06
mar
2016
Crítica: “The Hunting Ground”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Matheus Benjamin
The Hunting Ground

The Hunting Ground

Kirby Dick, 2015
Roteiro: Kirby Dick
The Weinstein Company

4.5

O sonho de muitos jovens (de diversos lugares do mundo) é de um dia poder cursar alguma faculdade. Nos Estados Unidos, este processo é um pouquinho diferente do que conhecemos aqui no Brasil, principalmente porque suas notas na escola fazem diferença na hora de escolher uma universidade e um curso para ingressar. Além disso, há algumas provas que seriam espécies de vestibulares que conhecemos, uma redação de apresentação e alguma burocracia. Pois bem, dito isso, podemos começar a entender um pouco melhor sobre o que acontece no incrível documentário The Hunting Ground.

Dirigido por Kirby Dick, nos primeiros minutos de projeção conhecemos um pouco sobre esse sonho de muita gente: entrar em uma universidade, fazer um curso bacana, se formar e ser um grande profissional, de preferência bastante reconhecido. No meio deste caminho algumas coisas podem acontecer, principalmente se você for mulher. O foco deste filme é o da omissão das universidades americanas em tratar dos casos denunciados (eu disse denunciados, veja bem) de abusos sexuais que acontecem em seu próprio território. Uma coisa, também, chocante e triste de se pensar são os números apresentados durante as imagens de arquivos e entrevistas. A direção intercala o filme com diversas imagens de arquivo pessoal, com fotos de jornais, fotos das universidades e entrevistas das sobreviventes, as vítimas dos abusos. Alguns depoimentos pode-se perceber o grandioso trauma causado na vida dessas jovens, que conseguiram, apesar dos pesares, denunciar os abusos que sofreram e que lutaram para que seus agressores fossem punidos. Além dos depoimentos das vítimas, também há depoimentos de especialistas no assunto, ou de representantes dessas universidades.

Algumas das personagens são seguidas ao longo de toda a projeção, como no caso de duas amigas que sofreram abusos sexuais na mesma universidade e que se uniram para ajudar outras vítimas a fazerem as denúncias. Um fato angustiante e, por ora, nojento é o dos relatos mostrarem a grande omissão tanto por parte das universidades quanto da polícia, que sempre tentavam confundir a psicologia das vítimas mostrando que as verdadeiras culpadas do que havia ocorrido com elas eram delas mesmas; como quando faziam diversas perguntas que questionavam a maneira como estavam vestidas ou se haviam ingerido bebidas alcoólicas. O diretor aborda este tema de forma muito astuta, mostrando os diversos fatores que o causam, como a mentalidade das pessoas, as festas de fraternidades e, sobretudo, o dinheiro e o lucro que estão envolvidos e alguns casos dentro desses fatores. No fim, pode-se concluir que a maioria das universidades está mais preocupada com sua imagem e reputação de bom local de convivência e de estudos (porque assim mais dinheiro podem obter através de doações, patrocínios e etc) do que com a vida de seus estudantes. Além de mulheres, uma parcela de homens também sofrem abuso sexual nas universidades americanas.

Um dos casos mais revoltantes apresentado no longa é o que envolve um jogador do time de futebol americano; a maior estrela do time, diga-se de passagem, que abusou de uma aluna (que manteve-se firme na denuncia e obteve seus métodos para descobrir de quem tratava o agressor) e que só começou a ser investigado cerca de um ano após o ocorrido, sobretudo por tratar-se de quem era. Neste momento, há a inserção de diversos depoimentos, tanto dos torcedores do time de futebol americano que o tal jogador fazia parte, tanto de pessoas envolvidas com a parte técnica do esporte e comentaristas esportivos na televisão dizendo tratar-se de uma aproveitadora que inventara tudo isso pois estava interessada na mídia e fama que traria para si. Tais jogares são muito rentáveis para as universidades, pois se o time vai bem, estas recebem grande quantidade de patrocínios e doações para si, portanto, alguns dos casos que foram levados adiante determinaram que os jogares só seriam expulsos após o final das temporadas, ou seja, um absurdo gigantesco. Alguns deles poderiam até se graduar na universidade antes de sofrerem as consequências por seus atos.

Além do roteiro e direção quase impecáveis, dos depoimentos firmes e angustiantes e da montagem das cenas muito bem orquestradas, a trilha sonora fica por conta de diversas músicas com mensagens que demonstram para seguir adiante e ter esperanças, destaque para a canção original Til it Happens to You, escrita por Diane Warren e Lady Gaga (interpretada também por esta última) que passa muito do que o documentário quer expor. Infelizmente, a música, que tratava-se injustamente da única indicação deste filme ao 88º Oscar, também não venceu o prêmio na categoria que concorria, o que pegou muita gente de surpresa, tendo em vista que era a favorita à vitória.

Em suma, The Hunting Ground é um documentário triste, com cenas muito revoltantes, números ainda mais revoltantes, sobre uma realidade muito próxima de todos em diversos países. Mostra que a omissão da maioria das universidades é motivada pelo dinheiro, que está acima das pessoas a todo momento e que se nada for feito para mudar muitas outras pessoas podem morrer (pois também ocorrem diversos suicídios de vítimas) e sofrerem mais abusos. E lembre-se: tudo isso que é mostrado no documentário aconteceu/acontece apenas nos Estados Unidos, imagine no resto do mundo.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.