21
mar
2016
Crítica: “Zootopia: Essa Cidade é o Bicho”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Zootopia: Essa Cidade é o Bicho (Zootopia)

Byron Howard e Rich Moore, 2016
Roteiro: Jared Bush e Phil Johnston
Disney / Buena Vista

4.5

Zootopia é um filme que começa parecendo um genérico “acredite nos seus sonhos, você só será feliz quando realiza-los”, mas termina sendo uma imensa diversão, que funciona ainda como uma inteligente e relevante crítica ao preconceito e à mídia sensacionalista.

O filme acompanha a personagem Judy Hopps, uma coelha que, para realizar seu sonho de se tornar policial, se muda para a cidade de Zootopia, onde diversas espécies convivem em harmonia. Porém, ao iniciar seu trabalho acaba se deparando com uma misteriosa conspiração que envolve o desaparecimento de outros animais. Para a sua investigação ela conta ainda com a ajuda inesperada de Nick Wilde, uma raposa conhecida por seus truques e honestidade dúbia.

Uma das coisas que mais impressiona no filme é sua inventividade na criação de seu universo (coisa em que a Disney vem se tornando cada vez mais competente, vide a cidade de Operação Big Hero e os diversos mundos de vídeo games de Detona Ralph). Além de visualmente interessante, recheado de cores vivas e expressivas, o trabalho do estúdio ainda é feliz em criar pequenos detalhes sobre o funcionamento daquela sociedade, surpreendendo pela criatividade e pelo bom humor – gosto particularmente da maneira como o celular da protagonista, visivelmente inspirado no iPhone, traz como símbolo uma cenoura ao invés de uma maçã. Além disso, o filme ainda brinca com nossos próprios costumes e vícios do dia a dia (como na piada que envolve um aplicativo de dança, e que rende um dos momentos mais engraçados do longa), e ainda se diverte com o que seria o estereótipo da personalidade de cada animal (os coelhos fazendeiros, a preguiça preguiçosa, o touro durão, a raposa trapaceira, etc.).

Também é necessário aplaudir o cuidado no designe dos personagens, em especial a protagonista. Seguindo a velha e eficiente estratégia de empregar grandes olhos para passar bondade e confiança, o filme traz ainda uma grande riqueza de detalhes e trejeitos que enriquecem a personagem (como o reflexo de levantar as orelhas quando ouve algo inesperado).

Mas o que realmente acaba diferenciando tanto ao obra é sua madura visão sobre a mídia (propaganda para ganhar poder, de modo geral) e preconceitos, que no início pode até parecer óbvia (o velho “não importa quem você é, você pode realizar seus sonhos”), mas acaba se desenvolvendo em algo complexo que evita moralismos e se encaixa de maneira orgânica dentro da trama de investigação do filme – e a sequência que envolve uma declaração da protagonista em uma coletiva de imprensa (e toda a eventual consequência disto) está, sem dúvidas, entre as melhores do ano e traz uma das discussões mais complexas e inteligentes que eu já vi em um filme infantil (incluindo os trabalhos da Pixar), servindo não apenas como uma crítica à política do medo (especialidade do governo americano), mas também às manobras políticas que se beneficiam do caos criado pela mídia para vender ideais preconceituosos (Trump e os muçulmanos servem como exemplo atual).

Para não dizer que o filme é exemplar, é necessário admitir que, além do começo meio incerto, sua duração poderia ser um pouco mais curta, e o excesso de reviravoltas no terceiro ato também incomoda, chegando até a soar um pouco artificial.

Achando ainda espaço para referências divertidíssimas (desde momentos rápidos, como aquele que remete a Breaking Bad e outro envolvendo DVDs piratas dos últimos filmes da Disney, até outros mais elaborados, como a longa sequência inspirada em O Poderoso Chefão), Zootopia é uma diversão enorme ao mesmo tempo em que é um filme ambicioso do ponto de vista temático – sendo, desde já, um dos melhores trabalhos do ano, independente do gênero ou técnica de produção.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael