08
mar
2016
Crítica: “Presságios de um Crime”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno
175191

Presságios de um Crime (Solace)

Afonso Poyart, 2015
Roteiro: Ted Griffin e Sean Bailey
Diamond Filmes

3

É sempre bom ver brasileiros sendo reconhecidos no exterior. Não que a opinião estrangeira valha mais, mas é que ter nomes nacionais em destaque no mundo acaba trazendo visibilidade para o trabalho brasileiro. E como nosso Cinema é extremamente rico e diversificado, ver um diretor nacional tendo a oportunidade de trabalhar em um filme americano com um elenco renomado e uma grande distribuição é sempre interessante. Pena que este Presságios de um Crime, dirigido pelo brasileiro Afonso Poyart (do excelente 2 Coelhos), seja tão mediano e sem personalidade.

O filme acompanha dois agentes do FBI, Joe Merriwether (Jeffrey Dean Morgan) e Katherine Cowles (Abbie Cornish), que após ficarem completamente sem pistas sobre um serial killer, decidem recorrer à ajuda de um vidente (Anthony Hopkins), que vive isolado desde a morte da filha.

Já se iniciando com um plano extremamente clichê e batido (um zoom out de um olho), o filme encontra sérias dificuldades para encontrar sua personalidade. Afonso Poyart se rende a diversos outros clichês, como ao filmar uma escada em espiral em um plano plongée para ilustrar a confusão mental de um personagem, ainda que ao menos consiga criar aqui e ali algumas cenas visualmente interessantes (aquela que envolve vários “clones” em uma banheira é a minha preferida).

Também é necessário apontar que o diretor se mostra eficiente para criar tensão (ainda que de modo usual), e conduz com segurança e clareza as sequências de ação (ainda que, mais uma vez, sem nada muito original – ao contrário do que se via em 2 Coelhos) – destaque para a cena que envolve uma perseguição de carro.

Já o roteiro também não traz muita coisa nova. Desde o “assassino metódico” (já explorado diversas vezes em filmes bem superiores como Seven e Jogos Mortais) até o veterano inteligente que vive afastado devido a uma tragédia pessoal, o trabalho de Ted Griffin e Sean Bailey não pode ser classificado como original. Além disso, o texto traz ainda um deslize que apesar de pequeno me tirou um pouco do filme – eu posso estar errado, mas acredito que trazer uma psiquiatra que não reconhece uma citação de Freud é um pouco demais, não?

Mas também é necessário admitir que o roteiro tem sim seus méritos. Conforme as motivações do vilão da história vão ficando mais claras, tudo passa a ficar mais bacana, sem contar que ele levanta algumas questões interessantes (o que é melhor: uma morte misericordiosa ou uma vida sofrida?). Além disso, não há como negar que o filme prende a atenção até seu minuto final, sem nunca parecer arrastado ou chato.

O elenco também está ótimo. Anthony Hopkins tem em suas mãos um papel feito na medida para ele (um homem inteligente e misterioso) e tira de letra, ainda que seja uma pena que a trilha sonora faça questão de descambar para o melodrama em um de seus monólogos mais fortes sobre sua filha. Aliás, vale dizer que toda a trilha sonora peca por ser intrusiva demais, e Afonso Poyart parece não saber utilizar o silêncio para criar tensão ou impacto.

Abbie Cornish (atriz pouco conhecida e que gosto muito) também está muito bem, convencendo com sua frieza que ao mesmo tempo traz humanidade, se saindo muito bem na tarefa de protagonizar o filme.

Voltando a decepcionar em seu ato final, ao trazer um típico final feliz Hollywoodiano que soa artificial, ainda que não completamente incoerente, Presságios de um Crime é um filme nada mais do que mediano, que consegue prender a atenção e traz um ou outro momento um pouco mais inspirado. Não deixa de ser uma oportunidade desperdiçada de mostrar o talento do Cinema brasileiro, mas ao menos pode garantir ao diretor uma futura segunda chance.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.