09
abr
2016
Crítica: “Zoom”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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Zoom

Pedro Morelli, 2016
Roteiro: Matt Hansen
Paris Filmes

4

O cinema brasileiro está em alta lá fora! Duvida? Podemos analisar a quantidade de prêmios que os nossos longas tem recebido pelos festivais em todo o globo. Anualmente trazemos para casa dezenas de premiações, sendo muitas delas como “melhor filme” e “melhor diretor”. Sabemos e muito fazer cinema, falta o reconhecimento interno. Uma tendência que mostra o quão estamos fortes no meio cinematográfico é a quantidade de cineastas brasileiros trabalhando em produções estrangeiras. A grande maioria na indústria de Hollywood, outros em séries do Netflix. Mas há também a co-produção com países que possuem a mesma dificuldade que a nossa para lançar as obras, como por exemplo, o Canadá. Pedro Morelli, após estrear na direção ao lado de seu pai (Paulo Morelli) no longa Entre Nós (2013), recebeu um convite e foi debutar no cinema estrangeiro em terras canadenses com o ótimo Zoom.

O longa acompanha três personagens em seus universos, que apesar de aparentemente tratar de universos paralelos entre si, percebemos que um está entrelaçado ao outro e é isso que dá todo o tom do filme. Emma (Alisson Pill) é uma jovem que trabalha na fabricação de bonecas eróticas com aspecto incrivelmente real e relaciona-se com um colega de trabalho. Nas horas vagas, Emma desenha quadrinhos contando a história de Eddie (Gael García Bernal) um diretor de cinema, conhecido por filmar blockbusters e filmes de ação, mas que no momento está realizando sua obra mais pessoal, mais sensível, tentando fugir o tempo todo da pressão do estúdio em cima dele. Em seu filme, o cineasta conta a história de Michelle (Mariana Ximenes) uma modelo brasileira que está escrevendo um livro, onde uma das personagens é Emma.

Diante de uma premissa que à primeira vista parece confuso, é de suma importância que a direção e todo o trabalho técnico do longa fosse realizado de maneira impecável. Isso acontece. Tentarei, ao longo de todo o texto falar um pouco de cada elemento técnico e de como ele contribui para a contribuição dos três universos. É quase inevitável que não tenhamos spoilers. É importante salientar, que mesmo que as três histórias estejam entrelaçadas, cada uma tem sua particularidade. Essas particularidades separam completamente uma da outra e o roteiro trabalha muito bem com isso tudo, já que consegue criar personagens complexos cada um com sua trama e se aprofundar psicologicamente em cada um deles, sem deixar de fazer a ligação entre elas, de maneira muito criativa.

É interessante notar como o texto acerta na maneira que trata do tema beleza, do corpo perfeito e da nossa constante preocupação com a aparência, como se ela fosse tudo na vida do ser humano. Começamos o longa com Emma criando bonecas eróticas idênticas à uma pessoa, reproduzindo inclusive celebridades. Emma é uma personagem que se preocupa muito com seu corpo, em seus desenhos cria mulheres e homens bonitos, com aparência perfeita. Decide então colocar silicone para se sentir bonita. Seu “namorado” diz que se ela fosse como seus desenhos jamais ficaria com ele, já que ele é totalmente fora do padrão de beleza imposto pela indústria da moda. Como se o mais importante em um relacionamento fosse de fato a beleza física. Eddie é um cara interessante. Além de bonito, é comunicativo, inteligente e trabalha em Hollywood. Porém, quando Emma decide apagar seu pênis no quadrinho, deixando ele com o pênis menor, ele se sente menos, perde toda a confiança e não consegue de se relacionar com as mulheres, por medo de virar chacota por conta do tamanho de sua genital. Michelle é uma linda modelo, que sofre preconceitos por querer escrever um livro, esse preconceito vem inclusive do seu namorado. Ué, uma pessoa bonita não pode ser ao mesmo tempo inteligente?

Para o público não se perder entre um universo e outro e ao mesmo tempo conseguir fazer um paralelo entre eles, Pedro Morelli trabalha junto da fotografia (Adrian Teijido), design de produção (Elisa Suave), montagem (Lucas Gonzaga) e trilha sonora (Kid Koala), executando três filmes diferentes que no final acaba tendo, por incrível que pareça, uma unidade estética. A principal responsável por essa unidade é a montagem, que consegue criar raccord entre planos de diegeses diferentes, deixando a visão do espectador confortável diante da tela, sem cortes bruscos. A montagem é responsável também por inserir a comédia na narrativa, impossível não rir quando Michelle apaga um texto em seu livro e a fala do ator é “rebobinada” ali, na sua frente.

A concepção da luz e da arte é o que finalmente diferencia cada história. Afinal, estamos falando de três narrativas completamente diferentes uma da outra (quadrinhos, filme e livro). Quando estamos acompanhando a história de Eddie, estamos diante de uma animação de muita qualidade. Nela, as cores são trabalhadas de maneira a sintetizar os sentimentos das personagens. Por exemplo, quando o cineasta está transando com a chefe do estúdio, a cor predominante dos lábios e cabelo é o vermelho, que representa a paixão; já quando ele está se relacionando com duas mulheres, as cores se tornam alaranjadas, uma cor mais forte e mais festeira, mostrando que ali era só curtição. Michelle é vista muitas vezes através de ângulos e movimentos de câmera diferentes, inclinados e muitas vezes fora de foco, que sintetiza não só a personalidade confusa da personagem entre ser modelo ou escritora, como também o fato de estar no pensando de Eddie. Enquanto trabalha como modelo, Michelle vive em uma casa luxuosa, quando decide seguir a carreira de escritora, opta por vir ao Brasil, seu país natal e viver uma vida simples na praia, e nessa hora gosto muito que o diretor opta por usar o forró como trilha sonora, tirando daquele clichê de samba que sempre nos representa lá fora. Já Emma, que seria aparentemente a personagem de um livro, acaba aparecendo sempre com uma fotografia mais realista, estando sempre centralizada na tela, o que demonstra que apesar de termos três personagens importantes, é ela a protagonista do filme. Além de ser a responsável pelas sequências iniciais e finais do longa.

Quando os universos começam a se confundir, percebemos que tudo começou a dar errado quando Emma resolveu colocar o silicone, onde muito incomodada com as pessoas te olhando na rua e a quantidade de curtidas no facebook, faz com que ela apague o pênis de Eddie, que por sua vez, completamente sem confiança não consegue dirigir o final de seu filme, ficando na mão do estúdio e por consequência mudando o final da história de Michelle. E, é interessante e engraçado notar como a direção e o roteiro brincam com o frágil e corrido final, sintetizando algumas vezes, inclusive na cena durante os créditos de que o final não é muito bom. O que faz com que em vez de perder pontos com o espectador, o filme ganhe ainda mais.

Zoom é uma comédia que brinca muito bem com a metalinguagem, além de tratar de um tema atual e que mexe com a cabeça de muitas pessoas. No final, fica a mensagem de que se você ficar tão paranoico com seu corpo ao ponto de mudá-lo, uma hora vai dar m…. .

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.