30
mar
2016
Entrevista Com a Atriz Maeve Jinkings!
Categorias: Entrevistas • Postado por: Pedro Bonavita

Nascida em Brasília, Maeve Jinkings teve sua primeira experiência como atriz aos nove anos de idade, na escola. Nove anos mais tarde resolveu que estudaria artes cênicas de lá nunca mais saiu. Atriz de grande talento, uma das melhores de sua geração, a brasiliense se destacou muito em dois longas recentes do cenário pernambucano: O Som ao Redor e Boi Neon. Recentemente, deu vida à personagem Domingas, na novela global A Regra do Jogo. Com Domingas, Maeve alcançou uma popularidade nacional, principalmente pela trama, onde sua personagem sofria violência doméstica.

O Pipoca Radioativa conversou um pouco com a atriz, confia a entrevista na íntegra!

Novela

Quando você decidiu que queria ser atriz?

Minha primeira experiência atuando foi por volta dos 09 anos, numa aula de matemática da 3a série. Deveríamos encenar contos do livro “O Homem que Calculava” de Malba Taham, mas no meu grupo ninguém queria ser o narrador porque tinha que decorar muito texto… Não apenas topei o desafio, como tomei gosto pela arte de contar historias. Fiquei ruminando isso até os 18 anos, quando finalmente admiti a mim mesma e minha família que gostaria de estudar artes cênicas.

E como foi seu início no cinema?

Em 2006 ainda cursava a Escola de Artes Dramáticas da USP quando a produtora Sara Oliveira me chamou pra fazer teste para um pequeno papel no filme do Carlos Reichembach. Após o teste Carlão me ofereceu um papel maior, mais próxima da narrativa central e cujo nome era uma homenagem à sua esposa Ligia. Mas foi tudo um pouco no susto, porque Carlão não tinha hábito de ensaiar, fazia apenas uma leitura coletiva da cena e pronto! E eu não tinha nenhuma intimidade com a câmera. Na minha primeira diária, o técnico do som direto me pediu pra projetar menos a voz… eu estava no registro do teatro. Daí em diante fui me adaptando intuitivamente. Tenho um carinho enorme por esse filme, por Sara e Carlão, que me deram essa primeira oportunidade. Depois disso continuei fazendo teatro e só voltei a um set de cinema em 2010, com O Som ao Redor.

Você já atuou como preparadora de elenco. Como foi essa experiência?

Foi um convite de dois cineastas que admiro, Nara Normande e Tião, que dirigiram esse roteiro extraordinário chamado Sem Coração, com personagens pré adolescentes numa praia alagoana. Antes disso eu vinha filmando muito em Recife, e fui criando um processo muito próprio de me guiar no processo de construção de personagens. Dessa forma, fazer preparação foi uma maneira também de organizar racionalmente meu processo de auto preparação como atriz de cinema.

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Como você recebeu o sucesso de O Som ao Redor?

Sabia que seria um grande filme, mas fui ficando surpresa com o tamanho que a coisa foi tomando. Foi bonito também porque foi o primeiro filme depois de anos fazendo só teatro, então O Som ao Redor foi uma forma de me reapresentar ao cinema nacional.

Você ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília em 2013, como foi essa experiência?

O filme Amor Plastico e Barulho me deu a chance de viver a personagem mais complexa e com curva dramática mais acentuada, até aquele momento de minha carreira. Fiz uma pesquisa intensa de corpo, de voz e principalmente da subjetividade de mulheres que viviam da indústria do brega em Recife, além de frequentar reuniões do Alcoólicos e Narcóticos Anônimos, pois a personagem tinha uma relação de dependência do álcool. Tudo era muito distante de meu universo pessoal, e não seria possível viver isso tudo sem ser profundamente atravessada pelas pessoas que tiveram e generosidade de abrir suas vidas para mim. Além disso, o premio de 2013 em Brasilia foi meu primeiro prêmio como atriz, o que por si só já o torna muito marcante.

Qual filme marcou sua infância? Sua vida? E qual seu diretor favorito?

Os filmes dos Trapalhões são filmes que marcaram muito minha infância, especialmente “Os Saltimbancos Trapalhões”. Mas também os filmes adultos que assisti com meus pais, tiveram uma enorme influencia no meu gosto pelas artes, talvez até pela atuação: diversos filmes do Carlitos, de Charles Chaplin; O Baile, de Ettore Scola; 2001 Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.

Como você encara cenas de nudez na tela de cinema?

O nu é lindo, o corpo humano é lindo, e todo tipo de comportamento humano me interessa como material de trabalho. Minha questão sempre é questionar à que serve o nu, a quem serve esse nu, que olhar é esse. E especialmente: há sexismo nesse olhar? Como atriz sou obrigada a me fazer essa pergunta, afinal de contas o corpo feminino é frequentemente hiperexplorado em detrimento de sua subjetividade.

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Em Boi Neon, longa lançado recentemente, percebemos que a atuação do elenco é muito natural. Vocês estão inseridos em um universo que não é muito conhecido do grande público, principalmente fora do nordeste. Como foi sua preparação para interpretar Galega?

Foi intenso, e não foi fácil. Vivi com meus colegas de elenco numa casa por quase 3 meses, descolori o cabelo, acompanhei muita vaquejada, aprendi a dirigir caminhão de boi. Tínhamos uma rotina rural mesmo, acordávamos às 5h pra tirar leite de vaca, limpar o curral dos cavalos, cortar capim, dar banho em cavalo, dar mamadeira ao cabrito…. Só depois disso tudo tomávamos café da manha. Quando Fátima Toledo chegava pro ensaio às 10h, já estávamos no meio do dia (risos). Foi uma experiência muito rica.

Qual a maior diferença entre cinema e televisão para uma atriz?

O tempo disponível de estudo pra se debruçar sobre a obra! Em termos de volume de material, a cada dois capítulos no ar uma novela produz um longa metragem inteiro. É um volume assombroso que dura cerca de 7 meses no ar, sem falar na pré produção. Esse trabalho em ritmo industrial acaba criando uma dinâmica ansiosa e exaustiva no set da TV, muitas vezes gerando dispersão na equipe, e isso pode ser muito hostil ao trabalho do ator. Temos menos tempo pra decupar cada cena e na hora de gravar muitas vezes não temos a atmosfera ideal. Mas pude notar que isso depende também da equipe, do diretor de frente. Tive experiências de extrema delicadeza no set da novela.

Qual a repercussão da trama de Domingas? Como você analisa a construção narrativa dela?

Quando fui convidada pra interpretar Domingas, sabia que a personagem abandonaria o agressor e que chegaria um “príncipe” para faze-la feliz. Mas a recepção por parte do público foi ainda melhor do que eu imaginava, assim como o desfecho dela na narrativa. Além de ser um tema relevante no país já que somos campeões mundiais em agressão à mulher, na mesma época da novela houve um forte movimento com pautas relacionadas aos direitos da mulher, que ficou conhecido como a Primavera das Mulheres. De minha parte, fiquei particularmente feliz com a forma como a narrativa deixou que Domingas vivesse um período sozinha após o rompimento com César. Ao invés de ficar encolhida com o fim do conto de fadas, ela deu a volta por cima, se fortaleceu ainda mais e virou empreendedora. Ao final da novela ela ficou com César porque o amava, e não por dependência.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.