08
abr
2016
Crítica: “Rua Cloverfield, 10”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane)

Dan Trachtenberg, 2016
Roteiro: Damien Chazelle, Josh Campbell e Matthew Stuecken
Paramount Pictures

4

Feito em segredo e tendo sua existência revelada apenas com o lançamento do trailer poucos meses antes do lançamento, Rua Cloverfield 10 é um filme que quanto menos você souber sobre ele melhor vai ser sua sessão. Basta saber que se trata de um suspense de alto nível, que acompanha uma jovem (Mary Elizabeth Winstead) que após um acidente de carro acorda em um abrigo nuclear sem acesso ao mundo exterior com um homem (John Goodman) a dizendo que salvou sua vida e que houve um ataque químico que deixou o mundo inabitável e só será seguro sair dali depois de anos.

Como o filme se passa quase todo no mesmo local, o trabalho de designe de produção se torna ainda mais importante do que o usual, e não decepciona, sendo eficiente em equilibrar ameaça (como no quarto em que a protagonista dorme) e uma peculiar sensação de conforto (como na sala cheia de DVDs e livros arrumados metodicamente). A fotografia também é inteligente em apostar em cores azuladas e frias, gerando uma estranha sensação de desconforto e impedindo que o clima fique muito amigável mesmo nas cenas mais leves.

O roteiro de Damien Chazelle, Josh Campbell e Matthew Stuecken foge dos diálogos excessivamente expositivos (ainda que alguns sejam inevitáveis) e consegue apresentar com calma os elementos que virão a ser importantes no decorrer da trama. Além disso, o diretor estreante Dan Trachtenberg se mostra hábil não apenas em criar sequências insuportavelmente tensas, como ainda se beneficia do conhecimento limitado do espectador sobre os personagens para passar um constante clima de desconfiança e perigo.

E se no início pode até parecer que o uso da trilha sonora vai ser excessiva e exagerada, conforme a trama avança o diretor demonstra maturidade e utiliza com maestria o silêncio para extrair desconforto (como no primeiro jantar entre os personagens) e tensão (como na cena que envolve um molho de chaves e onde cada mínimo som pode fazer a diferença). Além disso, o filme se beneficia da presença de uma jukebox para incluir músicas já conhecidas e criar várias sequências divertidas – e confesso que poucas vezes ri tanto em um filme como na cena que traz John Goodman dançando.

E por falar em elenco, Mary Elizabeth Winstead está muito bem, fugindo completamente do estereótipo da “mocinha em perigo” e surpreendendo pela inteligência e coragem de tomar iniciativas. Já John Gallagher utiliza seu timing cômico para dar leveza ao filme, além de funcionar como apoio para a protagonista ainda que não saibamos muito sobre seu personagem, que também pode gerar desconfiança.

Mas de longe o maior destaque fica mesmo por conta de John Goodman, que traz um equilíbrio perfeito entre mistério, ameaça, fragilidade (ainda que dúbia) e – propositalmente ou não – senso de humor (afinal, seu personagem é um ex-militar, então como não se lembrar de seu papel em O Grande Lebowski?).

Mesmo se prejudicando um pouco por trazer um clímax que, ainda que eficiente muda completamente o tom que havia sido estabelecido até então, Rua Cloverfield 10 é um ótimo filme, que se diferencia pelo seu suspense e ainda deixa espaço para o espectador especular sobre seus personagens.  Que boa surpresa!

P.S: Não comentei sobre a relação deste filme com o Cloverfield: Monstro (2008), pois acredito que apenas a sugestão do título já é suficiente para atiçar a curiosidade, e qualquer coisa a partir daí poderia ser spoiler.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael