16
jan
2016
Crítica: “O Conto da Princesa Kaguya”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Pedro Bonavita
O CONTO DA PRINCESA KAGUYA
O Conto da Princesa Kaguya (かぐや姫の物語)
Isao Takahata, 2013
Roteiro: Isao Takahata
Califórnia Filmes

4

O Studio Ghibli é responsável por obras-primas do cinema de animação. Apesar de não ser muito fã da cultura japonesa (mesmo gostando de Pokémon), sempre admirei o trabalho do estúdio. Meu primeiro contato com algum filme produzido por eles foi através de “A Viagem de Chihiro” do gênio Hayao Miyazaki, e desde então sempre que pude contemplei suas obras, mesmo quando essas não foram lançadas no Brasil em tempo. Infelizmente, o estúdio japonês anunciou o fim das atividades (por tempo indeterminado) com o lançamento de “O Conto da Princesa Kaguya“. É uma pena! Mas também é ótimo saber que suas obras estão disponíveis para apreciação de todos eternamente.

Baseado no secular “Conto do Cortador de Bambu”, o longa conta a história de um humilde camponês que em mais um dia de trabalho cortando bambus em uma floresta acaba encontrando uma menininha, minúscula, dentro de um deles. Decide criá-la junto com sua esposa e se impressiona com a velocidade que a menina cresce e logo se torna uma linda mulher. Com o passar do tempo, o camponês encontra ouros e tecidos de grande qualidade em outros bambus cortados, e então decide levar sua esposa e sua filha adotiva para a capital, a fim de torná-la uma princesa.

Sem utilizar a tecnologia responsável por 90% das animações atuais, a obra do diretor Isao Takahata usa do desenho manual como sua principal força, já que ao utilizar basicamente lápis e colorindo com tons mais leves, dá um tom mais minimalista, ao mesmo tempo que traz uma beleza visual arrebatadora, nos contemplando com imagens belíssimas como a fuga de Kaguya, por exemplo, onde o desenho fica todo borrado devido ao ritmo mais apressado que é nos apresentado. O resultado artístico é tão lindo que justifica o fato do diretor ter demorado 8 anos até finalizar todos os desenhos feitos no papel, para só então pós-produzir em computador. Mesmo belo, o filme se apoia no visual simples para fortalecer ainda mais sua narrativa, priorizando contar a história e focar nos conflitos ideológicos que a nossa protagonista passa durante os longos 131 minutos de projeção.

Contando em grande parte com um ritmo extremamente lento – e pra mim o principal defeito do filme, já que em determinado momento tem-se a impressão de que o roteiro ganha uma “barriga” desnecessária para seu desfecho – “O Conto da Princesa Kaguya” não deve ser considerado como um filme infantil, é pra mim, destinado muito mais aos adultos, já que foge da superficialidade do atual cinema de animação ao evitar grandes reviravoltas e mensagens simplórias, quase sempre clichês.

Interessante observar como um conto datado do século X pode ser tão atual (ou nós que estamos tão atrasados?), ao focar em questões sociais como o papel da mulher na sociedade e a luta de classes. Sonhando em ter uma filha princesa e pertencer à corte, o pai de Bambuzinho (como é chamada pelos amigos de infância) praticamente vende a mão dela a alguns ricos pretendentes. Acontece que a princesa não aceita aquilo, assim como não aceita ter que se portar como uma “dama” para poder fazer parte da sociedade. Ela sonha em ser livre, independente, seguir seus sonhos e o que seu coração manda. É tocante quando enquanto seu pai a obriga a fazer aulas de etiquetas, a menina diz: “então ser uma princesa não é ser humano“. A forma como se sente sufocada com o que a sociedade determina e todas as regras que ela precisaria seguir para ser uma princesa só acentuam o seu desejo de ser livre para viver da maneira que quiser. Kaguya é na verdade o retrato da natureza feminina: livre, forte e indomável. Apesar da sociedade machista nos ensinar o contrário desde que nascemos. E se temos uma personagem tão rica e interessante quando nossa protagonista, temos em seu pai um personagem completamente ambíguo, é pra mim um dos personagens mais odiosos do cinema. Não que ele seja um vilão, pois o roteiro se exime de determinar mocinhos e vilões, mas suas atitudes patriarcais e extremamente machistas fazem parte da lista daquelas coisas que mais detesto.

A trilha sonora, composta por Joe Hisaishi é mais um dos pontos fortes do longa. Parceiro de longa data do Ghibli, o compositor utiliza de melodias orientais (como não podia deixar de ser) que dão ao filme um tom ainda mais fabulesco e fantasioso do que sua história propõe. Não esquecendo também dos lindos números musicais retratados pelo diretor, que tem a função narrativa de contextualizar os momentos mais importantes da princesa.

Com um dos finais mais lindos das atuais animações, “O Conto da Princesa Kaguya” é um filme poético, político e extremamente atual.  Nos deixa importantes lições sobre algumas questões sociais, mas não é só isso, ao seu final nos faz refletir sobre o que realmente nos deixa feliz e ensina que devemos em qualquer circunstância a seguirmos aquilo que nosso coração manda antes de desistirmos de alguma coisa.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.