20
jan
2016
Crítica: “Boi Neon”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
BOI NEON

Boi Neon

Gabriel Mascaro, 2016
Roteiro: Gabriel Mascaro
Imovision

5

Conhecer novas salas de cinema é sempre interessante. No último sábado conheci mais uma. O Cine Jóia, conhecida rede do Rio de Janeiro especializada no circuito alternativo, abriu recentemente uma filial sua em Jacarepaguá que tem em cartaz uma mistura dos chamados “filmes de arte” com o cinema comercial. Lá fui eu. Tive uma grata surpresa quando cheguei, não exatamente pela qualidade da sala e tela, que são medianas, mas sim por toda a atmosfera intimista ali presente. Mas o que me deixou mais feliz foi o fato de termos filmes que fogem do grande circuito comercial em uma região carente de bons filmes. E mesmo com a sala vazia, apenas seis espectadores, é importante que tenhamos os mais diversos filmes em cartaz nas mais diversas regiões do Brasil, para que ao menos traga curiosos às salas alternativas.

Enquanto os curiosos não lotam as salas e comecem a gostar de obras diferentes do pipocão tradicional, devo dizer que infelizmente Boi Neon não terá uma carreira muito bem sucedida comercialmente, pelo menos não aqui. Mesmo não sendo um filme exatamente difícil de assistir, ele não é tão simples assim. Principalmente por ter uma trama sem conflitos, reviravoltas, ou então com alguma lição de moral. Durante os 100 minutos de projeção, acompanhamos a vida de Iremar (Juliano Cazarré), Galega (Maeve Jinkings), Cacá (Alyne Santana), Zé (Carlos Pessoa), Mário (Josinaldo Alves) e mais pra frente Junior (Vinícius de Oliveira), todos eles trabalham em um universo não muito retratado, que são as vaquejadas do sertão nordestino. O roteiro se resume exatamente nisso, em contar um pouco a vida daquelas pessoas enquanto viajam de cidade em cidade trabalhando nos eventos onde duas pessoas, montadas em cavalos, tem o objetivo de derrubar o boi, antes que esse atravesse uma linha pintada no chão. A simplicidade do roteiro sem conflitos aparentes não é demérito nenhum. Pelo contrário, é uma das forças do projeto.

Gabriel Mascaro, diretor e roteirista, inciou sua carreira em longas como um documentarista, com o ótimo “Doméstica (2012)” e é possível notarmos aqui toda essa sua escola. Utiliza um tom documental ao escrever o roteiro e sabe perfeitamente usar a câmera, quando a coloca unica e exclusivamente a fim de observar as personagens. Esse tom faz com que o filme fique totalmente naturalista. É interessante observar àquelas pessoas agindo normalmente na tela, e se não contassem com rostos conhecidos, poderíamos facilmente confundir ficção com realidade. Toma todo o cuidado para não levantar nenhuma bandeira, o que seria uma fuga fácil ao retratar uma vida precária, onde a água de consumo é amarelada, o banho é tomado no caminhão e as viagens feitas ao lado dos animais, ao mesmo tempo em que não utiliza do coitadismo ao retratar as vaquejadas e leilões de animais. Não é um filme de esquerda ou vegano. Seu objetivo é único: contar aquele cotidiano do interior pernambucano. É tão natural o que assistimos que vez ou outra nos pegamos tentando entender alguns diálogos, já que o diretor não faz questão nenhuma em fazer o ator falar pra câmera. A direção de atores (que teve preparação da polêmica Fátima Toledo) é impressionante nesse sentido, notável principalmente na atuação de Juliano Cazarré, que está tão natural em cena, nos fazendo acreditar que viveu a vida toda no meio das vaquejadas cuidando dos bois e limpando suas fezes.

A fotografia e a (falta de) trilha sonora é deveras importante para manter ainda mais o tom da película. Diego Garcia nos brinda com belíssimas imagens e acerta ao utilizar luz natural em grande parte do tempo. A escolha por planos mais abertos nos deixam em posição de observador e é notável que com ao afastar as lentes das personagens, a fotografia acaba inserindo aquelas pessoas na natureza árida do sertão nordestino. A trilha sonora aparece somente naquelas sequências onde temos em cena algum tipo de emissão sonora, por exemplo, quando após o jantar todos dançam ao som de uma música regional, ou então durante os shows eróticos protagonizados por Galega e sua máscara de cavalo. Essa ausência de trilha deixa ainda mais forte as imagens, fazendo com que nada ali pareça romantizado. A fotografia é também responsável por alguns momentos interessantes durante o longa: os planos sequências e principalmente as cenas de sexo. Há muito não via uma sequência tão bela como o sexo entre Iremar e Geise (Samya de Lavor), e apesar de longa, a direção trata o sexo com uma naturalidade tocante, sem apelo erótico que muitas vezes acaba se tornando algo mais chocante do que belo.

Agora, o que mais me chamou atenção no longa e aí entra um pouco do roteiro e da construção daquelas personagens, é como Mascaro trata as questões de gênero. Juliano Cazarré interpreta um vaqueiro, acostumado ao trabalho braçal, mas que desenha roupas femininas em revistas pornográficas, ou seja, tem o grande sonho de se tornar estilista. Maeve Jinkings dá vida à Galega, caminhoneira que cria sozinha sua filha e conduz os animais e colegas estrada a fora. Quando o veículo quebra, é ela quem coloca a mão na massa pra arrumar qualquer problema mecânico. É dela a maleta de ferramentas e é interessante como isso é ressaltado em vários momentos. Vinícius de Oliveira surge na tela ostentando aparelhos nos dentes e cabelos lisos e compridos muito bem cuidados. Totalmente vaidoso com sua aparência. Mostrando ainda mais a intenção do roteiro em quebrar estereótipos, todos eles são heterossexuais, quando na verdade suas personalidades e sonhos podem nos fazer supor o contrário. É importante quebrarmos esses paradigmas e é bonito perceber como, mais uma vez, o filme trata essas questões com naturalidade. Sem julgamento nenhum, tanto do espectador, quanto daqueles que estão em cena junto.

Boi Neon é na verdade um dos filmes mais humanos que tive o prazer de contemplar. Agradeço ao Gabriel Mascaro por isso. Sua narrativa natural, seu poder de observar, suas belas imagens e a maneira que lida com os sonhos das pessoas, me fizeram sair do cinema completamente extasiado.

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.