04
jan
2016
Crítica: “O Regresso”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
O REGRESSO

O Regresso (The Revenant)

Alejandro G. Iñarritu, 2015
Roteiro: Mark Smith e Iñarritu
FOX Filmes

5

Sempre gostei dos trabalhos de Alejandro G. Iñarritu, mesmo diante de uma derrapada ou outra na carreira, o mexicano apresentou na maioria das vezes projetos acima da média. No começo do ano passado, ao ganhar o Oscar de melhor direção e melhor filme com o fantástico “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), o diretor entrava de vez para o hall dos principais diretores da atualidade e atestava de uma vez por todas para o mundo todo seu talento, que pra mim sempre fora incontestável. Era óbvio que seu novo filme estivesse cercado de grandes expectativas, principalmente por ter o lançamento tão próximo daquele que o consagrou. Mas não era só isso: quem acompanhava os bastidores de “O Regresso”, bradava aos quatro ventos que tratava-se de uma obra prima, inclusive o protagonista Leonardo Di Caprio, que afirmou também tratar do trabalho mais difícil de sua carreira.

Baseado na obra homônima de Michael Punk, O Regresso (The Revenant) narra a história real do explorador norte-americano Hugh Glass (Leonardo Di Caprio), que após escapar de um ataque indígena no gelado interior dos Estados Unidos, trava uma luta feroz com um urso e muito ferido é abandonado como morto por seus colegas. A partir desse ponto o roteiro podia se limitar a contar uma história de sobrevivência como tantas já narradas nas telonas, mas Iñarritu vai além, ao apostar no instinto de vingança de Glass contra John Fitzgerald (Tom Hardy) que assassinara seu filho a sangue frio na sua frente, o diretor dá um ritmo interessantíssimo a narrativa que faz com que os 157 minutos não se tornem cansativos ao espectador.

Leonardo Di Caprio merece um prêmio no Oscar há algumas temporadas, mas é aqui que finalmente ele chega ao ápice de sua forma e só não ganhará a estatueta se acontecer duas coisas: algum outro ator tiver uma atuação grandiosa como a dele (o que é improvável) ou então os membros da academia ainda não desvincularem a imagem do ator ao Jack de Titanic. Di Caprio se entrega de corpo e alma à personagem, trazendo o público junto de si no sofrimento e na luta de sua jornada. Muito ajudado pela grande direção de atores (mais uma vez) do diretor mexicano, consegue construir Hugh Glass de maneira gradual, que faz com que nos prenda atenção em sua história e em determinado momento nos deixe íntimo. Não menos inspirado, Tom Hardy nos entrega um odioso vilão, Fitzgerald é um homem egoísta, amargurado, onde sua ambição está acima de tudo, sendo ele capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos, que na verdade trata-se somente de dinheiro. Assim como seu colega de cena, Hardy está conseguindo deixar de lado toda a desconfiança que permeava seu início de carreira.

Muito mais impressionante que as atuações dos protagonistas está a sempre genial fotografia de Emmanuel Lubezki que dispara como favorito à sua terceira estatueta de forma consecutiva (ganhou por Gravidade e Birdman). Lubezki já tinha mostrado todo seu talento em A Árvore da Vida, mas aqui consegue captar imagens de beleza mais impactante, dignas de enquadrarmos cada frame da película. O fato de utilizar somente luz natural torna seu trabalho ainda mais grandioso. Mas, assim como em Birdman, sua fotografia não está apenas a serviço da beleza visual, mas também da narrativa, quando ao aproximar tanto a câmera de Di Caprio (a ponto da lente embaçar com a  respiração), o mexicano quebra a quarta parede que costuma afastar o público do filme. Sem falar nos planos-sequências que parecem cada vez mais sua especialidade, planos esses que junto da montagem de Stephen Mirrione ajudam a não perder o ritmo, principalmente nas cenas de confronto.

O Regresso é uma experiência sensorial: seja por sua angustiante história, pela entrega dos atores, pela beleza de suas imagens ou pela sua pontual trilha sonora. Fato é que tudo coopera para a criação da (até aqui) mais impressionante obra de Alejandro G. Iñarritu. Espero, do fundo do meu coração, que não seja lembrado somente pela atuação brilhente de Di Caprio, afinal, é muito mais do que isso. É daqueles filmes que me fazem entender o porque tanto amo o cinema.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.