17
mar
2016
Crítica: “O Crítico”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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O Crítico (El Crítico)

Hernán Guerschuny, 2013
Roteiro: Hernán Guerschuny
Esfera Cultural

3

Não me considero um crítico de cinema, apenas gosto de escrever sobre os filmes que assisto e consegui espaço aqui no Pipoca para isso. Porém, mesmo não sendo um profissional da área, sei o quão difícil é a profissão. Quando vou escrever sobre algum projeto que assisti, tento sempre ao máximo fugir do ambiente confortável do “gostei”, “não gostei”. Acredito sempre que uma resenha deve ir além disso. É necessário justificar o meu gosto e ir além, sempre. Cada pessoa interpreta a obra de uma maneira muito particular e é isso que o grande público precisa começar a entender. Se em algum momento criticamos algo popular, a pressão dos leitores vem. Mas essa pressão vem ainda maior daqueles que realizam as obras. Há de se entender que não estamos aqui pra agradar ou então sentenciar se uma obra é valiosa ou não. O fato é que estamos apenas expondo nossa opinião e principalmente nossa interpretação. No final das contas, as notas são na verdade uma grande brincadeira que motiva cada vez mais nós cinéfilos.

Dito isso, vamos ao que realmente interessa por aqui!

O Crítico acompanha a vida de Victor Tellez (Rafael Spregelburd), crítico de cinema argentino. Levando uma vida pacata e sem grandes emoções, já que acabara de terminar um relacionamento, Tellez acaba sempre rejeitando e falando mal de comédias românticas em suas colunas. Quando conhece Sofia (Dolores Fonzi) e se apaixona por ela, começa a viver na pele tudo aquilo que recrimina em suas críticas.

O grande acerto do roteiro é lidar com a temática usando o humor, já que mergulha de vez na comédia romântica, desconstruindo o gênero e fazendo piada das fórmulas batidas. Acompanhamos o pensamento de Victor Tellez o tempo todo em francês, que já deixa claro que pra ele o único cinema que presta é o cinema de arte, principalmente o da Nouvelle Vague. Porém, quando traz Sofia para o roteiro, Hernán Guerschuny acaba nos mostrando que qualquer gênero cinematográfico é válido, desde que bem realizado, já que ao Tellez se apaixonar por ela, começa a vivenciar tudo aquilo que acontece nas comédias românticas, o que acaba o incomodando profundamente. É hilário quando percebemos a reação do crítico diante de cada situação que ele reconhece, com destaque para dois momentos: a sequência do “clipe”, onde eles sem pela rua, visitando uma feirinha, ao som de uma música melosa, e o momento mais clichê de todos é o primeiro beijo do casal Victor e Sofia, em uma locação linda, a beira d’água, com lua cheia e fogos de artifício.Os clichês aqui não incomodam tanto porque o tempo todo sabemos tratar de uma sátira, mas que acaba se levando a sério diante de tamanha dose de drama e melancolia vivida pelo protagonista.

Mesmo que em algum momento o longa satirize as comédias românticas, o maior alvo das sátiras são os críticos, já que o diretor faz questão de tempo todo estereotipar esses profissionais. Mas o momento mais marcante dessa crítica e que mostra até um certo ressentimento por parte dos realizadores é quando logo no começo em um bate-papo entre críticos antes de começar uma sessão, eles acabam falando que se o filme vai passar em Berlim, é porque ele é ruim, isso sem ao menos ver, dando a entender dessa forma de que de certa forma o crítico vai assistir uma obra com um pré julgamento já determinado, que pode acabar (e não deve ser assim) influenciando em sua análise final. Diferente do que acontece em Birdman – ou a Inesperada Virtude da Ignorância (Alejandro G. Iñarritu, 2014), aqui acompanhamos através da ótica do crítico e não do cineasta. Ilustrando esse embate entre crítico e artista, temos o cineasta Arce, realizador de uma comédia romântica é alvo de críticas por parte do protagonista e acaba usando sua sobrinha para se vingar, tornando peça chave do clímax do longa, que por um breve momento passa a ter um certo tom de suspense.

É interessante notar o contraponto do casal protagonista. Se Victor Tellez é um sujeito ranzinza, mal-humorado e até um pouco insensível, Sofia é uma mulher otimista, sempre bem-humorada e com ótimas tiradas. Tanto Victor, quanto Sofia acabam passando por problemas pessoais, como todos nós passamos em nossas vidas, mas a forma como cada um lida com seu problema mostra o que há de diferente na personalidade deles. A direção de arte tem papel fundamental na construção dessa diferença entre os dois. Enquanto todo o ambiente em que Victor está inserido é melancólico, nos trazendo certo descaso (seu apartamento com acabamento ruim, por exemplo) e cores com tons mais escuros, refletindo inclusive em sua aparência já que sustenta uma expressão mais fechada, sempre trajando roupas mais sóbrias. Sofia está o tempo todo mais alegre, com roupas coloridas, uma bicicleta vintage e seu capacete cor-de-rosa.

Apesar do momento que remete a um thriller, O Crítico não deixa de ser um filme despretensioso e leve, que acerta ao brincar consigo mesmo, assumindo de vez que é uma comédia romântica e que não se deve ter vergonha disso.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.