13
abr
2016
Crítica: “Para Minha Amada Morta”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
PARA MINHA AMADA MORTA

Para Minha Amada Morta

Aly Muritiba, 2016
Roteiro: Aly Muritiba
Vitrine Filmes

4.5

Trabalhar em uma empresa de comunicação tem algumas vantagens, como por exemplo, ir a um cine clube às 10h da manhã de uma quinta-feira. Melhor ainda é poder acompanhar novas produções do cinema nacional, ainda mais quando trata-se de cinema feito fora do eixo Rio-São Paulo, que não chega tão facilmente assim no circuito comercial. O chamado cinema de borda é muito rico aqui no Brasil. É cada vez mais importante que os editais premiem projetos de todos os estados da nação, é a principal forma de crescimento da nossa produção, tanto em números quando em qualidade artística. O cinema regional também incentiva a ida ao cinema nos locais onde os longas são produzidos. Que continuemos cada vez mais assistindo o cinema pernambucano, o paranaense, o goiano, o brasiliense, o amazonense, o gaúcho e porquê não o acreano?!

Cada um de nós lida com a morte de uma pessoa amada de maneira diferente um do outro. Há quem chore alguns dias e depois supere, há também aqueles que se fecham em seu mundo e curtem o luto sozinho, apenas deixando a dor passar pouco a pouca, já outros acabam que sentem a necessidade de encontrar alguma de estar mais perto daquele(a) que se foi. É o caso de Fernando (Fernando Alves Pinto) um fotografo da Polícia Civil, que ao ficar viúvo, além de cuidar de seu filho pequeno, cuida também das coisas de sua falecida esposa, como por exemplo, passa seus vestidos, limpa seus sapatos e bijuterias, etc.. Está claramente ainda sem saber o que fazer com os objetos de sua amada. E é interessantíssimo como Fernando nos é apresentado deitado em cima dos vestidos e sentindo o perfume que ainda ali reside. Vasculhando ainda os pertences Ana (Michelle Pucci), encontra uma série de fitas VHS e resolve vê-las. No meio de vídeos de uma apresentação de ballet, de seu casamento, nosso protagonista encontra também uma fita erótica, onde sua esposa transava com outro rapaz e assim descobre que foi traído. Transtornado, usa seu emprego para conseguir informações do amante e vai atrás dele. Nisso, começamos a acompanhar um interessante thriller, que foge bastante dos clichês de suspense.

Apesar da tensão que toma conta da tela a partir do segundo ato, Para Minha Amada Morta trata mais de um estudo de personagem do que um estudo de gênero. Fernando fica obcecado pela traição de Ana que passa a não enxergar mais nada a sua frente, nem mesmo seu filho, que deixa aos cuidados de sua ex-cunhada. Movido o tempo todo por sua obsessão, vai atrás de Salvador (Lourinelson Vladmir) e aluga a casinha dos fundos do terreno onde o amante de sua mulher reside com a família. Nesse momento, o espectador começa o tempo todo a imaginar o que vai acontecer, qual será a vingança de Fernando, já que o tempo todo a impressão que temos é que se trata de uma trama vingativa. De fato, o fotografo vai até ali com a intenção de se vingar, porém ele não sabe exatamente como fazer isso. É interessante esse conflito interno da personagem e a forma como o diretor e roteirista Aly Muritiba conduz esse fio, já que é a partir dessa insegurança de Fernando que faz com que o clima de suspense toma conta da tela. Afinal, ele vai se envolver com a esposa Raquel (Maiana Neiva) ou então com sua filha adolescente (Giuly Biancato)? Ele vai matar Salvador? Em algum momento ele vai contar que era o marido de Ana e destruir aquela família que enfim está vivendo com algum tipo de harmonia? Essas perguntas ficam pairando no ar até o final do terceiro ato.

Muritiba usa também muito bem o fato da família de Salvador ser evangélica. Sem partir para o fanatismo religioso ou então fazer uma crítica à religião, o diretor acerta na construção religiosa daquelas pessoas, que é de suma importância para a narrativa do filme. Primeiro na forma como recebem Fernando em um primeiro momento, o tratando como um “irmão” (como prega sua religião), depois no estranhamento deles diante do fato dele fumar e beber. É irônico como Salvador diz à Fernando que não é certo um irmão entrar na casa de uma fiel casada sem seu marido estar presente. Mas ué, ter um caso com uma mulher casada e trair sua esposa é certo? É nesse momento em que rola uma das sequências de maior tensão do longa e pra mim aquela que é mais emblemática, quando após recriminar, Salvador acaba inocentemente contando como foi seu caso com Ana. Enquanto o amante narra todo seu romance proibido, Fernando está com uma pá na mão, recolhendo o entulho de uma obra e depois, ao se virar, ergue a pá em seus ombros, em mais uma referência religiosa, já que parece que ali ele estava crucificado e terminando de sofrer todo o baque da traição que sofrera, além também de que com essa posição o diretor nos leva a crer que a qualquer momento ele acertará com a ferramenta na cabeça de Salvador e ali a vingança estará completa.

Fernando Alves Pinto cria um personagem totalmente melancólico, falando o tempo todo em um tom mais baixo e com o olhar perdido e incrédulo: primeiro pelo luto e depois ao descobrir a traição, que dói mais ainda porque no vídeo ouve Ana dizer que Salvador foi a melhor coisa que lhe aconteceu. Porém, o destaque fica mesmo por conta de Lourinelson Vladmir que dá vida à uma personagem tão complexa quanto Fernando, mas que se desenvolve melhor na tela, principalmente quando vamos conhecendo seu passado e seu presente. É interessante notar como ele consegue ser duro e carinhoso ao mesmo tempo com sua família, além da simplicidade como lida diante da ameaça de Fernando na cena dos dois na cozinha. Vladmir está completamente seguro em cena e ganhou com louvou o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília em 2015. Quando vamos conhecendo melhor cada personagem e como eles vivem, notamos os traços curitibanos do longa, já que em nenhum momento estamos diante de pessoas muito expansivas, por exemplo.

É notável como o roteiro evita colocar Salvador na posição de um antagonista vilão, mesmo que em um primeiro momento, ao apresentá-lo como um ex-presidiário nos faz acreditar justamente em tratar-se de um mal elemento. Mas conforme a narrativa se desenvolve, começamos a nos aproximar mais de sua personalidade, ao mesmo tempo, que começamos a sentir traços de psicopatia em Fernando, que nos faz afastar um pouco da dor de seu luto.

A fotografia de Pablo Baião é belíssima do ponto de vista estético, contando com planos simétricos e bem definidos, é também importantíssima em termos narrativos. Estamos sempre em um ambiente mais escuro e claustrofóbico. Imagens coladas no rosto do ator quando necessário, dando ritmo e tensão à certas sequências. O trabalho de Baião se faz presente também logo no início do filme, ao sempre deixar escuro os ambientes da casa onde Ana poderia estar. E nas fitas VHS é interessante percebemos que por muitas vezes as imagens estão desfocadas, principalmente nos vídeos do casamento.

No primeiro momento, ao final da sessão, fiquei um pouco frustrado porque tudo aquilo que eu imaginava para o momento derradeiro do filme não aconteceu. Pelo contrário, Muritiba surpreende em seu final, trazendo um pouco mais de dramaticidade àquela trama.

Para Minha Amada Morta está o tempo todo quebrando nosso olhar viciado, e isso talvez seja o maior mérito do longa.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.