13
fev
2016
Crítica: “Tangerina”
Categorias: Críticas • Postado por: Lucas
Tangerine

Tangerina (Tangerine)

Sean Baker, 2015
Roteiro: Sean Baker e Chris Bergoch
Zeta Filmes

4

Sin-Dee acabou de sair de uma prisão temporária. Depois de ter passado 28 dias presa, graças a uma pequena quantia de drogas em seu bolso, ela é libertada na véspera de natal e reencontra sua amiga Alexandra. Mas Sin-Dee no entanto não sabia  que durante o tempo em que esteve fora de circulação, seu namorado Chester teve um pequeno caso com a prostituta Dinah. Armada com uma imensa vontade de obter satisfações, Sin-Dee começa a perambular entre ruas, bares, prostíbulos e casas de shows atrás de Dinah e Chester, sempre acompanhada de Alexandra, o que gera ao filme um divertido e às vezes melancólico emaranhado de situações. O que parecia ser apenas uma sinopse usual ganha diferentes contornos em Tangerina, graças às peculiaridades que tornam o filme único. Sin-Dee e Alexandra também são prostitutas e são interpretadas por duas transexuais sem nenhuma experiência artística anterior.

Quando lançado no festival de Sundance ano passado, Tangerina chamou a atenção da crítica por dois motivos: Além das protagonistas, o filme de Sean Barker foi inteiramente filmado por celulares. Com cinco iPhones em punho, 100 mil dólares de orçamento e uma boa premissa em mãos, Barker foi as ruas filmar essa inusitada história de amizade. Engana-se, porém, quem achar que isso foi um empecilho pra produção. Aproveitando o máximo desta nova forma de se construir um filme, Barker aposta em enquadramentos certeiros, longos planos que potencializam o ambiente marginalizado da qual suas heroínas perambulam dia e noite e confere ao filme um visual arrojado, único, uma identidade visual inesperada que com a criatividade do diretor consegue subverter a lógica comum e apontar novos caminhos na construção de imagens e na representação de pessoas transgêneras no cinema.

O roteiro é totalmente descompromissado e foi escrito com a ajuda das próprias protagonistas.  Aliado a um ritmo incessante imposto pela direção, consegue criar em seu arco uma série de situações diversas  que vão da comédia ágil, rápida, com várias citações pop a um profundo drama, visto que aquele mundo onde elas vivem, não oferece de certa forma um sentimento familiar e as protagonistas são obrigadas a conviver diariamente com várias facetas que constroem a dura luta que pessoas transexuais são obrigadas a conviver no país e na sociedade ao redor. Entre preconceitos diários, abusos, violências, toda a sujeira daquele mundo constituído de cafetões, traficantes, prostitutas, entre outras pessoas e temas que o filme procura abordar, a amizade de Sin-Dee e Alexandra são o único laço estreito que ambas mantêm pra conseguir manter a sua sobrevivência naquele lugar. Isso fica bem exposto em sua belíssima cena final, onde através de olhares e gestos, Barker encerra a odisseia de suas protagonistas, sem jamais julga-las, mas sim oferecendo humanidade as suas personagens, mesmo com os erros e derrotas o filme se encerra de forma doce como uma tangerina, dando uma sensação de dignidade e respeito a figuras outrora tão marginalizadas dentro e fora das telas.

Mas se por um lado Tangerine é feliz na complexa construção de suas protagonistas, no universo em que ambas se inserem e, acima de tudo, na representação fiel de gêneros que o filme busca, o mesmo já não pode ser dito de outros personagens que acompanham Sin-Dee e Alexandra em sua odisseia. Personagens muitas vezes deslocados dentro da trama, ou simplesmente esquecidos ou mal desenvolvidos deixam uma sensação lamentável de perda. Barker não parece muito interessado em se aprofundar nas situações que expõem seus antagonistas em paralelo à sua história principal, deixando Tangerine um pouco menos coeso do que poderia realmente ter sido.

Outro ponto a ser levado em consideração se refere ao apressado desfecho de seu conflito final; conflito esse que se dá justamente graças a um dos principais antagonistas da trama, que devido a sua falta de profundidade dramática não eleva o drama catarse necessário.

Mesmo com seus pequenos problemas, Tangerina ainda consegue se manter como um filme acima da média, criativo, original, e, acima de tudo, necessário. Necessário por mostrar que o cinema ainda está vivo, se metamorfoseando, procurando em outras mídias formas para estar sempre juvenil e necessário por erguer uma discussão em torno de temas estritamente relevantes e que merecem ser postos em pauta. No fim, é um filme que supera todas as subversões iniciais.



22 anos estudante de Ciências Sociais, cinéfilo apaixonado, leitor compulsivo, fascinado por Rock Alternativo (música em geral) e apreciador de cerveja barata. Descobri desde cedo o poder imersivo das artes na vida de uma pessoa, e desde então sigo nessa linha tênue entre prazer e compulsão. Fã de cinema alternativo, independente e dos grandes mestres do horror. Influência: de David Lynch a Godard, mas sem nunca se esquecer da simplicidade de uma boa comédia.