29
mar
2016
Crítica: “Grandes Olhos”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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Grandes Olhos (Big Eyes)

Tim Burton, 2014
Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski
Paris Filmes

2.5

Tim Burton é um daqueles realizadores que em uma roda de discussão acaba sendo motivo de polêmicas. Repleto de admiradores e pessoas que detestam seus trabalhos em igual proporção, os trabalhos do cineasta norte-americano acabam dividindo não só a crítica, mas como também os espectadores. Nesse sentido, consigo colocar duas de suas obras como exceção: Alice no País das Maravilhas (2010) e A Noiva Cadáver (2005). Não é necessário que eu diga qual desses filmes é consenso positivamente e qual é o oposto, não é mesmo?! Sempre percebi essa divisão que o diretor causa nos debates cinéfilos, mas pude ter certeza dessa minha teoria por causa do meu namoro. Nunca foi segredo e agora vocês saberão disso: eu não gosto nada do trabalho de Burton. Minha namorada adora. Desde nossos primeiros encontros e conversas cinéfilas, debatemos sobre vários dos longas do diretor. Consenso só nos longas citados. Divergências em todos os outros. Cada um com seus argumentos acabam no final da conversa quase convencendo o outro daquilo que pensa. O que me leva a concluir que Tim Burton não é um diretor ruim, tal como Tarantino, criou um estilo próprio e, viciado nessa estética acaba agradando somente parte dos espectadores, não conseguindo cativar àqueles que possuem ressalvas. Diferente, por exemplo, de cineastas que também talentosos não possuem uma assinatura tão forte em suas obras.

Inspirado em fatos reais, Grandes Olhos conta a história de Margareth Ulbrich, uma pintora que recém-divorciada se muda para São Francisco. Na cidade californiana, a artista conhece o carismático Walter Keane, com quem logo se envolve amorosamente e se casa, com intuito de preservar a guarda de sua filha. Ulbrich criou obras populares onde retratava crianças e animais com olhos grandes, muitas vezes tristes. Keane era o responsável por comercializar as obras, fazia o marketing do trabalho da esposa, porém, com a conivência dela ele começou a assumir publicamente a autoria dos trabalhos. Dez anos depois, Margareth entrou na justiça para retomar os direitos de sua obra.

Uma história como essa é um prato cheio para qualquer cineasta, já que são personagens que podem ser explorados ao máximo psicologicamente falando. Porém Burton decide contar esse drama de uma maneira tão convencional, que deixa de ser um estudo de personagem e passa a ser quase como um relato jornalístico. Relato mesmo. Chegamos ao fim da exibição sabendo exatamente tudo o que aconteceu, porém sem a profundidade necessária ao cinema. Personagens tão ricos acabam virando unidimensionais na mão do cineasta, que erra e muito ao não aprofundar na psique de cada um. E apesar da sua duração (aproximadamente 2 horas), a narrativa é apressada. A linearidade do roteiro e da montagem nos causa ainda mais essa impressão, já que ao não aprofundar na história, os fatos vão se sucedendo na nossa frente em questão de poucos minutos. É como se ela conhecesse Walter hoje e se casasse amanhã.

A escalação de dois bons atores, com indicações e premiações na carreira, fez com que esse longa tivesse uma credibilidade maior antes do lançamento. Porém, a sensação que fica é que temos dois talentos desperdiçados. Não sei explicar ao certo se é por uma direção de atores fraca ou então por conta do frágil roteiro. Fato é que Amy Adams até vai bem, consegue em seus melhores momentos na trama demonstrar a fragilidade de Margareth através de seu olhar, seu tom de voz e sua expressão corporal. Porém é em Christoph Waltz que talvez exista minha maior decepção com o filme. A impressão é que ele criou um personagem junto com Tarantino em Bastardos Inglórios (2009) e a partir de então essa persona não sai mais de seu corpo. A caricatura que criou para seu (mais um!) vilão galanteador é tanta que incomoda muito. Beira a canastrice.

Grandes Olhos não vive só de seus defeitos. O design de produção é belíssimo. As obras são muito bem recriadas, e críveis ao universo do diretor. E é justamente ao brincar com as imagens pintadas nas telas, que Burton consegue seu melhor momento, quando Margareth começa a ver todas as pessoas com olhos gigantes nos corredores do supermercado, mostrando que a personagem estava completamente perturbada com aquela situação. Um raro momento de linguagem. Já que durante todo o resto da projeção acompanhamos um trabalho totalmente sem ambição, onde falta experimentos com a imagem, uma fotografia bonita e até mesmo uma trilha sonora adequada. O diretor peca, diferente da grande maioria de seus trabalhos, justamente por não inovar.

É interessante também observar o embate existente entre obras populares e obras líricas. Fica clara a intenção de trazer essa discussão para o cinema, já que Tim Burton não é conhecido exatamente por criar obras poéticas, tendo seu cinema sendo sempre popular. Por conta disso, o cineasta acaba sendo sempre vítima dos críticos (rs). Mas, pensando um pouco na repercussão das obras de Maragareth e trazendo um pouco para a atualidade, faço um paralelo de seu trabalho com o do brasileiro Romero Brito. Ambos populares acabaram lançando suas pinturas em objetos como canecas, bolsas, etc., o que acaba incomodando muita gente do meio, já que os valores alcançados com esse marketing é muito superior do que simplesmente tentar a sorte em alguma galeria. Ah! Espero que Margareth possa me perdoar por compara-la ao Romero.

Contando com um final extremamente problemático, que enfatiza ainda mais os problemas de ritmo da narrativa, Grandes Olhos mais parece um telefilme, de tão impessoal que soa.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.