10
fev
2016
Crítica: “Winter on Fire: Ukraine’s Fight For Freedom”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
WINTER FOR FREEDOM

Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

Evgeny Afineevsky, 2015
Roteiro: Evgeny Afineevsky
NETFLIX

2.5

Devo começar esse texto fazendo uma confissão: apesar de ter conhecimento dos protestos na Ucrânia que ocorreram no final de 2013 e início de 2014, eu não tinha total dimensão do que aquilo representava. A cobertura da mídia aqui no Brasil não foi tão abrangente, é lógico, e na época por algum motivo eu não corri atrás de informações para me aprofundar no assunto. Inclusive em certo momento, acompanhei essa revolução mais em noticiários esportivos do que nas páginas políticas. Isso porque alguns jogadores brasileiros que atuam no Shaktar Donetsk estavam com medo de voltar para o país devido à violência que assolava a região, principalmente pela invasão russa na Crimeia. Winter on Fire chegou a Netflix para corrigir essa falta de informação e mostrar grande parte do horror que os ucranianos passaram recentemente.

Trabalhando com imagens captadas durante a manifestação que tomou conta da praça Maidan, o diretor Evgeny Afineevsky conseguiu criar um arco dramático muito bem definido durante a projeção. Interessante como antes de realmente começar a contar a história em questão, o roteiro nos contextualiza trazendo um breve resumo da história recente da Ucrânia, citando inclusive o fato do presidente Viktor Yanukovych ter sido eleito a primeira vez no começo da década de 2000 em uma eleição que teria sido manipulada e que com isso teve seu resultado anulado. Em 2010, Yanukovych é eleito novamente com a promessa de apoiar a campanha para que a Ucrânia torne-se membro da União Europeia. Em 2013, quando se aproxima a data para a assinatura do acordo com a UE, o governo ucraniano não cumpre o prometido e então, após uma campanha que começou no Facebook, as pessoas começam a se juntar na Maidan Nezalezhnosti, a Praça da Independência da capital Kiev.

Em um primeiro momento, a população ucraniana se aglomerou na praça de Kiev com intenções pacíficas, apenas com esperança de que o governo voltasse atrás da decisão de não cumprir a promessa de campanha. Com o passar dos dias, e o diretor faz questão de pontuar dia a dia, em um exercício de cronologia, começamos a acompanhar a transformação de um ato pacífico em uma verdadeira batalha campal, quando Yanukovych resolve reprimir com violência as manifestações, usando a força da polícia especial e também o serviço de mercenários. A escolha de Afineevsky em usar imagens colhidas durante a revolução é acertada, já que transfere o espectador para aquele ambiente que fica hostil com o passar do tempo, não nos poupando em nada, inclusive de cenas de extrema violência e até morte. O registro jornalístico tem poder também através de depoimentos daqueles que presenciaram o terror na capital da Ucrânia. Ouvimos então relatos de estudantes, ex-militares, religiosos e jornalistas, trazendo diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto, com a ressalva de que todos os entrevistados estão do mesmo lado da batalha.

É nisso que temos o ponto mais fraco do documentário, já que o roteiro nos leva apenas a acompanhar o lado dos manifestantes, dando pouca abertura para ouvirmos aqueles que estavam do lado do governo. Apesar de não concordar com esse tipo de abordagem, é aceitável diante de todo o contexto, já que trata-se de um governante tido como traidor por seu povo, afinal, a Ucrânia é um país livre desde 1990, quando conquistou a independência da União Soviética, e a aproximação de Viktor Yanukovych com a Rússia causou temores de que em algum momento o país fosse incorporado novamente ao território russo.

Winter on Fire: Ukraine’s Fight For Freedom é importante por tirar boa parte do mundo da ignorância diante desses fatos, e mais, é necessário ao povo brasileiro para que possamos começar a refletir sobre nossas manifestações. Afinal, basta parar 100 minutos na frente da Netflix para tomarmos algumas lições de como nos manifestar. É tocante a forma pacífica como a juventude ucraniana continuou lutando diante de tantas represálias e, que no final das constas, conseguiu seu objetivo.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.