15
jan
2016
Crítica: “Cinco Graças”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
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Cinco Graças (Mustang)

Deniz Gamze Ergüven, 2015
Roteiro: Deniz Gamze Ergüven
Pandora Filmes

3.5

Antes de começar a analisar Cinco Graças, coprodução entre Turquia e França que concorre ao Oscar de melhor filme de língua estrangeira é preciso contextualizá-lo. Nos últimos anos, e principalmente 2014 e 2015, estamos acompanhando um crescente no fundamentalismo no mundo Árabe. A Turquia, cenário do longa, fica entre Europa e Oriente Médio e por conta da sua localização possui uma grande diversidade de religiões e sempre fora um território onde o respeito e a tolerância entre as diferentes crenças era presente. Isso tem mudado com nos últimos anos graças ao presidente Recep Tayyip Erdogan que é um devoto do alcorão. Erdogan proibiu beijo em público e o consumo de cerveja em determinados locais, o que ocasionou em algumas manifestações, que logo foram reprimidas pelo governo. Na verdade, a ideia do presidente turco é transformar seu país em uma potência islâmica, sendo inclusive acusado de auxiliar o Estado Islâmico, grupo terrorista responsável pelos últimos ataques na Europa e que causa terror na Síria, onde é situado.

O longa roteirizado e dirigido pela cineasta Deniz Gamze Ergüven conta a história de cinco meninas órfãs, que vivem com a avó e um tio em um distante vilarejo da Turquia. Criadas com certa liberdade, as irmãs foram flagradas por alguns moradores locais brincando com meninos na praia após o final do ano letivo, tal brincadeira foi considerada depravada pelo simples fato de estarem sobre os ombros dos colegas dentro do mar. Essa história gera um grande conflito dentro de sua casa, seus familiares decidem então impor limites. Começam proibindo o uso de telefones e computador e termina gradeando toda a casa, deixando as garotas em uma espécie de prisão domiciliar. Enquanto presas, as meninas são ensinadas a cozinhar, costurar e cuidar da casa, sendo então preparadas para os casamentos que seu tio começa a arranjar com garotos que elas não têm o mínimo de interesse.

Acompanhamos a narrativa pela visão da caçula Lale, interpretada por Güneş Şensoy, a mais talentosa das meninas. Na visão da garotinha, a casa em que moram vira uma verdadeira fábrica de mulheres, onde apesar da crueldade que elas começam a ser moldadas, o tio e a avó acreditam estar fazendo o correto e com isso protegendo-as dos julgamentos impostos pela sociedade. Naquela cultura ser mulher é ser esposa, uma simples dona de casa. Para eles as mulheres não podem trabalhar, ter liberdade e muito menos namorar quem bem entender, onde o simples toque em um garoto é considerado motivo de desonra. Infelizmente, esse pensamento arcaico não é exclusividade do islamismo e, na verdade, àqueles que pensam dessa forma apenas mascaram seu machismo através da religião.

Lembro que na novela Gabriela (2012) transmitida pela Rede Globo, uma das personagens, diz para o namorado para fazerem sexo anal, pra que ela ainda assim casasse virgem. Aqui, uma das irmãs relata para suas irmãs exatamente a mesma coisa. Lembro também, que em outra telenovela, agora Terra Nostra (1999), os homens após se casarem penduravam lençóis sujos de sangue que, em tese, provava a virgindade de sua esposa. Não é muito diferente aqui, onde os pais do marido batem na porta do quarto na noite de núpcias a fim de ver o sangue da noiva no lençol. Acontece que as tramas das novelas se passavam no início do século XX, enquanto Cinco Graças trata-se de um filme contemporâneo. O que só mostra o quão arcaico é aquela sociedade. Mas é importante ressaltar novamente, que não é algo exclusivo entre os muçulmanos. Recentemente, garotas cristãs aqui no Brasil, deram depoimentos semelhantes quanto ao sexo anal antes do casamento.

É revoltante notar como as mulheres ainda são vistas quase como objetos, troféus que os homens desfilam ao lado, sem preocupar-se com a felicidade dela. Negar isso é como tapar o sol com a peneira. É assim no mundo todo.

A diretora nos conduz durante toda a projeção a vilanizar os adultos, mesmo mostrando que a crueldade psicológica vista na tela não é algo proposital ou oriunda de um personagem psicopata. A família age daquela forma porque aprendeu desde cedo que era o certo. E as meninas clamam por uma proibida liberdade retratada através de planos mais fechados que trazem um tom totalmente claustrofóbico à fotografia.

É acertado também o figurino. E assim, como nosso colega João Vitor fala na crítica de Brooklyn (John Crowney)”, é interessante quando as roupas não estão em cena  somente para vestir as personagens, mas também possuem uma importância narrativa. É interessante notarmos que quanto mais velha a mulher fica, mais roupas ela precisa usar. As cores também não variam muito, são utilizados pigmentos mais tristes: como o marrom e o preto, que acaba refletindo a tristeza do aprisionamento.

É bom salientar que não se deve reduzir o longa à uma cópia de “Virgens Suicidas (Sofia Coppola)“, mesmo que a narrativa seja bem parecida. Na verdade é muito importante retratar o drama vivido pela maioria das mulheres, aqui representadas por garotas muçulmanas residentes no interior da Turquia. Senti falta somente de um final mais chocante. Pode parecer estranho isso, afinal, o final feliz no cinema é buscado pela grande maioria do público. Mas uma história como essa não devia ter uma anestesia no final, ela tem que ser marcada realmente pela crueldade vivida pelas irmãs. Lembrando que a crueldade aqui não é física, é psicológica, que com toda certeza acaba marcando muito mais a vida das mulheres.

No final, fico com a sensação de que teriam obras de melhor qualidade técnica e artística para a indicação ao Oscar, como por exemplo: “Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert)“. Mas sua força não está exatamente nisso, muito menos na sua narrativa que peca em alguns momentos, ao retratar com certa leveza importantes passagens do roteiro.  O grande mérito de Cinco Graças está em discutir a opressão sofrida pelas mulheres não só na Turquia, mas em todo o planeta. Sensível, chocante e necessário, o filme pode ser visto como um verdadeiro grito de liberdade do verdadeiro sexo forte.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.