25
jan
2016
Crítica: “Reza a Lenda”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
REZA A LENDA

Reza a Lenda

Homero Olivetto, 2016
Roteiro: Homero Olivetto, Patrícia Andrade e Newton Cannito
Imagem Filmes

2.5

O cinema brasileiro tem buscado diversificar suas produções. Marcado por normalmente privilegiar comédias, dramas e biografia, nosso cinema aos poucos está tentando trilhar novos caminhos, principalmente o suspense e a ação. É interessante essa busca, mas é preciso que tenhamos um tanto de paciência para que os realizadores encontrem alternativas brasileiras para que termos uma assinatura nacional também nessas novas produções. Enquanto isso não acontece, temos que nos contentar com algumas fórmulas hollywoodianas, onde os cineastas tentam incluir uma pitada ou outra de brasilidade. A paciência é um dom divino e difícil, mas se conseguirmos mantê-la tenho certeza que daqui a alguns anos seremos brindados com obras cada vez melhores no chamado cinema de gênero. Enquanto não acontece, fico feliz de saber que já estamos realizando obras fora do lugar comum e que elas estão sendo bem distribuídas, trazendo assim novos fãs para o digníssimo cinema nacional.

Com um marketing bem atrativo, Reza a Lenda foi comparado desde sempre como o “Mad Max” brasileiro. Isso fez com que jogasse uma alta expectativa em cima do público. Acompanhamos uma gangue de motoqueiros liderada por Ara (Cauã Reymond) que sai em busca da santa de ouro, essa está em posse de Tenório (Humberto Martins), um homem poderoso da região. A busca pela santa se dá por causa de uma profecia que dizia que se levasse a imagem para determinado local e oferecesse uma prenda (uma mulher) ao profeta Galego Lorde (Júlio Andrade), a chuva cairia no sertão. Trazendo toda a trama para a cultura nacional, podemos dizer que os motoqueiros justiceiros são os cangaceiros do século XXI.

Infelizmente, mesmo tendo uma premissa interessante e altamente brasileira, o longa peca ao não construir o roteiro de maneira competente. As personagens aqui não possuem um arco dramático exatamente definido. O roteiro não faz questão de nos apresentar de maneira mais profunda aquelas pessoas e isso faz falta. Mesmo em filmes de ação é preciso que saibamos quem são as personagens, o que querem, o porquê querem, etc.. E por mais que não fique tudo tão escondido aqui, já sabemos logo no início de projeção que faltará uma profundidade maior no desenvolvimento daquela trama quando o diretor nos “presenteia” com uma legenda explicando o filme, que acentua o roteiro preguiçoso. Essa legenda, se transformada em 10 minutos de diálogo com toda certeza deixaria o projeto mais interessante, menos sonolento e com menos barriga. É incomodo demais, por exemplo, o vilão ser malvado só por ser malvado. Vilões normalmente são personagens complexos, mas aqui é só mais um vazio dentro da trama. Assim como é vazio também o triângulo amoroso protagonizado por Ara, Severina (Sophie Charlotte) e Laura (Luisa Arraes), é uma relação que te leva do nada ao lugar nenhum. O envolvimento de Ara e Laura, por exemplo, deixa o roteiro ainda mais preguiçoso, já que é usado como artifício barato para que ele não a entregue ao profeta. Tão pouco é discutido dentro do longa a falta de água ou a fé cega das pessoas, mesmo que tudo esteja ali, pedindo por uma discussão, nem que seja pequena. Nem que seja pra deixar menos vazio.

O roteiro preguiçoso e sem muito a nos dizer poderia transformar o longa em um completo desastre, mas sua parte técnica e a atuação dos atores chegam pra salvar. Se Homero Olivetto pecou muito no desenvolvimento do texto, consegue acertar na direção e principalmente na conceituação da obra. Ambientado em um sertão nordestino com ares apocalíptico, o diretor nos brinda com imagens belíssimas, sempre ajudadas com as locações exuberantes daquela região. Utilizando cores fortes que combinam com a paisagem árida, a fotografia também é ótima nas sequências noturnas, quando utiliza pouca ou quase nenhuma luz, trazendo um pouco de realismo, já que obviamente não temos luz artificial naquelas estradas afastadas de qualquer civilização. É interessante também toda a direção de arte. Me chamou muito a atenção as motos sujas daquela poeira típica da caatinga e o figurino surrado, quase que improvisado dos motoqueiros, que contrastam perfeitamente com as roupas usadas por Laura ou então pelas roupas de rico fazendeiro que vestem Tenório.

Mesmo preguiçosa vez ou outra, sempre “ajudada” pelo roteiro nesse quesito, temos também bons momentos na montagem, principalmente nas cenas de ação, quando o montador consegue dar ritmo à narrativa ao utilizar grande parte dos planos filmados pela direção. Destaque também para a trilha sonora instrumental, que normalmente é boa quando se trata de sequencias de ação.

O elenco está especialmente bem. Cauã Reymond dá vida a um Ara de poucas palavras, mas é eficiente em sua interpretação. Sophie Charlotte completamente diferente do que assistimos normalmente na televisão, faz uma mulher forte, que lidera os motoqueiros na ausência de Ara e que é responsável pela manutenção das motos, sem que em nenhum momento tenha aquele estereótipo de mulher macho, ainda bem. Apenas é construída com um olhar mais seguro e menos menininha. Mas os grandes destaques ficam por conta de Humberto Martins e Jesuíta Barbosa. Martins cria um daqueles coronéis temidos, mas sem entrar em uma caricatura, já que utiliza o tempo todo um tom mais comedido na fala, intimidando mais pelo que diz do que pela forma que faz. Já Jesuíta consegue chamar atenção mesmo sendo um personagem coadjuvante, nos entregando um personagem autêntico em sua loucura e que no final das contas é quem acaba resolvendo tudo. Seu olhar enquanto metralha o carro dos capangas de Tenório até que esse exploda é impagável. Luisa Arraes é o ponto fora da curva do elenco, já que o tempo todo está com a mesma expressão assustada, mas ela é muito prejudicada por interpretar a personagem menos desenvolvida da trama, me pareceu, que assim como Laura, Luisa estava completamente perdida ali.

Com uma técnica apurada, imagens belíssimas e claramente inspirado em “Mad Max” (aqueles primeiros), no western e com alguma pitada do cinema novo – falando do ponto de vista estético -, Reza a Lenda tinha tudo pra se transformar em um ótimo entretenimento, porém seu roteiro vazio faz com que quase tudo caia por terra. Uma pena.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.