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abr
2016
Pipoca Clássicos: “A Noite Americana”
Categorias: Críticas, Pipoca Clássicos • Postado por: Pedro Bonavita
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A Noite Americana (La Nuit Américaine)

François Truffaut, 1973

Roteiro: François Truffaut
Prêmios:  Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira (1974)
Silver Screen

4.5

Sinopse: Um dos filmes que melhor representa as loucuras que se passam em um set de filmagem. Um ator que fica deprimido porque sua noiva sai com um dublê, uma atriz que se entregou às bebidas e não consegue lembrar de suas falas e muitas outras confusões, que o diretor deve fazer de tudo para contornar, até gravarem uma das cenas mais importantes do filme: a que o dia deve ser transformado em noite artificialmente.

O que foi a Nouvelle Vague?

Foi uma nova estética de cinema criada na França, em 1958, como reação contrária às superproduções hollywoodianas da época, encomendadas pelos grandes estúdios.A contraproposta eram filmes mais pessoais e baratos – o chamado “cinema de autor”. Seus principais representantes eram jovens críticos, reunidos ou inspirados pela revista Cahiers du cinéma (“cadernos de cinema”), criada pelo teórico André Bazin e considerada a bíblia da crítica à sétima arte. Depois de muito resenharem filmes alheios, eles arregaçaram as mangas e fizeram os seus. Em comum, tinham o desejo por autonomia criativa, mas cada um retratou suas próprias questões pessoais e cotidianas.

François Truffaut e Jean-Luc Godard são os dois maiores expoentes do movimento de cinema francês conhecido como Nouvelle VagueMesmo estando juntos no mesmo barco os dois têm pensamentos completamente diferentes um do outro. Enquanto Godard defende que nos filmes é necessário ter uma posição política, Truffaut acredita que o filme é seu instrumento para expressar sentimentos e sensações. Em A Noite Americana, o cineasta francês expressa todo o seu amor pela sétima arte.

Crítica

A trama acompanha uma filmagem. Ou seja, é um exercício de metalinguagem. O diretor Ferrand (Fronçois Truffaut) está filmando “Je Vous Presente Pamela”, história de uma moça que troca o marido pelo sogro após se apaixonar por ele. O cineasta não se atem apenas a contar como funciona o processo de filmagem, mas sim tudo o que envolve a produção de um filme, o que torna tudo mais divertido e curioso. Aqueles que trabalham com cinema sabem quão difícil é o processo, e ao roteiro lidar com atores com problemas pessoais, um falecimento, problemas técnicos, curto tempo de filmagem, etc., ele acaba deixando essa dificuldade mais latente aos olhos do público.

É interessante notar como o longa vai nos envolvendo entre bastidores e a história do filme dentro do filme de maneira orgânica, contando com uma montagem harmônica que deixa completamente natural a passagem da “ficção” para a “realidade” dentro do roteiro.

Se é um pouco didático, não podemos dizer que falta paixão ou criatividade em seu desenvolvimento. Truffaut aproveita para homenagear não só o seu amado cinema, mas também um de seus ídolos: Orson Welles, já que em sonho de Ferrand, somos apresentados a um garotinho que rouba cartazes de Cidadão Kane das portas de cinemas. O amor pelo cinema não é passado somente pela metalinguagem, mas por todo o clima existente no filme, e principalmente em diálogos marcantes como, por exemplo, a moça que diz: “Eu largaria um cara por um filme, mas nunca largaria um filme por um cara”. Toda a reunião de experiências presente aqui serve para aproximar ainda mais o cinema da nossa vida.

Para quem se interessa por cinema e não está muito familiarizado ainda com o processo de produção, as gravações do filme dentro do filme trazem diversas curiosidades. Nomes de técnicas, termos utilizados em um set de filmagem, o truque nos cenários, a forma como os atores fazem as cenas quando não decoram os textos, o trabalho do dublê e também aquele que é o momento mais divertido de todo o longa, quando o contrarregra tem extrema dificuldade em fazer com que o gatinho beba o leite deixado na porta do hotel.

A Noite Americana não poderia ter nome mais simbólico do que aquele usado para denominar a técnica de filmar cenas noturnas em plena luz do dia, já que o cinema é isso: um belíssimo exercício de faz de conta. No final, Truffaut nos mostra que o processo de criação pode ser mais interessante do que o produto final. É realmente uma prova de amor à sétima arte.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.