28
abr
2016
De Londrina a Cannes: conheça “O Canto do Claustro”!
Categorias: Entrevistas, Especiais • Postado por: Marcelo Silva

500 reais arrecadados por amigos e muita vontade de fazer cinema. Era isso que o trio Gustavo Nakao, Lucas Meyer e Luciano Albuquerque tinha para fazer o segundo curta-metragem de sua carreira. Depois de um ano de produção, onze revisões de roteiro e dois dias de filmagens, veio o suspense O Canto do Claustro, selecionado para o Festival de Cannes, que será entre 11 e 22 de maio deste ano.

A obra será exibida na mostra Short Film Corner e conta a história da arquiteta Santi (Nagomi Kishino), que precisa lidar com a depressão e a ansiedade (clique aqui para ver o teaser).

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Vinicius Munhoz e Nagomi Kishino em arte de O Canto do Claustro; a primeira exibição do curta no Brasil está prevista para julho

Filmado em Londrina e Rolândia (norte do Paraná), o curta é uma produção da Muvk e conta com Gustavo Nakao na direção e no roteiro, Lucas Meyer na fotografia e Luciano Albuquerque como produtor.

O grupo já vem de um filme de sucesso: Junie, vencedor do Prêmio de Melhor Curta-Metragem Londrinense no Festival Kinoarte de 2015.

O Pipoca Radioativa conversou com o diretor e roteirista de O Canto do Claustro sobre o projeto, a função do cinema e, obviamente, sobre as expectativas para Cannes. Confira abaixo:

Pipoca Radioativa: Quando começou o seu interesse por cinema?

Gustavo Nakao: Eu sempre gostei muito de cinema. Assistia a filmes várias e várias vezes – meus pais estranhavam um pouco. Aos 16 anos, conheci a obra de Truffaut e Godard e descobri que era apaixonado por cinema, que tinha uma cinefilia.

Quando entrei na faculdade, eu descobri a fotografia como forma de contar histórias, mas ainda sentia falta da palavra, já que minha paixão sempre foi por escrever.

No meio de um curso de roteiro, tive a ideia de “Junie” e comecei a desenvolver a história. Depois disso, fui chamado para ser assistente de fotografia do longa “Leste Oeste”, do diretor Rodrigo Grota. A experiência foi muito boa. Eu aprendi um monte de coisas – aprendi a fazer cinema de verdade, o que me ajudou na hora de gravar mais algumas cenas para “Junie”. Nesse momento, eu já estava bastante envolvido na área e decidi que ia me dedicar a fazer filmes.

Atualmente, trabalho na nossa produtora, a Muvk, e estou muito animado com nossos projetos.

PR: Como surgiu a Muvk e como foram os primeiros passos?

GN: No começo, nós nem tínhamos pensado nisso. Depois que terminamos “Junie”, nosso montador sugeriu que seria bom ter uma produtora para fazer a realização do filme. Assim surgiu a Filmes no Ar, nome antigo da Muvk – achamos o nome novo muito melhor.

Em alguns meses, entramos no circuito comercial fazendo propagandas e vídeos institucionais, sempre com um pouco da sensibilidade do cinema. Eu abraço cada projeto que a gente pega como uma oportunidade única e sempre me divirto muito planejando as referências, o roteiro, a edição, etc.

PR: Partindo da sua experiência, como é o trabalho do diretor e do roteirista no cinema?

GNO trabalho do diretor é como o de um líder que deve unir as pessoas. É como se ele fosse um maestro, até porque o cinema é arte coletiva, há uma visão conjunta por trás dele. “Junie” e “O Canto do Claustro” não são exclusivamente meus. Eles são frutos do trabalho de uma equipe, não de uma única pessoa.

Já o papel do roteirista é um pouco mais solitário,  já que envolve a leitura e análise de textos em sua própria casa. Sempre que eu encontrava um obstáculo dramático na hora de escrever, eu tinha que estudar uma forma de romper com isso, de buscar novas influências, ligações e experiências. É preciso ter calma, não desesperar e acreditar que o roteiro vai sair.

