01
mar
2016
Crítica: “O Abraço da Serpente”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Pedro Bonavita
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O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente)

Ciro Guerra, 2015
Roteiro: Ciro Guerra, Jacques Toulemonde Vidal
Esfera Cultural

5

A colonização europeia mundo afora é um tema bastante delicado e importante, não só pela formação da população dos locais colonizados, mas chegando inclusive no impacto ambiental que a colonização ocasionou. Tanto no ensino fundamental, quanto no médio, aprendemos sobre a exploração de borracha na Amazônia, o desmatamento e também a questão da catequização dos povos indígenas. Mas, ensinado de uma maneira superficial, a impressão que fica nas aulas de história é de uma leveza inacreditável. Então quando nos deparamos com relatos reais e mais cruéis é inevitável que não choque.

Theodor Koch-Grunberg foi um explorador alemão que se embrenhou na selva amazônica a fim de estudar os povos que ali viviam. Seus estudos servem como a única base documental de diversos nativos da região banhada pelos rios Xingu, Negro, Japurá e Orinoco. Suas obras são usadas por historiadores como um estudo aprofundado de algumas tribos indígenas, além de servirem como referência na criação de universos em obras ambientadas na Amazônia como, por exemplo, “Macunaíma” de Mario de Andrade.

O roteiro de O Abraço da Serpente acompanha duas viagens, em um primeiro momento acompanhamos aquela que é a última viagem de Theodor (Jan Bijvoet) (que aqui ganha outro sobrenome: “Von Martius”), 40 anos depois o botânico norte-americano Richard Evans Schultes (Brionne Davis) tenta refazer os passos do alemão, em busca da planta Yakruna, cuja a lenda diz ter um alto poder de cura. Além do estudo sobre a planta, o que une os dois pesquisadores é o encontro com o Xamã Karamakate (Nilbio Torres e Antonio Bolivar), que além de servir como um guia na busca pela Yakruna acaba sendo também o fio condutor de toda a história. Karamakate é o último sobrevivente de uma tribo de guerreiros que não se rendeu à colonização dos brancos, o que gera o tempo todo uma tensão na tela, já que em nenhum momento o nativo confia totalmente nos estrangeiros, criando uma interessante discussão antropológica e etnológica. Os primeiros encontros do Xamã com outros nativos ou então com os brancos são sempre pautados por um certo distanciamento, fruto da desconfiança de quem viu todos seus ancestrais morrerem por conta da colonização.

Ciro Guerra, jovem cineasta colombiano, não se limita a contar apenas uma aventura floresta adentro, já que durante toda a jornada, o roteiro faz questão de discutir questões importantes: a colonização, a catequização, a exploração da borracha, o desaparecimento da cultura indígena, além da busca interior. O diretor mostra também um tremendo respeito à cultura dos índios, quando opta por ter boa parte do longa falado em língua nativa, além de não romantizar em nenhum momento o personagem do xamã, tentando trazer uma visão bem realista, evitando ao máximo o uso de estereótipos na construção da personagem.

Em um primeiro momento, e digo primeiro no sentido de quando comecei a assistir o filme, achei que a fotografia em preto e branco estava totalmente gratuita ali, servindo apenas como um elemento estético, onde talvez o diretor quisesse dar uma “assinatura” sua a obra. Mas com o desenrolar da trama, fui me dando conta de que a escolha pelo preto e branco foi acertada, já que ao não enxergarmos as cores da natureza nosso olhar não se distrai nos deixando o tempo todo envolvidos somente pela história, afinal, a beleza dos planos não é o mais importante.  Com uma narrativa não linear e uma fotografia que se mantém homogênea entre as duas fases, o trabalho do montador se destaca ainda mais, já que o raccord entre os planos das transições entre as épocas é feito de maneira cirúrgica, evitando que o espectador fique confuso.

O impacto da colonização é o principal motivador da trama. Começando pela exploração da borracha e demais recursos naturais e desaguando em questões culturais e religiosas, o longa consegue nos impactar de maneira cruel durante sua exibição. As missões religiosas são ilustradas aqui nas duas fases, e a elipse de 40 anos que se faz entre uma e outra funciona muito bem nesse sentido. Já que em um primeiro momento nos é mostrado o início de toda essa catequização, onde padres torturam crianças indígenas e as proíbe de falar sua língua nativa, chamando-a de “língua do Satã”, e se já nos choca ver crianças apanhando em um tronco por desobedecer alguma ordem do missionário, o diretor consegue ainda mais impacto quando no futuro trata dessa questão trazendo um Messias (ao que tudo indica brasileiro ou português) completamente louco que domina uma tribo indígena e se acha realmente um Deus deles. Se na primeira parte o choque vem por conta da violência física, aqui, mesmo mostrando momentos de auto flagelação, a violência psicológica pela qual aquelas pessoas sofreram é muito maior e mais impactante em suas vidas do que se fosse fisicamente.

O fato do colonizador obrigar os nativos a falarem espanhol é apenas uma das muitas críticas de O Abraço da Serpente. Ao mostrar Karamakate completamente incomodado com índios vestidos, portando armas e até amigos de homens brancos, o diretor nos mostra como a colonização fez o favor de matar aos poucos culturas primitivas e milenares que agora são tidas apenas como lendas e mitologia. E é interessante quando Theodor pede para o líder de uma tribo devolver sua bússola, alegando que eles deveriam preservar o conhecimento de seguir a direção através do vento e das estrelas, mas Karamakate rebate dizendo que o conhecimento é universal e que os homens brancos deveriam entender isso. Ou seja, o conhecimento realmente deve pertencer à todos, enquanto cada cultura deve ser individual, respeitada e principalmente preservada. Não podemos confundir alhos com bugalhos.

É fato que os índios, assim como os africanos, respeitavam muito a natureza e acreditavam na sua força. Para eles, o uso de plantas deveria ser medicinal ou religioso, assim como caçar e pescar apenas para alimentar. E é bonito como o Xamã se preocupa o tempo todo em pescar somente quando voltasse a chover. Enquanto isso os brancos exploram a natureza com a ideia de lucrar em cima disso, destruindo não só nossa fauna e flora como também vidas, já que muitos índios foram escravizados na exploração da borracha, por exemplo. E, quando Richard vai em busca da milagrosa Yakruna, fica claro que sua ideia vai muito além de pesquisá-la, já que caso comprovado seu poder de cura, a planta viraria ouro na mão dos brancos.

O Abraço da Serpente pode até parecer um abraço fraternal em um primeiro momento, mas aos poucos ele vai se tornando fatal, assim como a colonização. É uma pena que culturas, crenças e a natureza estão sendo extintas em nome de valores fúteis. E, quando imaginamos que o filme caminha apenas para se tornar uma dura crítica social, tudo acaba se renovando, deixando com que seu final seja um renascimento espiritual, tanto do índio como do espectador. É impossível sair da sala de cinema da mesma maneira que entrou.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.