30
jan
2016
Crítica: “Cartel Land”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
CARTEL LAND
Cartel Land
Matthew Heineman, 2015
Roteiro: Matthew Heineman
Netflix

4

O tráfico de drogas na fronteira entre Estados Unidos e México é um tema sensível e que recentemente foi abordado também pelo ótimo drama “Sicario: Terra de Ninguém“. Na minha crítica naquela época, eu afirmei que era importante mostrar a luta contra esse crime realizado naquela região e que atinge o mundo todo. Lá, Dennis Villeneuve trata de maneira fria essa questão, nos chocando, mas através de uma história fictícia, que pode fazer com que tenha um peso menor para algumas pessoas. Em Cartel Land, não, por tratar de um documentário, o tráfico de drogas e pessoas se torna ainda mais real. Sendo um tema recorrente no cinema há décadas, poderíamos estar diante de só mais um trabalho, mas a coragem com que Matthew Heineman encarou esse projeto já o torna desde o início diferenciado.

A intenção do diretor com esse documentário não é focar em questões morais e/ou legais, que seria uma premissa mais fácil. O cineasta prefere se ater às questões políticas que envolvem o combate aos cartéis que atuam na região da fronteira entre os dois países da América do Norte. Acompanhamos dois cenários. O primeiro, no estado da Arizona, um grupo de americanos são responsáveis por patrulhar uma parte da fronteira, impedindo que traficantes e coyotes passem por ali, invadindo seu país. O segundo, é no México, no estado de Michoacán, onde o José Manuel Mireles, organiza um grupo (maior do que aquele retratado nos Estados Unidos) para combater principalmente o Cartel dos Cavaleiros Templários, responsável por inúmeras mortes e pelo controle do narcotráfico em pelo menos 113 cidades daquele distrito.

Por mais que a primeira ideia de Matthew fosse realizar o documentário somente na terra do Tio Sam, focando quase que em um problema de imigração do que exatamente do tráfico, Cartel Land fica realmente mais interessante quando passado no país vizinho. Enquanto nos Estados Unidos estamos diante de um grupo pequeno, que quer fazer justiça com as próprias mãos, no México a questão toma dimensões maiores, quase como uma guerra civil. E é aí que começamos a perceber toda a coragem do diretor, já que nas ações no Arizona, acompanhamos um grupo, em um deserto que não entra em combate com ninguém, apenas prende um grupo de imigrantes ilegais em determinado momento. Enquanto isso, nas cidades de Michoacán acompanhamos verdadeiros embates entre os milicianos e os traficantes e é interessante como a câmera está sempre no lugar certo, na hora certa, no meio de tiroteios, na fabricação de drogas, etc.. Em determinados momentos a precisão do enquadramento é tanto, que parece que estamos diante de cenas dirigidas. E é impressionante, por exemplo, a sequência em que a câmera entra na casa de um dos líderes do cartel junto com os homens que estão atrás deles. Impressiona muito a frieza do operador de câmera em encontrar sempre o enquadramento perfeito de cada situação.

Tratando de um tema difícil e importante como esse, é de tirar o chapéu o trabalho da produção do longa, quando consegue acesso a informações sigilosas e consegue depoimento das pessoas envolvidas em todo o conflito, principalmente no México, seja de qual lado ela esteja. A intenção do diretor não é eleger mocinhos e bandidos e isso fica claro na montagem, que como em todo o documentário é um dos elementos mais importantes aqui. Importante principalmente quando nos surpreende em seu final, quando foca novamente no mesmo traficante que fabrica metanfetamina (sem 1/3 do glamour do laboratório de Walter White em Breaking Bad), a surpresa é tão grande que você imagina que saiu da cabeça de um roteirista de filme de ação, e o choque é justamente esse, aquela história é real, não parte da criatividade de ninguém. E sim da perversidade do poder.

Mesmo que toda a reportagem aqui seja restrita à um determinado local, Cartel Land tem um alcance mundial por tratar de um problema que não afeta só mexicanos e americanos. O tráfico de drogas é um mal que assola o mundo todo e as milícias idem. Por conta de uma política de segurança omissa, a população em um ato de desespero resolve tomar as rédeas da situação e fazer justiça com suas próprias mãos. Esse pensamento é justificável de certa maneira, mas não deixa de ser errado. Primeiro porque tornando-se uma guerra civil a situação começa a ficar insustentável e cada vez mais inocentes vão morrer e depois porque as milícias trazem poderes iguais aos que tem os traficantes, com a diferença de que os milicianos sempre se acham certos, acreditam o tempo todo que estão dentro da lei e que de certa forma estão fazendo um favor para a população e até para o governo. A situação no México não é muito diferente do que acontece, por exemplo, aqui no Rio de Janeiro. Onde milicianos expulsam os traficantes dos morros e/ou comunidades carentes e acabam dominando aquela região, não trazendo paz e tranquilidade alguma para os moradores, muito pelo contrário. E é interessante como assim como lá, aqui também esses grupos tem apoio de certos governantes.

Cartel Land é um documentário necessário ao mundo todo. Retrata como poucas vezes a triste situação do tráfico de drogas e do perigo eminente para a população. É também importante ao mostrar como o poder público é frágil. Ao final, fica a sensação de que não teremos uma solução para isso tão cedo. Aliás, a verdadeira impressão é de que nunca teremos a solução. Ficaremos sempre refém de traficantes e milicianos. Infelizmente.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.