18
jan
2016
Crítica: “O Menino e o Mundo”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
O Menino e o Mundo
Alê Abreu, 2013
Roteiro: Alê Abreu
Espaço Filmes

5

Habemus animação no Brasil! E talvez você só saiba disso porque na última quinta-feira (14 de janeiro de 2016) o filme “O Menino e o Mundo” foi indicado ao Oscar de melhor animação. Convido então você a conhecer outras animações nacionais, com destaque para “Uma História de Amor e Fúria” (Luiz Bolognesi, 2015) e “Até que a Sbórnia nos Separe” (Otto Guerra e Ennio Torresan). Após o anúncio dos indicados, muita gente acreditou tratar-se de um longa inédito no país, porém, essa graciosa obra estreou no país em 2014 em um restrito circuito aqui no Brasil, enquanto na Europa, principalmente na França, ficou em cartaz em mais de 70 salas por quase um ano! Faço aqui então um apelo às distribuidoras e aos donos das grandes redes de cinema que deem mais espaço para aquilo que é produzido no país, pois temos muita qualidade naquilo que executamos.

Acompanhamos o menino Cuca, morador da área rural, vê seu pai partir para a cidade grande em busca de um emprego para que consiga se sustentar. Passado um tempo, sabiamente não revelado, o menino resolve ir atrás de seu pai a fim de retomar seus laços paternos. É então que começa a jornada por um mundo de descobertas nem sempre agradáveis, mas que contribuem muito para o amadurecimento do protagonista, que praticamente representa cada um de nós na telona.

O roteiro acerta em ser praticamente mudo, temos pouquíssimo (mesmo!) diálogo durante os 80 minutos de projeção. A intenção do paulista Alê Abreu, diretor e roteirista, é fazer durante a viagem de Cuca, um diagnóstico do país em que vivemos. Utiliza então o olhar inocente da criança, que talvez torne ainda mais sérios os problemas mostrados no longa. É interessante perceber então que não temos aqui aquela montagem frenética das atuais animações de Hollywood, onde os roteiros preocupam-se somente em mostrar uma lição de amor na família. Com um ritmo um pouco mais cadenciado, a fita nos leva a viajar por graves problemas sociais, tais como: o êxodo rural, a exploração do trabalhador, a poluição das cidades grandes, a violência, as favelas, o regime militar, etc. Ou seja, representa de maneira lúdica aquilo que de mais preocupantes existe no mundo contemporâneo.

Por falar em poluição, é lindo notarmos o contraste de cores que temos desde a saída de Cuca da zona rural até a chegada dele na cidade. Utilizando diversas técnicas, que vão de colagem até giz de cera, o cineasta consegue manter uma unidade estética mesmo passando por diferentes tons de cores e utilizando imagens documentais em determinado momento do longa. Incrível notar a poesia através dos desenhos, quando, por exemplo, retrata tanques de guerras e helicópteros armados com imagem de animais selvagens, ou então quando cria a favela em formato de cone com a cidade em sua volta. Mas talvez o mais impressionante dessa poesia visual é o trem em formato de serpente, que passa pela fazenda levando as pessoas que nunca mais retornam, como se as engolisse.

Durante toda a projeção somos levados da melancolia à alegria e vice-versa. Não somente através das imagens, mas também da bela trilha musical composta pelo rapper Emicida. Em um filme onde o diálogo é praticamente inexistente, é importante que a parte sonora seja bem construída e faça parte da narrativa, o que acaba deixando a obra ainda mais poética e tocante. Difícil não se emocionar com “Aos olhos de uma criança”, que você pode acompanhar no final da crítica.

O Menino e o Mundo ilustra de maneira melancólica a sociedade atual. Mesmo que as crianças não entendam os conflitos históricos retratados aqui, é nítido que o longa atinge o objetivo de sensibilizar quanto às questões de desigualdade. Mesmo complexo nos temas abordados, a obra nos passa toda sua poesia e graça através dos delicados traços, principalmente daqueles que ilustram o olhar de Cuca, nosso adorado menino.




Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.