09
jan
2016
Crítica: “Deus Branco”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
DEUS BRANCO

Deus Branco (Fehér Isten)

Kornél Mundruczó, 2014
Roteiro: Kornél Mundruczó, Viktória Petrányi e Kata Wéber
InterCom ZRT

5

Quantas vezes na década de 1990, durante minha infância, assisti a um filme onde protagonistas eram crianças e cachorros? Com toda a certeza perdi essa conta e você que está lendo provavelmente também a perdeu. Nunca deixou de ser interessante você transferir um comportamento humano para um animal em obras de ficção, até porque se você convive com animais sabe perfeitamente que eles possuem sentimentos, personalidade e inteligência à sua maneira. Mas Hollywood sempre acabou exagerando na dose ao retratar tais características, pudera, os filmes eram destinados ao público infantil. Deus Branco é também um “filme de cachorro”, mas diferente daqueles lançados pela grande indústria cinematográfica, você nunca assistirá à ele na Sessão da Tarde, tão pouco na televisão aberta.

O roteiro acompanha a vida de Lili (Zsófia Psotta), uma jovem que é obrigada junto com seu amado cão Hagen a morar alguns meses na companhia de Dániel (Sándor Zsótér), seu ausente pai. Com muito complicada com a filha e pressionado por uma vizinha que obriga o sujeito a colocar Hagen na rua, Dániel abandona o simpático animal próximo a uma movimentada avenida de Budapeste enquanto tenta retomar o controle da situação com sua pequena. A partir desse abandono, começamos a acompanhar também a vida do cão, que tenta sobreviver à fome e ao perigo de ser pego pela “carrocinha” e então começamos a entender o porquê nunca assistiremos ao longa na TV.

Estamos diante de uma poderosa fábula. Apostando em cenas chocantes – o treinamento que Hagen recebe para se tornar um cão de rinha é extremamente brutal – Kornél não poupa esforços e estômagos para mostrar a realidade que alguns habitantes tidos como “indesejados” por alguns acabam sofrendo diariamente nas ruas do mundo. Então, mais do que ilustrar os maus-tratos que os vira-latas recebem na Hungria (e também em diversos lugares), o diretor acaba também denunciando a situação de ciganos e judeus do Leste Europeu, dos negros no mundo todo, dos muçulmanos na Europa, dos homossexuais, dos transexuais, ou seja, de todas as minorias.

Mas não é só nisso que fica a fábula. Ao ser excluído, o cão quer tornar-se opressor, quase como em uma questão de sobrevivência. Ao viver com treinadores de cães de rinha, nosso protagonista de quatro patas é impelido pelo meio a se tornar um “criminoso”. Tomado por um sentimento de vingança e agora muito mais agressivo que no início da projeção, Hagen, após matar um cão na rinha e acabar parando em um abrigo, acaba convencendo todos os cães que ali estão presos a tomarem um partido. Começa então um verdadeiro “rolézinho” de cachorros pelas ruas de Budapeste, onde os animais não querem somente se vingar daqueles que os maltratam, mas também chamar atenção da sociedade de que eles existem, de que devem sim ter os mesmos direitos que os cães “de raça”. Ao utilizar a palavra “rolézinho”, fiz de maneira proposital, porque não consigo lembrar-me das fantásticas sequências daquela gigantesca matilha tomando conta dos mais diversos locais sem me esquecer daqueles “rolézinhos” que aconteceram anos atrás nos shoppings das grandes cidades brasileiras, onde jovens que há muito eram segregados pela sociedade resolveram chamar atenção, de uma maneira não muito correta, mas que acabou surtindo o efeito que eles desejavam. É exatamente o que acontece aqui, Hagen e seus companheiros não saíram pelas ruas atacando os seres humanos só por vingança, fizeram também pra poder chamar atenção da sociedade de que eles existem e devem ser respeitados.

Interessante observar também a forma como o diretor retrata a família como uma instituição problemática. Ao não conseguir cuidar de sua filha e do cão dela, Dániel acaba colocando ambos em situações que podem mudar drasticamente o futuro e a personalidade de ambos. Tanto Lili quando Hagen ficam expostos à situação de extrema violência, não só física, mas principalmente psicológica.

Falando agora da parte técnica do filme: Divido em três atos diferentes – o primeiro é mais calmo e leve, enquanto o segundo é mais dramático e o terceiro é impactante – Deus Branco é um belo trabalho de edição e direção. Com um ritmo bastante eficiente, chama atenção por conta de suas cenas de ação envolvendo mais de 300 cães de rua. Totalmente filmadas sem ajuda de computação gráfica, estas cenas imprimem um realismo raro na ficção. Se junta a filmes como “Mad Max: Estrada da Fúria” para provar de que o cinema não precisa necessariamente ficar refém da tecnologia para nos brindar com imponentes imagens. Destaca-se também a escolha das locações, que criam uma impressão de cidade suja e pobre, na qual a violência parece ser a única perspectiva de sobrevivência.

Impressionante ao mostrar a segregação e o papel das minorias imposto pela sociedade através da ótica de um cão, Deus Branco é chocante e ao mesmo tempo necessário a todos nós nesses tempos de intolerância mundial, e em seu emocionante final nos enche de esperança de que algum dia o ser humano demonstre realmente humanidade.

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.