27
abr
2016
Crítica: “The Rover – A Caçada”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
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The Rover – A Caçada (The Rover)

David Michôd, 2014
Roteiro: David Michôd e Joel Edgerton
Vitrine Filmes

4

No mundo atual, a falta de empatia com o próximo é uma das razões para a qual eu tenha uma certa perda de fé na humanidade. Mas lá no fundo há também razões para acreditar que, ainda, a maioria das pessoas está apta a olhar para o diferente e o novo sem preconceitos e compaixão. Partindo deste pequeno discurso, inicio a crítica de um filme que fala justamente sobre a falta de fé na humanidade e a recuperação desta com situações muito difíceis e quase impassíveis de se lidar.

O longa dirigido por David Michôd e erroneamente vendido (ou acreditado por parte do público) como um novo irmão de Mad Max, na verdade é um drama forte e ao mesmo tempo cru que se passa em um futuro pós-colapso econômico (especificamente na Austrália) onde água é artigo de luxo e as formas de sobrevivência são conquistadas através de armas e de frieza. Nesse cenário, o espectador é apresentado a Eric (Guy Pierce) que acaba de estacionar seu carro próximo ao que pode parecer uma taberna. Ali por perto um carro desgovernado com três passageiros, um deles ferido, parece fugir de algo e anda com uma velocidade altíssima. Quando um pequeno acidente ocorre com eles, os três vêem em um carro estacionado a possibilidade da fuga imediata. É quando Eric se dá conta de que está sendo roubado e que não vai deixar a pequena gangue leve seu bem mais precioso embora; a partir daí ele sai em busca de seu carro a todo custo usando o carro dos bandidos para persegui-los.

O roteiro estabelece muito bem o conflito do filme e a construção de seu protagonista. Um homem completamente frio e livre de sentimentos que tem, a princípio, um único bem que lhe resta de valor e que não vai deixar na mão de qualquer pessoa. Mas conforme o longa avança, o espectador começa a se questionar se realmente o carro era tudo; se não havia algo que dentro do automóvel que Eric gostaria de recuperar. Em meio a uma pequena viagem que se inicia (e que transforma o longa em um road movie), o protagonista vai encontrando os mais variados tipos de pessoas pelo caminho, pessoas que são tão frias e livre de sentimentos quanto ele, ou até mais. E durante esta viagem, Eric se depara com Rey (Robert Pattinson), um rapaz à procura de seu irmão e ele parece ser o guia perfeito para leva-lo à gangue que roubou seu carro.

Rey é um personagem incrível dentro da trama. O rapaz parece uma criança em corpo de adulto, sem maldade alguma dentro de si e com uma ingenuidade que comove. Aparentemente deixado para trás durante algum combate, Rey ferido é salvo por Eric e durante o tempo que passam juntos, um começa a aprender com o outro de forma que a frieza antes estabelecida parece começar a incomodar. As motivações dos dois passam ser a de encontrar juntos o carro e a pequena gangue.

A direção de arte e fotografia estão intrinsecamente ligadas de forma muito competente por parte da equipe. Os figurinos e os cenários são livres de cores; tudo está em nítido tom opaco e pastel, quase sem vivacidade, o que demonstra ainda mais o caráter do que se restou no mundo. As estradas desertas e a areia que se move com os ventos deixam a sensação de seca e miséria de forma visível e verossímil. A trilha sonora tem momentos de contraste, com músicas pop que embalam algumas cenas para demostrar, talvez, alguma coisa boa e viva dentro daquele cenário quase sem esperanças.

Além desses aspectos, o longa ainda é forte em seu drama e, principalmente, nas atuações. Os protagonistas Guy Pierce e Robert Pattinson estão ótimos; mesmo com poucos diálogos e quase repleto de pequenos monólogos, Guy constrói seu Eric com o olhar e com pequenos gestos. O foco em seu rosto e em suas expressões deixam a trama ainda mais condizente quando acaba e mesmo Pierce sendo o grande motivador da narrativa, quem se destaca é Pattinson, com um personagem humanamente bem construído e gestos que indicam cada vez mais sua inocência. Os minutos finais são extremamente comoventes e a última cena revela ao espectador a esperança que faltava.

Longe de ser um drama pessimista, The Rover é um filme com uma mensagem arrebatadora e bonita para o espectador. Oferece personagens muito reais dentro de sua proposta e uma estética violenta, melancolicamente brutal, mas ao mesmo tempo bela. Merece ser visto e apreciado!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.