02
fev
2016
Crítica: “O Clube”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
O CLUBE

O Clube (El Club)

Pablo Larraín, 2015
Roteiro: Pablo Larraín
IMOVISION

4

Padres pedófilos é um assunto que assombra a Igreja desde muito tempo. Atualmente, o assunto está em evidencia no meio cinematográfico por causa do concorrente ao Oscar de melhor filme “Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight, 2015)”. No longa norte-americano em determinado momento é citado que os padres acusados de pedofilia eram afastados pela Igreja e mantidos em uma casa, retirados do contato externo. Coincidentemente, o cinema chileno nos agraciou com um longa com temática muito parecida, que foca em uma dessas “casas de repouso”, que mais parecem uma prisão. Diferente do longa indicado à uma estatueta, a obra latina não foca somente na pedofilia, mas também em outros delitos cometidos pelos sacerdotes.

O Clube é o título mais irônico que a obra poderia ganhar, pois é assim que o diretor resolve chamar uma casa em um vilarejo distante, próximo do mar, onde vivem quatro padres acusados de crimes como pedofilia e tráfico de criança e uma religiosa, responsável por não só cuidar daqueles homens, como também cuidar dos afazeres domésticos, vigiá-los e se certificar de quem cumprirão todas as regras impostas para que estejam naquele lugar. Vivendo com uma aparente tranquilidade, já que proibidos de um contato com o mundo exterior, os padres acabam tendo uma vida um pouco mais estável. Quando chega, ainda no primeiro ato, um novo membro para aquele tranquilo clube, a estabilidade começa a se desfazer, principalmente quando junto dessa presença, temos também uma antiga vítima e um por um padre jovem, que serve como um policial.

A narrativa acerta em não te dar todas as informações logo nos primeiros minutos. Demora-se algum tempo, na verdade aproximadamente 10 minutos até sabermos que trata-se de padres e uma religiosa. Isso porque são apresentados com vestimentas civis, bebendo e apostando em corridas de cachorro. É interessante como as personagens começam a ter sua personalidade construídas através dos depoimentos dados após a chocante morte de um deles. Larraín escolhe muito bem em não mostrar as atrocidades narradas, dessa forma ele faz com que o espectador se torne parte daquela trama, pois começamos então a construir cada passagem nas nossas cabeças. Evitando também, cenas com crianças, o que deixaria o filme com um tom totalmente diferente do necessário.

O diretor chileno atinge o objetivo de nos deixar revoltado quando mostra que aquelas pessoas não se arrependem nada dos delitos cometidos. Os velhos padres tratam o sexo com uma criança como uma coisa bela, como se tivessem fazendo um favor para aquela pequena alma. E é tão perverso a maneira como fazem, que acaba mexendo também com o psicológico da pessoa como, por exemplo, podemos ver no homem que foi abusado quando criança e que mesmo assim continua correndo atrás do sacerdote e diz em determinado momento para outro que foi através do sexo com o padre que ele conheceu o amor. Assim como não se sentem culpado em transar com crianças, a culpa também não vem com o fato deles tirarem o filho de uma mãe e vender para outro, justificam ainda que dessa forma eles consegue miscigenar a cidade. Inacreditável. A Igreja prefere esconder esses padres do que expulsá-los, porque dessa forma acabam jogando a sujeira pra baixo do tapete, deixando o nome da instituição totalmente limpo. Inclusive aquele que poderia dar uma reviravolta nessa história, prefere também no final das contas fazer vista grossa para que aqueles delinquentes (são chamados assim boa parte do longa) não vão até a televisão expor todos os podres.

Muito interessante notar que a construção do cenário se faz totalmente claustrofóbica, quase que sufocando aquelas pessoas naquela prisão. A fotografia fria deixa ainda mais nítido o tom pesado da película e faz questão de não mostrar tudo, deixando muitas vezes alguns planos desfocados, principalmente durante o momento de enfrentamento entre o “bem” e o “mal”, deixando com que a imagem daqueles homens chegasse de maneira distorcida até o espectador. Larraín mostra um total domínio da parte técnica, principalmente da montagem, já que conduz o ritmo dela de maneira precisa, acelerando no momento certo até chegarmos ao clímax. O tom de suspense indicado pela fotografia fria e pela demora das respostas se acentua ainda mais nesse momento, já que o diretor vai nos escondendo algumas informações até expor tudo por completo, quase como uma porrada na nossa cara.

O Clube é uma obra necessária ao mostrar um pouco mais da corrupção da Igreja, que aqui se faz mais uma corrupção de valores morais do que de dinheiro. O cinema latino tem cada vez mais nos presenteado com grandes obras. Que continue assim!

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.