20
maio
2016
Crítica: “Amores Urbanos”
Categorias: Críticas • Postado por: Raphael Cancellier

Amores Urbanos

Vera Egito, 2016
Roteiro: Vera Egito
Europa Filmes

3.5

A “crise dos 30” é um momento que afeta a vida de muitas pessoas que já passaram por diversos dilemas, como desilusões amorosas, crise profissional e familiar, sendo um momento em que os “jovens adultos” se encontram em um território de incertezas. Essa é a tônica de Amores Urbanos, longa brasileiro, cuja produção é assinada por Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo, 2006) e marca a estreia de Vera Egito, sua esposa, como diretora.

O filme gira em torno da vida de Julia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit) e Micaela (Renata Gaspar), três amigos que moram no mesmo prédio em São Paulo. Julia sofre uma desilusão amorosa, uma crise em seu atual emprego de assistente de moda e precisa lidar com a crítica dos pais, que sempre bancaram os seus sonhos. Diego é um jovem homossexual que foi expulso de casa e divide os seus dias entre as amigas, noitadas e um namoro que está se tornando sério; porém, Diego não é um namorado fiel e costuma sair com outros caras. Já Micaela (Renata Gaspar) namora Duda (Ana Cañas). Enquanto Micaela expõe a sua sexualidade sem grilos, Duda é uma mulher reservada e muitas vezes trata a namorada como amiga quando está perto de outras pessoas. Enquanto lidam com seus dramas, o trio discute assuntos relacionados ao cotidiano de pessoas de 30 anos, regado a música, festas e álcool.

Amores Urbanos é um filme interessante em muitos aspectos, como na fluidez dos diálogos e na verossimilhança, criando laços de identificações (principalmente se você for um jovem de 30 anos lidando com essas questões, como é o meu caso). No entanto, a produção possui algumas falhas técnicas que a enfraquece. Como a obra fala sobre a inconstância das situações em um ambiente urbano e cosmopolita como São Paulo e por ser um filme rodado com baixo orçamento, talvez essas falhas sejam intencionais. Mesmo assim, alguns desses momentos atrapalham sua fruição.

Em algumas sequências o áudio pareceu ter sido mal captado, como se ele não tivesse sofrido uma edição posterior e os sons tivessem saído diretamente da filmagem, como em algumas falas inaudíveis dos atores sendo suprimidas por sons externos – a música ambiente, carros, elevadores, entre outros. Também há erros de continuidade, como no momento em que Diego fuma e podemos observar claramente a diferença de tamanho do cigarro na mudança de planos, e falhas no roteiro, quando Diego está chegando em casa após uma briga com o namorado e Micaela já está com três copos de bebida prontos, para eles e Julia, mesmo ela não sabendo que ele ia chegar.

O roteiro também possui alguns clichês e deixas bastante simplistas, como no momento em que Julia fala que Diego sempre esquece a chave na porta. Após mais meia hora de filme, Diego deixa novamente a chave na porta, e em outras situações. A atuação de Pethit também não convenceu, e o seu personagem possuía muitos trejeitos e nuances que acabaram deixando o personagem estereotipado e sem profundidade.

Apesar de todas as falhas listadas acima, Amores Urbanos tem ótimos momentos que nos fazem perdoar esses pontos negativos. A naturalidade entre os diálogos e a química entre o trio nos dá a impressão de que eles realmente são amigos fora de cena. Enquanto conversam, seus diálogos possuem bastante naturalidade, rendendo momentos engraçados, como na discussão em que eles falam sobre tamanho e tipos de pênis, sendo questionados por Micaela porque nunca falam de vagina. A explicação de Diego sobre esse questionamento é impagável, terminando com a jovem o xingando de bicha misógina no final. Esse tipo de situação é extremamente comum nos dias de hoje, principalmente no universo gay. A união entre os três nos momentos de felicidade, tristeza e risos é muito gostosa de se acompanhar.

Os diálogos possuem muitos momentos de silêncio imprimindo uma carga de dureza e sensibilidade, mostrando as incertezas e a falta de profundidade, assim como o momento exato pelo qual os personagens estão passando. Julia é uma personagem que se ilude facilmente e possui falta de foco na vida, sendo dispersa, e percebemos o seu drama na cena em que ela tem uma discussão com os pais, tentando explicar a profissão e o porquê ainda não deu certo, mesmo os pais tendo investido em sua carreira. Os trejeitos de Julia ao postar as suas fotos no Instagram, o trio conversando sobre assuntos que veem online em seus celulares, sem olhar para a cara do outro, também são traços de identificação com a geração nos dias de hoje. A atriz Renata Gaspar foi um grande presente, trazendo uma Micaela completa, dosando os momentos de drama e humor com caras e bocas certeiras. Ana Cañas também fez uma boa estreia, com a sua Duda de sexualidade mal resolvida.

O filme também conseguiu transmitir a sua aura pop-indie-cult, universo em que o trio está inserido. Enquanto conversam e tomam as suas bebidinhas, ouvem-se músicas indies, como a de Céu e do próprio Pethit. A cenografia também caprichou nos objetos de cena, como a cabeça do veado na parede – artigo que está super na moda entre os jovens dessa idade – as cores mixadas entre o cinza, o preto e o azul nas paredes, nos móveis e no figurino. Inclusive, a direção de arte caprichou neste aspecto, pois a paleta de cores utilizada ao longo de todo o filme e o cenário e figurino clean nos dá a impressão de um ambiente urbano, imprimindo a frieza e a fragilidade das relações que transitam nestes locais. As cenas possuem cortes bruscos e rápidos entre elas e esse artifício foi utilizado de uma forma muito interessante para realçar a identidade da obra.

A produção possui muitas cenas tocantes e bem produzidas. Destaque para a cena em que Julia está sentada em um sofá com estampa de zebra com uma camisa listrada de preto e branco. A união entre a camisa e o sofá trouxe para a tela uma cena harmônica e muito bonita de se assistir. A cena em que Micaela e Duda têm a sua última discussão, com o fundo de uma rua escura, dando a ideia de breu, conseguiu unir cenário e situação para mostrar onde a relação se encontrava, explicando que não existia outra saída para as duas. Elenco duas cenas que considero as mais poéticas do filme: quando Julia é demitida e vai sair da sala, seu colega de trabalho vai até ela, a abraça, levanta a cabeça dela e volta para o seu lugar, como uma máquina. Mesmo sem um diálogo, a sequência conseguiu ser intensa e trazer muito significado para Julia, que precisava sair de cabeça erguida. Ponto para o roteiro e para os atores. A cena em que Julia vai fazer o seu ultrassom e a sua mãe, com quem a jovem não tinha uma boa relação, entra no consultório e as duas, juntas com o pai, seguram as mãos, também é emocionante.

Apesar de suas falhas, Amores Urbanos cativa, mostrando a fragilidade dos amores modernos, como já dizia Zygmunt Bauman em seu conceito de amor líquido. Vale a pena o tempo gasto!



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.