22
fev
2016
Crítica: “Guerra”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
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Guerra (Krigen)

Tobias Lindholm, 2015
Roteiro: Tobias Lindholm

3

Existem alguns gêneros que precisam se reinventar o tempo todo, filmes de Guerra é um deles. É natural que diante de tantas obras parecidas, falando sobre os mesmos confrontos, abordando praticamente as mesmas premissas, começamos a sentir falta de uma originalidade em termos narrativos e estéticos. Pensando exclusivamente no gênero em questão, é ainda mais necessária essa reinvenção, principalmente porque a tendência sempre que os longas sejam parecidos dependendo de onde a trama está situada. Se no passado a Guerras do Vietnã e principalmente a Segunda Guerra Mundial eram líderes em produção, atualmente os conflitos armados no Iraque e no Afeganistão são um prato cheio para cineastas. Principalmente depois do sucesso de público e crítica de Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow, 2008), que inclusive arrebatou 6 estatuetas no Oscar de 2010. Guerra, novo longa do dinamarquês Tobias Lindholm segue o mesmo caminho (não em conquistas, mas pelo fato de também ter sido indicado) e bebe muito na fonte do longa da ex esposa de James Cameron.

Na trama acompanhamos Claus Michael Pedersen (Pilou Asbæk), comandando do exército dinamarquês que está na cidade de Helmand, no Afeganistão em uma missão de paz durante a guerra contra o Talibã. Enquanto comanda seus soldados, sua esposa comanda seus três filhos na Dinamarca, que sentem a falta do pai cada vez mais a cada dia que passa. Diante de tamanha pressão por conta da distância da família e dos desafios existentes nos campos de combate, onde ainda precisa “cuidar” da população local, Claus acaba tomando uma decisão errada e é mandado para casa acusado de crime de guerra. A partir de então acompanhamos uma trama de tribunal.

Se falta originalidade no roteiro, não podemos dizer muito de sua eficiência. Com seus três atos bem definidos, o texto não se delimita somente em contar aquela história, como também acaba discutindo assuntos como direitos humanos durante uma guerra e relação familiar. Porém é em seu primeiro ato que o filme é mais forte, enquanto acompanhamos os soldados em solo afegão o ritmo é interessante e acaba nos prendendo a atenção, porém ao chegar no terceiro ato, dentro de um tribunal, onde o roteiro costuma ser eficiente, temos uma queda brutal. Senti falta daqueles fortes embates entre acusação e defesa que costumamos acompanhar em tramas do gênero. A conclusão previsível e apressada também nos deixa com um gosto amargo na boca, principalmente pela decisão de Tobias Lindholm em omitir as justificativas da juíza diante do veredito.

Apesar da queda de ritmo existente a partir da segunda metade do longa, é nela que se propõe discussões interessantes como, por exemplo, a questão dos direitos humanos. As missões de paz têm sido cada vez mais ingratas para aqueles que vão levar a paz ao local. Afinal, eles não estão indo ali somente para dar assistência aos mais carentes, mas acabam servindo como um poder paralelo, e com isso acabam entrando fatalmente em confrontos armados com os “rebeldes” ou então com aqueles que têm o controle do local. Sendo assim, é inevitável que os civis não sejam atingidos pelos combates. As crianças acabam sendo vítimas constantes nesses combates e o longa acaba entrando nessa questão. Ainda no começo do longa, quando os dinamarqueses precisam atacar um inimigo sozinho na estrada, esse se aproveita das crianças que brincam na estrada, pois sabia que não seria atacado próximo delas. A tensão fica constante durante essa sequência, já que o diretor consegue nos fazer acreditar que em algum momento a criança será vítima. E é claro que isso é apenas um truque, para mais a frente crianças tornarem-se vítimas de ataques.

Trazendo a discussão agora para um perfil mais técnico, devemos destacar a fotografia e a montagem do longa. Utilizando muito de tons pastéis característicos do deserto afegão, durante as sequências de confronto, a câmera consegue nos insere naquele ambiente hostil, em contrapartida, quando o já acusado Claus volta pra Dinamarca, os tons se tornam mais escuros, destacando não só o clima frio do país nórdico, como também o momento sombrio que o protagonista passa em sua vida. Em contrapartida, a montagem é extremamente irregular e até quadrada. Por exemplo, quando o comandante ainda estava no Afeganistão e mostrava o cotidiano de sua família na Dinamarca, o montador poderia ter dado um ritmo mais rápido às sequências, talvez intercalando melhor na montagem paralela entre os dois países. Da forma em que é montado, fica por muitas vezes a impressão de que uma trama não tem nada a ver com a outra, quando na verdade essa relação da família é extremamente importante no desenvolvimento tanto da narrativa quanto do nosso protagonista.

No final das contas, percebe-se que Guerra é o típico filme que a academia adora: quadrado e patriota (mesmo que o país em questão aqui não seja os Estados Unidos). Fica a sensação de que diante de uma história interessante, o diretor poderia ser mais ousado tanto na realização, quanto no aprofundamento das questões sociais que envolvem esses conflitos. A sensação que fica é que o longa será um daqueles que esqueceremos em questão de semanas.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.