12
fev
2016
Crítica: “Últimas Conversas”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
ÚLTIMAS CONVERSAS

Últimas Conversas

Eduardo Coutinho, 2015
Roteiro: Eduardo Coutinho
Vídeo Filmes

5

Ando em uma fase completamente documental. Documentário sempre teve minha preferência, principalmente no que diz respeito à realização. Inclusive, os trabalhos que mais gostei de fazer até agora na faculdade são documentários. O motivo? É interessante a forma como adquirimos cultura e conhecimento através deles. Mas existem duas razões principais para esse meu gosto: primeiramente é o mestre Francesco Trotta qual me ensinou muito em suas aulas. A segunda razão é Eduardo Coutinho, documentarista brasileiro que considero um dos melhores, se não o melhor, do mundo, criando um jeito particular de conversar com as pessoas e conseguir extrair todas suas emoções através de suas lentes. E é sobre seu derradeiro projeto que falarei agora.

Últimas Conversas foi dirigido pelo grande documentarista, mas não foi finalizado por ele. Sua trágica morte em fevereiro de 2014 se deu dias antes do início da montagem do longa. A montadora Jordana Berg e o cineasta João Moreira Salles foram então os responsáveis pela finalização do documentário e também pela (ótima!) escolha de seu título. É certo que sem o dedo de Coutinho no resultado final, temos em tela algo que possivelmente não passava pela cabeça do paulista quando se encerraram as filmagens, porém, nas mãos de fiéis amigos e antigos colegas é também certo verificar uma certa autenticidade.

João e Jordana aproveitaram o longa para também prestar uma homenagem a Coutinho. Isso fica muito claro já no início da projeção, quando por alguns minutos acompanhamos o documentarista em uma posição que não costumamos vê-lo. Sendo “entrevistado” por sua montadora, o cineasta reclama do projeto, afirmando que preferia entrevistar crianças e não adolescentes, dizendo não acreditar no que estava filmando. Suas declarações foram colhidas no quarto dia de filmagem e servem como combustível não só para ele, como para nós espectadores, que diante do seu pessimismo ficamos curiosos em acompanhar o que viria pela frente nos próximos 85 minutos.

Em Últimas Conversas, Eduardo Coutinho conversa com adolescentes da rede pública de ensino do Rio de Janeiro. A idade dos entrevistados é o motivo maior das reclamações do cineasta, já que o mesmo não acredita 100% naquilo que ouvia. É aceitável essa posição de Coutinho, já que é comum que adolescentes venham com respostas prontas e revoltas clichês típicas da idade que acabam não variando muito entre as diversas classes sociais. Porém, é admirável a maneira (mais uma vez) como ele conduz as entrevistas, e a forma como ele rebate os jovens em assuntos como os problemas com os pais e questões religiosas: tanto aqueles que são muito religiosos, como também e principalmente aqueles que se dizem ateus. Em nenhum momento o cineasta quer impor ao entrevistado de que Deus existe, mas tenho absoluta certeza de que após o bate-papo, os adolescentes tenham parado minutos pra pensar, não pra mudar sua convicção religiosa, mas talvez para melhorar seus argumentos diante daquilo que acreditam.

O maior mérito de Eduardo é a forma como ele consegue extrair as emoções das pessoas. Se em algumas vezes ele faz isso de maneira discreta, outras, consegue ser um pouco mais invasivo, insistindo no assunto, como por exemplo, diante da menina que sofreu abusos sexuais de seu padrasto. Claramente incomodada com o assunto, a garota aos poucos diante das perguntas consegue se soltar e acaba desabafando, trazendo um dos momentos mais emocionantes do longa. Nessa sequência confesso que me arrancou lágrimas.

Ao mesmo tempo em que possui momentos desoladores e silêncios doídos, Últimas Conversas também nos reserva sequências onde é difícil não nos tirar um riso. Exemplos não faltam: o conflito de gerações que existe entre os entrevistados e o entrevistador, o interesse pelas roupas rasgadas de uma das garotas e principalmente pela tocante e engraçada entrevista onde uma menina afirma ter uma “padrasta”, que seria a companheira de sua mãe. É linda a forma como ela lida com simplicidade e leveza com essa questão, e também como ela afirma que sua “papi” representa pra ela um papel de paternidade muito maior do que seu pai biológico.

No final, Coutinho acaba provando que estava errado quando no começo do longa afirma que seria melhor entrevistar crianças. Luiza, de apenas 6 anos, apesar de nos proporcionar momento de extrema inocência e sabedoria (porquê não?), não consegue diante de sua pouca idade e da aparente classe social em que vive nos trazer um depoimento emocionante como aqueles que acompanhamos anteriormente. Ou seja, o projeto foi todo acertado, apesar do pessimismo costumeiro de Coutinho.

Últimas Conversas apresenta muito bem o estilo do diretor em realizar documentários e ao nos aproximar mais dele, acaba fazendo jus ao belíssimo nome. No fim, só preciso agradecer a Coutinho por todas suas conversas e por tanto me ensinar sobre o ser humano. Levarei suas lições eternamente, mestre!

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.