16
mar
2016
Crítica: “Tudo Vai Ficar Bem”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno
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Tudo Vai Ficar Bem (Every Thing Will Be Fine)

Wim Wenders, 2015
Roteiro: Bjørn Olaf Johannessen
Mares Filmes

4

Tudo Vai Ficar Bem é um filme dramaticamente devastador ao mesmo tempo em que é um interessante estudo sobre ficção versus realidade.

O roteiro acompanha o escritor Tomas (James Franco), que tem a vida mudada para sempre depois de se envolver em um acidente de carro com uma criança.

Desde o início a atmosfera criada pelo experiente diretor Wim Wenders é hábil em evocar a melancolia e a tristeza que eventualmente tomará conta do protagonista. Com uma fotografia recheada de cores frias e um constante som de vento soprando forte, os minutos iniciais do filme (que envolvem o acidente que marcará para sempre a vida do personagem) contrastam completamente com as cores quentes que marcam todo o resto da projeção – reforçando como aquele período foi completamente diferente de tudo o que aconteceu em sua vida (aliás, tendo em vista que este é o único momento do filme que se passa na neve, é interessantíssimo reparar que um dos livros escritos pelo personagem se chama “Inverno” – o que reforça a discussão temática do filme de “ficção versus realidade”, que abordarei daqui a pouco).

Mas não é só ao fazer a distinção entre as estações que a fotografia se mostra competente. É interessante notar como ela ainda acha espeço para pequenas sutilezas, como por exemplo, ao acompanhar um diálogo entre os personagens de James Franco e Charlotte Gainsbourg que começa de maneira triste, as cores do quadro são frias e sem vida, e conforme a conversa vai ganhando um toque de esperança, o quadro aos poucos vai se enchendo com cores quentes, mas que desaparecerem por completo quando o texto volta a ficar melancólico.

Igualmente inteligente é como o diretor Wim Wenders constantemente (e quando digo constantemente quero dizer dezenas de vezes) traz o personagem principal olhando através de janelas, ou então enquadrado atrás delas, o que reforça o sentimento de distanciamento do mundo vivido por ele, e também sua preferência por viver na ficção do que na realidade.

Outra coisa em que o diretor se mostra habilidoso é em manipular as emoções do espectador. Logo na segunda cena do filme (e possivelmente a mais importante da trama), Wim Wenders já mostra seu poder de manipulação: a cena se inicia de maneira melancólica, e de repente traz um susto, mas que é logo acompanhado por um sentimento de alívio, seguido por um leve relaxamento (reforçado por um telefonema dado pelo personagem), apenas para na sequência trazer um peso dramático fortíssimo e inesperado (que, confesso, me fez gelar por um segundo).

O diretor só erra mesmo ao exagerar na estilização de algumas cenas que se beneficiariam se fossem mais discretas, como ao trazer dois personagens tendo uma conversa por telefone e ao invés de usar uma montagem convencional para mostrar um de cada vez, ele opta por fundir as duas imagens deixando a tela dividida de modo a mostrar os dois atores no quadro ao mesmo tempo – o que até é esteticamente interessante, mas surge de maneira aleatória e não desempenha função narrativa alguma.

Já as atuações não deixam nada a desejar. James Franco deixa completamente de lado sua persona cômica e bem humorada para viver seu personagem com fortes marcas de expressão e olhar sempre cansado. Já Charlotte Gainsbourg vive com intensidade a dor de sua personagem, que tenta buscar algum conforto na religião – e é louvável que o filme evite moralismos sobre como a fé é a única saída possível de uma dor. E se Rachel McAdams pode soar um pouco estranha e desconfortável ao ter que fingir um sotaque que não é o seu, pelo menos convence pela doçura de sua personagem – assim como acontecia no recente Spotlight.

Mas o que realmente diferencia o filme é seu estudo de personagem e a maneira como ele encara a diferença entre a ficção e a realidade. Tomas é um homem infeliz e insatisfeito, mas que busca algum refúgio na ficção (“eu só quero escrever”, diz durante uma discussão com a namorada). No entanto, ao se envolver em um acidente que muda completamente a vida de outras pessoas (e sua própria) ele acaba tendo que encarar o mundo real, e é aí que encontra seus problemas.

Aliás, é interessante notar que ao ser confrontado pela namorada devido à sua passividade e frieza diante do mundo, o personagem está lendo um livro.

E é aí que está a discussão proposta do Wim Wenders. Enquanto uma personagem busca conforto para suas dores na fé, o protagonista se isola na ficção. E para quê serve a ficção se não para aliviar as dores e preocupações da realidade? É uma pergunta que o filme deixa você responder.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.