06
fev
2016
Crítica: “Trinta”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
TRINTA

Trinta

Paulo Machline, 2014
Roteiro: Paulo Machline e Maurício Zacharias
FOX Filmes

3

Quem gosta e acompanha o carnaval carioca sabe muito bem da importância histórica de Joãosinho Trinta, e quem não acompanha certamente já ouviu falar nesse grande carnavalesco. Inovador e criativo, João Clemente Jorge Trinta dispensa apresentações. Sabendo disso, sabiamente o diretor Paulo Machline decidiu recortar uma parte da história do maranhense e contá-la nas telonas, fugindo assim daquela cinebiografia tradicional, onde acompanhamos a vida da pessoas de seu nascimento até sua morte.

O roteiro escrito por Machline em parceria com Maurício Zacharias acompanha a vida de Joãosinho (Matheus Nachtergaele) a partir do momento que ele desembarcou no Rio de Janeiro vindo de São Luiz até o desfile do Salgueiro de 1974, o primeiro assinado por ele. Chegando na Cidade Maravilhosa, nosso protagonista tentou a sorte como bailarino do Theatro Municipal. Lá, conheceu  Zeni (Paolla Oliveira) e Fernando Pamplona (Paulo Tiefenthaler), que o levou para o carnaval ao perceber todo seu talento na cenografia das óperas do Municipal. A partir de então, começa sua gloriosa trajetória no carnaval.

A estrutura narrativa de Trinta não compromete. Na verdade, é toda correta. Mas faltou um pouco de ousadia. As personagens são apresentadas de maneira unidimensional: o protagonista, o vilão, o comparsa, o chefe, o tio preconceituoso, etc.. Com um roteiro linear e bem definido naquilo que propõe, a narrativa vai passando sem dificuldades pelos momentos históricos. Mostrando exatamente os momentos de desafios, as decepções, o clímax, etc. Essa linearidade prejudicou um pouco, principalmente pelo acerto em não contar toda a vida de Joãosinho. Seria viável aprofundar-se mais na personalidade daqueles que estão em cena, principalmente do carnavalesco. Mas o roteiro limita-se a contar uma história, e pra isso, inclui até um vilão fictício: Tião (Milhem Cortaz). Porém, é interessante também notarmos a escolha dos roteiristas em nos apresentar passagens da vida de Joãosinho que pouca gente conhece como, por exemplo, o fato dele ter sido bailarino por um tempo. Além de fugir do lugar comum e mostrar só em imagens documentais o famoso desfile da Beija-flor em 1989 como o enredo “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”.

Matheus Nachtergaele, um de nossos melhores atores, está fabuloso em cena. Seguro durante os 90 minutos de projeção, o paulista colocou sua marca na interpretação, evitando uma simples cópia de trejeitos e olhares característicos de biografias. Nachtergaele deu show em diversos momentos, incluindo uma cena antológica, quando Joãosinho se descontrola no barracão porque as pessoas não lhe dão ouvidos. Incrível como conseguiu surtar sem perder a elegância. Mesmo diante de todos os reveses da vida, do preconceito sofrido e das dificuldades em seu primeiro desfile, Matheus conseguiu manter o tempo todo o tom irreverente característico do carnavalesco. Muito bem em cena, também, é justo exaltar as atuações de Milhem Cortaz e Fabrício Boliveira. Infelizmente o restante do elenco coadjuvante deixa um pouco a desejar. Mas nada que apague o brilho do protagonista.

A direção de arte está impecável, recriando alegorias, fantasias, desenhos e toda a ambientação das décadas de 1960 e 1970. A fotografia é outro acerto. Toda amarelada dando a impressão o tempo todo de estarmos vendo imagens em sépia, nos dá a sensação de estarmos assistindo a um documentário com imagens reais da época. É interessante também o fato de não estarmos diante de um projeto clichê de carnaval. Só ouvimos samba na quadra/barracão do Salgueiro, de resto, a trilha sonora é toda erudita, fazendo referência ao momento em que Joãosinho era bailarino e trabalhava no Theatro Municipal, que é na verdade o momento que ele se descobre artista.

Fugindo um pouco da estrutura de cinebiografias, mas mesmo assim faltando um pouco de ousadia, Trinta é uma digna homenagem ao gênio do carnaval. É um ótimo pedido nessa época do ano!

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.