sem deixar escapar alguns spoilers da história. Então, se você não viu, cuidado com o que vai ler abaixo.

Os inseparáveis gêmeos Elias (Elias Schwarz) e Lukas (Lukas Schwarz) esperam pela volta de sua mãe (Susanne Wuest), que estava internada realizando cirurgias plásticas no rosto. Com o rosto repleto de ataduras e com aparente depressão pós-cirurgia ela não parece ser quem realmente é, o que acaba causando estranhamento nos irmãos. Acreditando que aquela mulher não é quem diz ser quem é, principalmente quando notam mudanças não só psicológicas, mas também físicas quando é revelado o rosto sem a marquinha de nascença. A partir de então começa uma caça dos meninos em busca de respostas para aquele mistério.

É interessante como o roteiro não nos mostra como era a vida daquela família antes da internação da mãe. Sabemos apenas que aconteceu um acidente, mas em nenhum momento os roteiristas fazem questão de nos dar maiores explicações. O que é um truque para nos prender na frente do vídeo durante todos os 99 minutos de duração, já que não estamos ali somente para entender aquele mistério do: “é ou não é a mãe dos garotos?”, mas também ficamos extremamente curiosos pra saber como era a vida deles antes daqueles eventos.

A direção é muito competente ao nos guiar durante toda a lenta narrativa, fazendo com que a tensão aumente a cada nova sequência sem precisar de muletas como já citei no primeiro parágrafo. É acertada também a construção das personagens, principalmente da figura materna, que nos é apresentada com uma curiosa atadura no rosto, que em conjunto com o temperamento agressivo com que ela trata os filhos e o fato de acompanharmos toda a trama através da ótima dos meninos, nos faz acreditar ser a vilã da fita, nos deixando “do lado” de Elias e Lukas inclusive nos momentos onde eles são mais perversos com sua genitora, já que ao tentar uma confissão de que aquela mulher não é sua mãe, os gêmeos a torturam, que faz com que o longa finalmente migre do suspense para o terror.

No terceiro ato temos uma reviravolta muito parecida como tivemos em “O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999)”. Finalmente é revelado o mistério: aquela mulher é realmente a mãe, e Lukas, um dos irmãos está morto. E, então podemos perceber que a direção foi nos dando dicas o tempo inteiro, como por exemplo, quando a mãe serve suco apenas para Elias, que rebate: “O Lukas também quer suco”. Mas as dicas não estão ali de forma mastigada. Ainda usando o mesmo exemplo, após o garoto cobrar a mãe sobre o suco, ela responde: “Se ele quiser, ele que peça”. E é aí o acerto dos diretores. Eles brincam com o espectador de maneira perversa, dando uma dubialidade que permeia toda a fita.

A fotografia (Martin Gschlacht) é muito importante também não só para manter o mistério do filme, como também nessa brincadeira dos diretores nos darem pistas do que realmente está acontecendo naquela vazia casa de campo (design de produção muito bem construído). Nos enquadramentos, o fotografo toma cuidado o tempo todo de manter Elias em primeiro plano, tomando conta das ações, inclusive na sequência que o casal da cruz vermelha chega ali em busca de uma doação, Lukas nunca interage com eles, está sempre ao fundo.

Gostei muito pouco da atuação de Susanne Wuest, é talvez o ponto mais fraco. Wuest parece não ter força pra segurar a personagem e deixa muitas vezes o tom errado nas cenas. Em contrapartida, Lukas Schwarz e Elias Schwarz estão em jornadas impecáveis. Enquanto o primeiro dá vida (morte) à um personagem introspectivo, mas que ao mesmo tempo manipula o irmão, Elias dá vida à um garoto que sofre de esquizofrenia e mantém contato com seu irmão morto. A mudança do olhar dos meninos conforme a narrativa avança é determinante para envolver ainda mais o espectador no suspense. E é notório como durante as cenas mais chocantes, como as de tortura, os meninos deixam de lado qualquer infantilidade que poderia ter em sua personalidade.

Conflitos entre mãe e filho sempre é uma temática difícil. O público tende sempre a ficar do lado da mãe. Nos bate aquela sensação de que nunca faríamos ou deixaríamos alguém fazer mal a quem nos deu a vida. Esse embate dos meninos com sua mãe acaba tirando o espírito de criança deles. Notamos que quando estão longe dela, Elias e Lukas agem como crianças normais, mas ao estar frente à frente com sua mãe a personalidade muda totalmente os fazendo agir como adultos cruéis.

É incrível como ao final da exibição ao pensar no filme, vamos descobrindo todas as dicas que estão ali presentes. Boa Noite, Mamãe! é um poderoso suspense com doses macabra do cinema europeu que faz com que o horror tome conta da tela em determinado momento.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.