07
abr
2016
5 filmes aprovados no teste Russo!
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: Marcelo Silva

Você provavelmente já conhece o teste de Bechdel (se não, clique aqui para ver o post especial do Pipoca sobre ele), mas já ouviu falar sobre o teste Russo?

Inspirado no Bechdel, ele foi criado em 2013 pela Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação (GLAAD, em inglês), a fim de analisar como personagens LGBTs são mostrados no cinema.

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O nome do teste é uma homenagem ao americano Vito Russo (1946 – 1990), historiador de cinema e co-fundador da GLAAD.

Para ser aprovado no teste Russo, um filme precisa obedecer a três critérios:

  • Conter, pelo menos, um personagem que seja identificado como gay, lésbica, bissexual ou transsexual;
  • O personagem não deve ser definido apenas por sua orientação sexual, ou seja, deve apresentar características individuais que fujam de estereótipos e os distinguam dos outros;
  • O personagem deve ser inserido na trama de maneira que sua remoção tenha um efeito significativo, ou seja, ele deve ocupar alguma função no enredo;

Confira agora cinco filmes que seriam aprovados no teste Russo (como o site oficial não divulga a lista de títulos avaliados, ficou a cargo do Pipoca Radioativa fazer a seleção):

A Viagem (dir: Lilly Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer, 2012)

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Robert Frobisher (Ben Wishaw) e Rufus Sixsmith (James D’Arcy)

Baseado no livro de David Mitchell, A Viagem reúne seis histórias de diferentes épocas que estão conectadas entre si, mostrando que um simples ato pode atravessar séculos e inspirar uma revolução.

Em meio a uma trama complexa que mescla drama, romance, ficção-científica, suspense e comédia de um jeito nunca visto antes no cinema, a representação LGBT ficou por conta do casal de amantes Robert Frobisher (Ben Wishaw) e Rufus Sixsmith (James D´Arcy). Além de serem de extrema importância para o desenrolar da história, os dois protagonizam uma das cenas mais bonitas do filme: o momento em que Frobisher se despede na carta e se esconde de Sixsmith, quando este vai à sua procura.

O roteiro não se preocupa em problematizar a questão do preconceito (há apenas uma cena em que isso é escancarado pela fala de um personagem), acertando ao valorizar o que há de sublime no relacionamento do casal – um amor capaz de superar até mesmo as barreiras da morte, que é “apenas uma porta”, nas palavras do próprio Frobisher.

Azul é a Cor Mais Quente (dir: Abdellatif Kechiche, 2013)

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Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux)                 

Vencedor da Palma de Ouro em 2013, Azul é a Cor Mais Quente é um filme que, desde o seu lançamento, gerou polêmica. As atrizes acusaram o diretor de ser exageradamente rigoroso, as empresas se recusaram a lançar o filme em Blu-ray no Brasil e, mais recentemente, a obra foi tirada de circulação na França por pressão de religiosos. Mas, afinal, por que o longa incomodou tanto?

A história, que acompanha o amadurecimento sexual da jovem Adèle (Adèle Exarchopoulos) e seu complexo relacionamento amoroso com Emma (Léa Seydoux), perturbou a mente dos mais conservadores – que também não aprovaram as longas cenas de sexo entre as personagens.

Deixando toda a polêmica de lado, Azul é a Cor Mais Quente é um filme maravilhoso, que acompanha com muito realismo as várias etapas de um relacionamento amoroso: a empolgação pela descoberta do novo amor, as brigas, os ciúmes e a dolorosa separação.

É claro que nada disso seria possível se o diretor Abdellatif Kechiche não contasse com o talento da dupla de protagonistas. Por mais que Léa Seydoux esteja excelente em cena, o destaque fica por conta de Adèle Exarchopoulos, uma atriz de talento inegável que nos faz amar a personagem mesmo quando esta comete uma série de erros.

Hoje eu Quero Voltar Sozinho (dir: Daniel Ribeiro, 2014)

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Leonardo (Guilherme Lobo) e Gabriel (Fabio Audi)

Em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Leonardo (Guilherme Lobo) é um adolescente cego que está à procura de sua própria independência, até que tudo muda com a chegada de Gabriel (Fabio Audi), colega de classe que desperta um sentimento que ele não conhecia antes.

Famoso por ter representado o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa do diretor Daniel Ribeiro é um retrato intimista não apenas do amor, mas também da adolescência, período marcado por incertezas, conflitos pessoais, angústias e desejos dos mais variados. Leve, divertido e comovente, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é uma verdadeira pérola do cinema nacional.

Priscilla, a Rainha do Deserto (dir: Stephan Elliot, 1994)

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Bernadette (Terrence Stamp), Mitzi (Hugo Weaving) e Felicia (Guy Pearce)

Realizar uma obra cômica protagonizada por drag queens e transsexuais é desafiador. Na maioria das vezes, os personagens são tratados de maneira estereotipada e vistos como donos de um humor e uma histeria que beiram o ridículo (basta assistir a qualquer “episódio” do antigo Zorra Total ou a um filme besteirol americano para constatar isso). Felizmente, não é o que ocorre em Priscilla, a Rainha do Deserto.

O filme acompanha a viagem de ônibus das drag queens Mitzi (Hugo Weaving) e Felicia (Guy Pearce) e da transexual Bernadette (Terrence Stamp) até um resort no deserto australiano, onde realizarão um show. Durante a viagem, algumas surpresas vão surgindo: o ônibus quebra, um novo passageiro é aceito a bordo e o grupo descobre que quem os contratou foi a esposa de Mitzi.

Ao mesmo tempo em que diverte o público com consagrados números musicais e situações hilárias, o diretor Stephen Elliot promove comoção ao mostrar as três protagonistas como seres humanos normais, repletos de desejos, sonhos, dúvidas e angústias que precisam lidar com a intolerância e o conservadorismo da população do interior da Austrália.

Tudo Sobre Minha Mãe (dir: Pedro Almodóvar, 1999)

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Lola (Toni Cantó), em Tudo Sobre Minha Mãe

Manuela (Cecilia Roth) é uma mãe solteira que presencia a morte do seu filho (Eloy Azorín) bem no dia em que ele completava dezessete anos. Desolada, ela parte para Barcelona a fim de encontrar o seu ex-marido, a travesti Lola (Toni Cantó), que nunca soube da existência do filho. Uma vez lá, ela reencontra sua velha amiga Agrado (Antonia San Juan) e se torna próxima de Rosa (Penélope Cruz), uma jovem e insegura freira. Meio que por acidente, Manuela vira também assistente de Huma Rojo (Marisa Paredes), renomada atriz de teatro que seu filho tanto adorava.

O interessante em Tudo Sobre Minha Mãe é a maneira como Pedro Almodóvar dá voz a personagens que não teriam grande espaço em uma narrativa tradicional. Antes de tudo, chama a atenção o fato de o núcleo principal do elenco ser formado por mulheres – quantas vezes vemos isso no cinema?

As duas transexuais do longa, Lola e Agrado, apresentam personalidades distintas. Enquanto Agrado é o alívio cômico da trama, mostrando-sempre muito segura de si e piadista ao extremo; Lola carrega uma expressão melancólica durante as cenas em que se faz presente, resultado, certamente, de uma vida dura e marcada por dúvidas.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!