02
jan
2016
Crítica: “Os Oito Odiados”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Marcelo Silva

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

Quentin Tarantino, 2015
Roteiro: Quentin Tarantino
The Weinstein Company

5

Assassinato, sangue, humor negro, violência extrema. Impossível falar de Quentin Tarantino sem citar esses elementos. Em quase trinta anos de carreira, o diretor consagrou-se por seu estilo único, presenteando os cinéfilos com obra-primas como Pulp Fiction: Tempo de ViolênciaKill BillBastardos Inglórios. Agora, mais uma vez de olho no Oscar, Tarantino lança o faroeste Os Oito Odiados.

A trama é ambientada pouco tempo depois do fim da Guerra Civil Americana e acompanha o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell), que viaja pelo estado do Wyoming levando a perigosa criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para ser executada pelas autoridades de Red Rock. No meio da sua viagem, Ruth encontra o também caçador de recompensas Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e Chris Mannix (Walton Goggins), um sujeito que se apresenta como o novo xerife de Red Rock. Após muita insistência, os dois são aceitos a bordo na carruagem de Ruth.

Devido a uma forte nevasca, o grupo decide buscar refúgio na taberna do casal Minnie (Dana Gourrier) e Sweet Dave (Gene Jones). Porém, chegando lá, eles dão de cara com rostos desconhecidos: Bob (Demián Bichir), o responsável por cuidar do local enquanto os proprietários estão viajando; Oswaldo Mobray (Tim Roth), o carrasco de Red Rock; o vaqueiro Joe Gage (Michael Madsen); e, por fim, o general confederado Sanford Smithers (Bruce Dern). Obrigados a permanecer na cabana até o fim da nevasca, Ruth e seu bando passam a desconfiar das reais intenções dos homens que se encontram ali. É aí que tem início um perigoso jogo de intrigas que logo se converte em derramamento de sangue.

Lidar com tantos personagens não foi um problema para Tarantino. Como diretor e roteirista, ele sabe muito bem trabalhar com as personalidades individuais – há o sarcástico, o calado, o provocador, o desconfiado, etc. Outra coisa que chama atenção é o fato de que a composição étnica dos indivíduos não é um mero detalhe no roteiro. O fato de Warren ser negro, por exemplo, não passa despercebido. Em vários momentos, ele relata como é ser negro em um país recém-saído da escravidão e desperta, também, o desprezo preconceituoso de outros homens da história – entre eles, Mannix e o general Smithers.

De longe o melhor em cena, Samuel L. Jackson mostra por que é um dos melhores atores de Hollywood ao interpretar Warren com uma espontaneidade de arrancar aplausos, tornando cada fala, gargalhada e ameaça extremamente verossímeis. A Academia cometerá um crime imperdoável se não o indicar ao Oscar. Kurt Russell também tem uma atuação elogiável – seu John Ruth transmite frieza, brutalidade e, até mesmo, uma certa simpatia perante o espectador. A única que fica aquém da performance do resto do elenco é quem, ironicamente, deve receber a maior atenção na temporada de premiações. Jennifer Jason Leigh erra a mão na hora de dar vida à sádica Daisy Domergue. Com gestos e gritos exagerados, a atriz não convence e gera a impressão de que se sairia melhor caso Os Oito Odiados fosse um filme de terror e ela, uma bruxa.

A trilha do experiente Ennio Morricone não chega a ser memorável, mas funciona em cena, surgindo em momentos oportunos da narrativa, nos quais estabelece perfeitamente a atmosfera de tensão. Ainda sobre a parte sonora, o barulho constante do vento no lado de fora da cabana contribui para o clima claustrofóbico que impera no local e faz o espectador crer que, caso os personagens saiam dali, a fúria da natureza tomará conta de suas vidas.

Os Oito Odiados é, portanto, um filme completo. Possui de tudo para agradar ao cinéfilo mais exigente. Personagens bem-construídos, direção segura, momentos à la Hitchcock  (no caso, o suspense em torno das reais intenções dos homens), humor (a brincadeira em torno da carta de Lincoln, o café envenenado, o destino do filho do general, etc.) e diálogos carregados de conotações raciais. Sem dúvida, um dos melhores filmes de 2015 e uma presença quase certa no Oscar.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!