03
mar
2016
Crítica: “Chatô – O Rei do Brasil”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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Chatô – O Rei do Brasil

Guilherme Fontes, 2015
Roteiro: Guilherme Fontes e João Emanuel Carneiro
Milocos Entretenimento

4

A espera acabou! 20 anos depois de começar a produzir, Guilherme Fontes finalmente lançou seu ambicioso projeto, que começou a ser produzido em 1995 e que teve sua produção suspensa em 1999, diante de algumas dificuldades. Muito se questionou durante todos esses anos sobre o orçamento do longa, criaram-se lendas em volta do suposto desvio de verba do diretor e produtor, que chegou inclusive a ser condenado a devolver o dinheiro – com juros – para a União. Não sabemos ao certo se Fontes sentiu-se obrigado a lançar o filme após a condenação, mas sendo ou não uma coincidência seu lançamento foi anunciado pouco tempo depois das notícias de que teria que devolver cerca de 80 milhões de reais ao país. Diante dessa irônica pressa para lançar comercialmente mais questionamentos vieram à tona, agora de cunho artístico.  É normal que filmes que com longo tempo de produção entreguem um resultado abaixo do esperado (e não estou provocando os fãs de Boyhood: da infância a juventude (Richard Linklater, 2014)) já que lá toda essa demora foi proposital). Ótimo que o resultado final ficou muito além do que eu esperava.

Baseado no livro homônimo de Fernando Morais, o longa acompanha a história do jornalista e magnata brasileiro Assis Chateaubriand (Marco Ricca), passando por momentos fundamentais de sua vida. Engana-se, porém quem acreditar tratar-se de uma cinebiografia convencional, daquelas que seguem uma linearidade dos acontecimentos. Fontes cria um programa fictício que seria o julgamento da vida de Assis, passando no horário mais nobre da TV na época: a noite de domingo. A partir dos enfrentamentos do nosso protagonista no programa de televisão sua vida começa a ser contada, em uma narrativa nada convencional e longe da linearidade, o que torna a escolha de utilizar o fictício julgamento como fio condutor do roteiro um tremendo acerto.

Rodado durante a retomada do cinema nacional na década de 1990, Chatô conta algumas características de seus contemporâneos, por exemplo, contar sobre personagens e momentos históricos do Brasil (como Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (Carla Camurati, 1995) e O Que é Isso Companheiro? (Bruno Barreto, 1997)), mas ao ter sua pós-produção finalizada 20 anos depois, é nítido que se privilegia de uma montagem caótica, eficiente e moderna, responsável por todo o ritmo acelerado do longa, que acaba nos prendendo atenção desde os primeiros minutos de projeção. E, se em alguns momentos a montagem parece ligar planos desconexos, é justificável diante do tom onírico com que o roteiro retrata a vida de Chateaubriand.

É claro que um personagem com tamanha importância pro Brasil poderia ser retratado de diversas formas no cinema. Há muito que se contar sobre sua vida e sobre tudo que representa principalmente pra nossa imprensa. Porém, ao utilizar um tom fantasioso e trazer a trama para a comédia, Fontes acerta de novo dando um ar “chanchalesco” ao projeto. Assim sendo, Chatô não é uma simples biografia, como também não é uma comédia gratuita, já que utiliza muito bem de toda a ironia característica das chancadas para falar de política, por exemplo. E, definindo tratar-se de uma chanchada (que realmente remete e muito a época de Oscarito e Grande Otello), o diretor facilitou muito a criação de todo design de produção e também da fotografia, que são os grandes responsáveis por todo o onirismo presente na obra.

Interessante notar como Chatô consegue ser extremamente atual ao tratar de questões como a influência da imprensa na sociedade. Se atualmente vemos que a imprensa derruba e faz o que quer com o governo atual, noticiando somente aquilo que lhe interessa, não era muito diferente em sua época de jornalista. Vemos aqui como o magnata utilizava de seu jornal e poder para chantagear o presidente da república. E não só isso, ao perder dinheiro de anúncios, Assis Chateaubriand sem escrúpulo algum inventa calúnias sobre seus anunciantes, colocando como manchete de seu jornal, por exemplo, que tinham achado animais mortos em um refrigerante de cola. Incrível como algumas coisas insistem em não mudar em nosso fantasioso país, não é mesmo? E é isso que Guilherme Fontes retrata em sua obra. O Brasil vive em uma eterna chanchada, onde poder e sexo andam lado a lado.

Marco Ricca, em uma de suas melhores atuações (a melhor?) da carreira, dá vida à um personagem que consegue ser amável e odiável em proporção igual. Mulherengo, cínico, chantagista, debochado e extrovertido, Assis Chateaubriand é um personagem difícil de interpretar. Mas Ricca consegue nos guiar o tempo todo em uma linha tênue que faz com que cada hora você penda para um lado. Se torcemos por ele e achamos sensacional seus feitos históricos, como o lançamento da TV Tupi, o desprezo que sentimos diante da sua relação com a filha é do mesmo tamanho. Se temos em Marco Ricca uma atuação perfeita, não podemos dizer o mesmo de Paulo Betti, que pesa demais na caricatura de Getúlio Vargas nas primeiras sequências, mas que aos poucos vai acertando o tom, finalizando muito bem sua aparição.

Quando Quentin Tarantino mata Hitler em um cinema no filme Bastardos Inglórios (2009), consegue misturar ficção com realidade. Óbvio que o ditador nazista não morreu dessa forma, mas Tarantino trouxe o personagem para seu longa e deu um fim a ele totalmente crível diante de seu universo. Aqui em Chatô temos também elementos assim, já que Fontes cria personagens fictícios e incluí em uma trama histórica. Vivi Sampaio (Andreia Beltrão) e Rosemberg (Gabriel Braga Nunes) são personagens criados pelo roteiro e que ajudam – e muito! – no fio condutor da história. Beltrão brilha ao criar uma mulher influente na política, que mesmo tendo o estereótipo de mulher sensual, acaba discutindo de certa maneira o papel da mulher na sociedade, principalmente política.

A impressão que fica é que assim como vinho Chatô ficou melhor com o tempo. Mesmo que sem querer, Guilherme Fontes conseguiu trabalhar muito bem em seu filme, usando todo o tempo e polêmicas como seus aliados, nos brindando assim com uma chanchada completamente atual e poderosa. E, quem sabe assim, ele finaliza de vez nosso momento de retomada. E que seja a última vez que precisamos retomar nossa produção!



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.