PR: Segundo o dicionário, a palavra claustro, que está no título do curta, tem vários significados. Ela pode se referir a coisas distintas como pátio coberto de um convento, igreja, limiteassembleia de professores. O que motivou a escolha do nome e qual definição se aproxima mais do tema do filme?

GN: Como o curta é polifônico e cada pessoa que assiste tem sua própria interpretação, eu não queria um nome que fosse transparente, muito óbvio. Queria permitir que fossem possíveis diferentes visões sobre a obra. Assim, a escolha do título – que demorou uns seis meses – já traz esse jogo de significados.

No filme, a palavra ‘claustro’ funciona, entre outras coisas, como metáfora de claustrofobia. Já ‘canto’ também pode significar o espaço físico de algum lugar ou o resultado do ato de cantar. A música do teaser dá vazão, justamente, a essa última possibilidade. Mas, durante o curta, o público vai questionando o verdadeiro significado da palavra.

PR: Em seus filmes, você trata de temas universais. Junie aborda o doloroso fim de um relacionamento amoroso, e, agora, você fala sobre ansiedade e depressão em O Canto do ClaustroPor que tocar nessas duas questões?

GN: Os temas de ansiedade e depressão não são bem retratados na  grande mídia, e eu achei que alguém tinha que falar sobre isso. São doenças sérias que não devem ser tratadas com estereótipos.

Eu também acredito no poder catártico da arte: acho que ela afeta e muda as pessoas. Em “Junie”, eu queria que todos que estivessem em um final de relacionamento se sentissem melhor. E “O Canto do Claustro” tem essa mesma intenção, de tentar fazer as pessoas se sentirem bem de alguma forma.

Algumas pessoas que sofrem de ansiedade ou depressão podem assistir ao filme e, talvez, se identificar com a história. Essa é a minha forma de tentar ajudar os outros.

PR: O curta é protagonizado por Nagomi Kishino e Vinicius Munhoz. Como os dois entraram no projeto?

GN: A Nagomi é uma atriz de cinema que já fez duas produções grandes e premiadas. Eu fiz um curso com ela, apresentei o projeto e ela se interessou.

Já o Vinicius é um amigo meu que tinha o perfil certo para o personagem. Eu fiz alguns testes e ele se saiu muito bem, a ponto de ter uma performance brilhante e virar a revelação do curta.

Aí, ficamos de 3 a 4 meses estudando os personagens e ensaiando. A gente ficava no estúdio lendo a mesma frase durante horas e também discutindo textos sobre o medo, um sentimento que está diretamente ligado à ansiedade e à depressão. Foi um processo bem intenso, mas que valeu a pena. 

PR: E quais são as expectativas para o Festival de Cannes?

GN: Nós estamos muito felizes com o reconhecimento e, também, muito ansiosos para ir a Cannes. Lá existe muita gente querendo fazer negócios, mas nossa expectativa mesmo é conhecer essa parte do cinema, viver isso e aprender o máximo possível. Queremos ir aos workshops, fazer contatos e trazer novos conhecimentos para produzir aqui mesmo, envolvendo mais gente em torno do sonho de fazer filmes. Há um monte de pessoas que querem fazer cinema. Então, por que não chamá-las para participar dos projetos?

PR: Quais os conselhos que você deixa para quem quer fazer seus próprios filmes?

GNÉ preciso criar um projeto, acreditar nele e torná-lo possível de ser feito. Pode ser muito difícil, podem demorar seis meses só para conseguir as coisas necessárias para as filmagens, mas tem que ter força de vontade e correr atrás.

Mesmo se a pessoa não tiver nenhuma câmera, ela pode buscar parcerias, procurar um equipamento adequado ou arriscar uma outra estética. Quando você se esforça, as coisas dão certo. A sorte é quando a preparação encontra a oportunidade.

PR: Você poderia adiantar algo sobre os próximos projetos? Há algum longa-metragem previsto?

GN: Temos um projeto de longa para ser gravado em 2017. Para esse ano, planejamos lançar o curta “Aya”, que foge um pouco da estética do “Junie” e de “O Canto do Claustro” e fala que sonhar é assumir riscos – exatamente uma dica para os novos diretores e todos os interessados em trabalhar com cinema.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!